Revolução chavista cria nova elite

Empresários venezuelanos envolvidos no ?escândalo da maleta? têm estilo de vida luxuoso no sul da Flórida

David Adams, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2007 | 00h00

Um caso criminal politicamente explosivo revelado pelos promotores federais dos Estados Unidos este mês lança luz sobre uma nova elite de empresários venezuelanos que cresceu com a revolução socialista na Venezuela. Eles desfrutam de um estilo de vida luxuoso em alguns dos distritos mais caros do sul da Flórida. Mas, ao mesmo tempo em que compram imóveis à beira-mar em Key Biscayne, uma das comunidades mais ricas da Flórida, prometem fidelidade ao impetuoso presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Um deles chegou a dirigir um Porsche com um adesivo promovendo o "socialismo do século 21"."Eu não diria que essas pessoas são chavistas. Estão nisso pelo dinheiro", disse Ken Rijock, um especialista em lavagem de dinheiro que mora em Key Biscayne e vem escrevendo sobre os novos milionários venezuelanos.Seu estilo de vida ostensivo e seus laços políticos foram motivo de mexericos por algum tempo entre os expatriados hispânicos e na mídia em língua espanhola. Mas a maioria manteve discrição, evitando a política para concentrar-se em suas amplas transações comerciais. Esse anonimato acabou de repente no dia 12, quando autoridades federais anunciaram o indiciamento de cinco homens, quatro deles venezuelanos, acusados de atuar ilegalmente nos EUA como agentes não oficiais do governo da Venezuela. Quatro deles foram presos e um está foragido. Essas prisões estão relacionadas com a apreensão no aeroporto de Buenos Aires, em agosto, de uma maleta com US$ 790 mil em dinheiro não declarado. Quem carregava a maleta era Guido Antonini Wilson, de 46 anos, um empresário venezuelano que também mora em Key Biscayne num luxuoso apartamento de US$ 1,2 milhão.Os promotores dizem que Antonini Wilson estava levando o dinheiro para a campanha eleitoral de Cristina Kirchner, que acabou sendo eleita presidente em outubro e tomou posse no dia 10. Ele não foi preso e acredita-se que esteja cooperando com as autoridades americanas.Os homens detidos foram acusados de conspirar em nome do governo venezuelano para esconder a origem do dinheiro, criando um falso trâmite de documentos e ameaçando Antonini Wilson para que se mantivesse em silêncio. ACUSAÇÕESO caso desencadeou uma tempestade política, com as autoridades venezuelanas e argentinas acusando Washington de inventar um escândalo para desestabilizar os governos de esquerda da região. No entanto, analistas dizem que o episódio lança luzes sobre os negócios sombrios da rica em petróleo "Revolução Bolivariana" de Chávez e sobre a nova elite venezuelana, apelidada de "boliburguesia" pelos opositores políticos."Esses caras eram praticamente desconhecidos antes de Chávez chegar ao poder", disse Thor Halvorssen, um ativista anti-Chávez que mora em Miami. "Depois de um ou dois anos da presidência de Chávez, a vida deles teve uma grande mudança." "É evidente que a Venezuela ainda é um país muito mercantilista", disse Simon Strong, diretor em Miami do setor de Riscos e Investigações Internacionais da FTI, uma firma de consultoria de negócios. "Não creio que muitos dos que se têm beneficiado economicamente com estes anos de Chávez no poder tenham grande apreço pela revolução socialista."Dois dos réus, Franklin Durán e Carlos Kauffman, são proprietários de uma companhia petroquímica, a Indústrias Venoco, que mantém negócios com a estatal venezuelana PDVSA, uma das maiores empresas petrolíferas do mundo. Kauffman também tem uma participação acionária na Perforaciones Alborz CA, que fornece equipamentos de perfuração para a PDVSA. Antes a Venoco pertencia a um grupo de empresários, alguns dos quais estiveram envolvidos no fracassado golpe de abril de 2002 contra Chávez. Logo depois, Durán e Kauffman surgiram como donos da Venoco. Durán também é citado na Venezuela como proprietário de uma empresa de compra de armas, a Ruibal y Durán, que diz importar equipamentos antimotim para o governo venezuelano. A empresa foi investigada pelo Congresso da Venezuela em 2003, supostamente por importar 115 submetralhadoras Uzi sem permissão, mas não houve nenhum indiciamento. Na Venezuela, esses homens são considerados testas-de-ferro de políticos do alto escalão ligados a Chávez.O governo americano colocou Durán e Kauffman numa lista de "pessoas politicamente comprometidas", a designação para os que precisam de um controle especial por causa de seus estreitos laços com políticos estrangeiros, disse o advogado de Durán, Michael Hacker. Segundo Hacker, não há nada de errado nessas relações e seus clientes são inocentes das acusações.Até recentemente, os dois homens eram amigos e parceiros comerciais de Antonini Wilson. O "homem da maleta" trabalhou para a Venoco e foi também sócio de Durán em várias empresas na Flórida.Durán, de 40 anos, é proprietário de uma mansão no valor de US$ 4,6 milhões em Mashta Island, um dos mais exclusivos endereços de Key Biscayne. Em sua garagem há uma Ferrari e um Audi último modelo. Kauffman, de 35 anos, possui vários imóveis no sul da Flórida e também tem uma Ferrari. Os três homens eram tão amigos que competiram juntos na Europa este ano no rally internacional Gumball 3000. Eles correram com um Porsche Carrera GT e um Mercedes SLR McLaren, representando a equipe Venoco. Durán bateu seu Porsche de US$ 600 mil na Croácia antes que a corrida fosse encerrada por causa de um outro acidente. Um outro carro da equipe, uma Ferrari, levava um adesivo com o logotipo do governo Chávez.

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