Revolta torna Damasco hostil para estrangeiros

Irritados com falta de clientes, comerciantes da capital síria já torcem pela queda do regime de Bashar Assad

CLÁUDIO MAFRA , ESPECIAL PARA O ESTADO , DAMASCO, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2012 | 03h02

A turbulência política dos últimos meses tornou mais tensa a travessia do Líbano para a Síria. Muitos sírios fogem por essa fronteira e os agentes do posto de controle estão nervosos. Mesmo repórteres com o visto sírio têm de sair do carro e passar por um interrogatório. Não há sinal de turistas.

Durante o interrogatório, o chofer assume o papel de intérprete. Em algum momento, surge a impressão de que no meio do falatório em árabe alguém usa a palavra "press" (imprensa). Nervoso, o policial vira-se para o repórter e pergunta em que jornal saiu a foto dele. "O que? Que press? Que foto ? Eu sou um funcionário aposentado do governo", é a resposta do turista travestido de jornalista. O intérprete improvisado volta-se suplicante para o agente e novamente dispara a falar, mas agora parece que o sujeito se dá por satisfeito, está entediado, já trabalhou muito, e bate o carimbo no passaporte.

Repórter e motorista entram de novo no carro, mas logo outros soldados exigem nova parada. Agora é para uma revista. Implicam com a câmera fotográfica e há uma nova visita à sala do chefão. Primeiro, ela passa de mão em mão - estão encantados com o modelo -, mas o sujeito atrás da mesa quer ver as fotos. Quando começam a aparecer entediantes cenas de aniversário em família ele faz um gesto dando a entender que já chega. E libera a dupla definitivamente.

Damasco parece calmíssima. Mas a tensão segue evidente. No mercado da Cidade Velha um jovem comerciante, após o quarto encontro com o repórter, finalmente desiste de vender alguma coisa a ele e o convida para tomar chá dentro da loja. Desabafa. Diz que todo mundo na praça é da polícia ou participa de alguma forma do governo. Afirma que muitos militares já mudaram de lado, incluindo um general. Está confiante que o regime de Bashar Assad, assediado desde março por protestos violentos, vai cair.

Em uma semana na Síria, não se vê um único ocidental. Os hotéis estão vazios. Apenas alguns egípcios, jordanianos, libaneses aparecem de vez em quando no lobby. Fecham seus negócios num ambiente cada vez mais instável e hostil.

Desde o início dos protestos na Síria, na esteira da chamada Primavera Árabe, o número de mortos pela repressão de Assad é estimado entre 5 mil, de acordo com as últimas cifras da ONU, e 7.000, segundo grupos de oposição principalmente instalados no exterior - como o Conselho Nacional Sírio.

Em meio a tudo isso, na praça principal de Damasco, a turma de Bashar Assad pendura uma enorme bandeira síria num edifício de seis andares. Depois, põe para funcionar um som infernal, impossível de se aguentar e, aos berros, dançando e agitando bandeirinhas, mostra devoção ao líder. No máximo, são umas cem pessoas. A cena parece ridícula. Os que estão andando pelas ruas não ligam a mínima. O repórter esboça a intenção de tirar algumas fotos, mas é desaconselhado. A recepcionista do hotel diz que é uma péssima ideia sair com a câmera.

A brutalidade da repressão de Assad expõe a Síria a sanções internacionais. Uma delas, pouco noticiada, afeta radicalmente o turismo: a impossibilidade de se usar cartões de crédito. Os visitantes têm surpresas desagradáveis na hora da conta e só podem pagar em dinheiro vivo, usando dólares ou euros que trouxe.

A sensação é a de que o regime começa a balançar. Em Damasco, vê-se poucos soldados uniformizados em algumas esquinas, em meio a uma tensão latente e, é claro, à ditadura caricata: retratos de Assad em por todos os lugares. A agitação restringe-se aos bares e cafés nas ruas super movimentadas. Deixando de lado o fato de que o repórter parece ser o único turista em toda a Síria, o restante parece normal. Belas mulheres, desfilando em grupo ou com os namorados, muitas delas sozinhas.

As pessoas tentam evitar todo tipo de perguntas feitas por estrangeiros, mas pelo pouco que murmuram dão a entender que a imensa maioria quer ver Assad pelas costas. Enquanto mostra o anfiteatro romano em Basra ao repórter travestido de turista, seu único cliente do dia, o guia revoltado pela ausência de visitantes não tem o menor problema em dizer que o ditador está destruindo o país. Os sírios podem ver pela televisão o que está acontecendo em Homs ou Deraa - onde os choques entre manifestantes e soldados têm sido mais violentos - e assistiram à reviravolta nos países árabes vizinhos. Parece que é impossível controlar a TV.

Quando o repórter deixa Basra, voltando para Damasco, o chofer diz que no dia anterior houve uma grande queima de pneus, com muitos rebeldes correndo pelas ruas da cidade. Os estragos são visíveis. Alguns pneus ainda soltam fumaça. As escolas, as farmácias e quase todo o comércio estão fechados.

O motorista não parece assustado. Como todos, espera para ver o que vai acontecer. Sua mulher tem medo e lhe telefona frequentemente perguntando se tudo está bem. Basra fica a apenas 140 quilômetros de Damasco, e Homs, foco principal de rebeldes, mais perto ainda: a 120 km.

Nas estradas, outra vez são muitos os postos de controle, congestionando o tráfego. Somente o motorista apresenta documentos. Ele sempre aponta o dedo para o repórter e diz a palavra mágica: "brasili" (brasileiro). Os soldados, de aproximadamente 20 anos, com seus AK-47, olham com admiração e fazem o gesto para ir em frente.

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