Revolta popular derruba governo da Tunísia e presidente foge do país

Onda de protestos. Após um mês de violentas manifestações contra corrupção, desemprego e falta de liberdade política, ditador tunisiano, que estava no poder havia 23 anos, não resiste; é a primeira vez que manifestações destituem o líder de um país árabe

NYT, REUTERS, AP e AFP, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

Violentos protestos derrubaram ontem o presidente da Tunísia, Zine el-Abidine Ben Ali, que há 23 anos comandava um regime repressivo. É a primeira vez que um movimento popular destitui um líder árabe. Funcionários do governo e diplomatas franceses informaram que Ben Ali fugiu do país, mas seu paradeiro é desconhecido. O premiê Mohamed Ghannouchi fez discurso em cadeia nacional para dizer que assumiu interinamente o país.

Os protestos que derrubaram Ben Ali começaram no dia 17 de dezembro, quando Mohamed Bouazizi, um vendedor ambulante - com diploma universitário -, teve sua mercadoria apreendida pela polícia. Desesperado, ele ateou fogo ao corpo e morreu. Imediatamente, Bouazizi virou um símbolo para os tunisianos cansados da corrupção de funcionários públicos, da inflação galopante, do desemprego e da repressão do governo.

As marchas começaram na capital Túnis, mas rapidamente se espalharam para as principais cidades do país. Desde o início, a polícia respondeu com violência. De acordo com cifras oficiais, 23 pessoas morreram nas últimas quatro semanas, mas organizações de defesa dos direitos humanos dizem que o número de vítimas é pelo menos três vezes maior.

Na quinta-feira, a população enfurecida ocupou as ruas de Túnis, incendiando carros, agências bancárias, e expulsou a polícia do balneário de Hammamet, no Mediterrâneo, refúgio da elite local e um dos pontos mais procurados por turistas que visitam o país.

Ben Ali sentiu o golpe e tentou conter os protestos com medidas de urgência. Na noite de quinta-feira, ele decretou estado de emergência, com toque de recolher entre 6 horas e 18 horas, proibiu reuniões em vias públicas e autorizou a polícia a disparar contra qualquer "suspeito" que resistisse à prisão.

Ontem pela manhã, o presidente destituiu o gabinete, convocou novas eleições legislativas em seis meses e prometeu não se candidatar à reeleição em 2014. Em seguida, em claro sinal de desespero, prometeu que os preços do açúcar, do leite e do pão seriam reduzidos.

No poder desde 1987, Ben Ali estava no quinto mandato de cinco anos. Em 2009, ele venceu as eleições com cerca de 90% dos votos. No Ocidente, a Tunísia era considerada um dos países mais estáveis do Norte da África e uma importante aliada dos EUA na luta contra o terrorismo.

Moderação. O país tem um perfil diferente de outros vizinhos árabes. A Tunísia tem uma classe média bastante representativa. As tunisianas não são obrigadas a usar véus e possuem uma série de liberdades civis, incluindo acesso a métodos anticoncepcionais, divórcio e direito a voto.

Ao longo dos anos, o governo de Ben Ali investiu bastante em educação, defendeu intransigentemente o secularismo e manteve afastado o extremismo islâmico. A política educacional, contudo, acabou se voltando contra o presidente.

Jovens universitários se tornaram os protagonistas dos distúrbios, utilizando redes sociais, como Facebook e Twitter, para organizar os protestos e fazer circular vídeos dos confrontos com a polícia. Para inflamar a multidão, alguns manifestantes citaram telegramas secretos da Embaixada dos Estados Unidos em Túnis, vazados pelo site WikiLeaks, que citavam casos de corrupção no governo.

Para acalmar os ânimos, o primeiro-ministro da Tunísia, Mohamed Ghannouchi, fez ontem um pronunciamento em cadeia nacional para dizer que estava assumindo interinamente o governo.

"Peço aos filhos e filhas da Tunísia que demonstrem espírito de patriotismo e unidade para ajudar o país a superar esta fase difícil e restaurar sua estabilidade", disse.

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