Revoltas mudam face da região

Reis, emires e autocratas fazem concessões e abrem o bolso para evitar o fim de seus regimes

O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h09

AUTOIMOLAÇÕES NA ARGÉLIA

Os primeiros confrontos no país ocorreram em dezembro de 2010, impulsionados pela inflação, pelo desemprego e as restrições políticas. Desde o início, o governo do presidente Abdelaziz Bouteflika, há 12 anos no poder, foi pressionado por dois fatores: os acontecimentos na vizinha Tunísia e as autoimolações diante de prédios públicos - foram quatro em janeiro. Bouteflika respondeu com violência, prisões e restrições à internet - em uma manifestação, em janeiro, 30 mil policiais ocuparam as ruas da capital, Argel. Para acalmar os argelinos, ele anunciou corte de impostos de alimentos e acabou com o estado de emergência que durava 19 anos. Em abril, ele prometeu uma reforma constitucional. A revolta, que teve o apoio explícito da Al-Qaeda, perdeu força e permanece em estado de latência.

A REFORMA DO REI DO MARROCOS

O rei Mohamed VI tem poder total. Como descendente direto de Maomé, ele é líder secular e "comandante da fé", com poder para dissolver o Parlamento e suspender a Constituição. Foi contra a total centralização que milhares de marroquinos organizaram os primeiros protestos, em fevereiro, na capital, Rabat, e nas cidades de Marrakesh, Tanger e Casablanca. Além de uma nova Constituição, eles foram às ruas contra a corrupção, o desemprego e o alto custo de vida. Pressionado pela queda do regime egípcio, o rei prometeu uma reforma constitucional, que seria submetida a referendo. Insatisfeitos, os dissidentes convocaram um boicote à votação. No dia 5 de junho, sob forte vigilância da polícia, 60 mil pessoas pediram "o fim da tirania" em passeatas em Rabat e Casablanca. A reforma constitucional, aprovada por 98,4% dos marroquinos em julho, deu mais poderes ao Parlamento, mas Mohamed VI manteve o controle do Judiciário, seguiu como chefe das Forças Armadas e guardião supremo da fé. Os opositores dizem que estão ativos, mas nenhum protesto foi registrado desde as eleições legislativas de novembro.

O BAHREIN E AJUDA DO VIZINHO

Os protestos no Bahrein tiveram os mesmos ingredientes: alta no preço dos alimentos e falta de liberdade política. De diferente, a explosiva maioria xiita - 70% da população - oprimida por uma monarquia sunita apoiada pela Arábia Saudita. Desde o início da revolta, em fevereiro, 43 pessoas morreram, mais de 3 mil foram presas e 2 mil perderam o emprego. O marco foi a intervenção militar saudita, em março, que evitou a queda do rei Hamad bin Isa al-Khalifa, cuja dinastia governa o Bahrein desde 1783. Um exemplo da repressão foi uma sentença judicial, em setembro, que condenou à morte um manifestante e mandou para a cadeia 20 médicos que cuidaram de ativistas feridos nos protestos. A monarquia ainda resiste, mas não sem antes anunciar um aumento dos gastos sociais e o depósito de US$ 3 mil na conta de cada família bareinita.

ARÁBIA, FEUDO FAMILIAR

A família Saud governa a Arábia Saudita como se estivesse na Idade Média. O rei Abdullah bin al-Saud é chefe de Estado e de governo. A Constituição é o Alcorão e não há partidos políticos. Em um dos regimes mais fechados do mundo, a Primavera Árabe teve impacto restrito. Em março, o ativista Faisal Abdul-Ahadwas foi morto após conseguir 26 mil seguidores no Facebook e organizar o "Dia da Ira", pedindo eleições e a libertação de presos políticos. Alguns protestos foram registrados em abril, após a intervenção saudita no Bahrein, mas reuniram em média apenas 500 pessoas, especialmente na cidade xiita de Qatif, próxima à fronteira bareinita. Fracassou também a campanha pelo direito das mulheres de dirigir carros. Em maio, um vídeo de Manal al-Sharif ao volante virou sucesso no YouTube e lhe rendeu uma semana de cadeia. Em reação, outras mulheres postaram gravações iguais. Uma delas, Shaima Jaistaina, foi sentenciada a dez chibatadas - sob pressão internacional, o rei suspendeu a pena em setembro. Mas, manter a calma custou caro. A monarquia liberou US$ 130 bilhões em benefícios sociais, aumentou os salários do funcionalismo público, anunciou eleições municipais e permitiu que as mulheres se candidatem e votem.

A BÊNÇÃO DO SULTÃO DE OMÃ

Em Omã, o Parlamento tem poder simbólico. O país pertence ao sultão Qaboos bin Said, que acumula os cargos de premiê, chanceler, ministro da Defesa, das Finanças e diretor do Banco Central. Apesar da centralização, Qaboos é um sujeito popular, que costuma sair do palácio para conversar com a população e viajar pelo interior para se reunir com líderes tribais. O alvo dos protestos omanis, portanto, não foi o sultanato, mas a corrupção de altos funcionários do governo. Para manter-se no poder, Qaboos anunciou uma reforma ministerial, a criação de 50 mil empregos e abriu o bolso: criou um seguro-desemprego, aumentou o soldo da tropa, o valor das aposentadorias e prometeu dar mais poderes aos deputados. Desde maio não há mais manifestações populares no país.

O EMIR E O POVO DO KUWAIT

O emir Sabah al-Ahmad al-Sabah está acima da lei. Ele tem poder de nomear o primeiro-ministro, dissolver o Parlamento e suspender direitos constitucionais. Sua dinastia está no poder há 250 anos. Quando a Primavera Árabe chegou ao país, ele distribuiu US$ 3,5 mil para todo kuwaitiano - oficialmente, o motivo foi a comemoração dos 20 anos da libertação do país das mãos do Iraque. A medida não evitou uma onda de protestos, de passeatas pacíficas contra a corrupção a paralisações de trabalhadores da indústria do petróleo. No dia 16 de novembro, uma multidão enfurecida invadiu o Parlamento depois que policiais espancaram manifestantes que pediam a renúncia do primeiro-ministro Nasser al-Sabah, sobrinho do emir. Duas semanas depois, uma gigantesca manifestação reuniu 90 mil pessoas - a maior de toda a história do país de 1,2 milhão de habitantes. Diante da pressão, o gabinete caiu e os manifestantes, por hora, sumiram das ruas.

O REI RESISTE NA JORDÂNIA

O rei Abdullah II é o Estado jordaniano. Ele assina, executa e tem poder para vetar leis, dissolver o Parlamento, exonerar juízes e emendar a Constituição. A história da Primavera Árabe no país é uma longa lista de concessões da monarquia. Os protestos começaram em janeiro, convocados pela versão local da Irmandade Muçulmana. No início, os manifestantes não contestavam a autoridade do rei, mas exigiam reformas políticas. A insatisfação também tinha componentes econômicos: inflação, desemprego e desigualdades. Em 18 de fevereiro, 10 mil pessoas protestaram nas ruas da capital, Amã. A reação da monarquia foi cautelosa. Em outubro, após anunciar subsídios para gasolina, arroz e açúcar, o rei demitiu o gabinete, prometeu reformas constitucionais e eleição direta para premiê. Por enquanto, Abdullah II sobrevive.

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