Meyer Liebowtiz/The New York Times
Meyer Liebowtiz/The New York Times

Revolução Cubana além do mito

A miséria campeava entre a sociedade cubana, que aceitou a versão do fracasso econômico era fruto do embargo econômico

Bernanrdo Sorj, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2016 | 05h00

A esquerda latino-americana deixará de ser anacrônica quando for capaz de enfrentar um debate crítico, sem mistificações, sobre o que foi realmente a experiência cubana, suas realizações, mas também seus fracassos. Algumas teses para o debate sobre o impacto da Revolução Cubana na América Latina:

1) Não foi um processo único, ela teve duas fases. A primeira, que culmina com a derrubada de Fulgencio Batista, foi produto de amplo movimento popular, que tinha Fidel Castro como principal, mas não único líder, e na qual as organizações de resistência nas cidades tiveram um papel central. A queda do regime de Batista foi um movimento contra uma ditadura corrupta, não uma revolução comunista, e contou na fase final com o apoio dos EUA, que impuseram o boicote de venda de armas para o ditador.

Os principais líderes, incluindo Fidel, defendiam um programa que combinava liberdades democráticas e reformas sociais. A partir da entrada em Havana, Fidel inicia um processo de eliminação de outros líderes políticos, destruindo todos os espaços de livre expressão, desde a imprensa até os partidos, das universidades até os sindicatos, das organizações da sociedade civil. Ele eliminou a separação entre os poderes e concentrou as decisões num Estado repressor e controlador das mais diversas áreas de expressão cultural e política. 

2) A sociedade cubana, como a maioria dos países latino-americanos, era profundamente desigual e a miséria campeava, em particular nas zonas rurais. As medidas distributivas tomadas por Fidel, com um bem-sucedido programa de alfabetização e saúde universal, transformaram Cuba, aos olhos de uma geração latino-americana motivada por ideais de justiça social, num modelo.

Uma geração que fechou os olhos ao Estado ditatorial e aceitou a versão de que o fracasso econômico era produto do embargo dos EUA, após meio século. Nem os economistas cubanos aceitam mais essa versão. Sem justificar o inaceitável boicote econômico a Cuba, que perdeu sentido após o fim da Guerra Fria, o que esperava Fidel?

É irresponsável supor que um país poderoso, cujas propriedades foram estatizadas e seu governo demonizado, reaja angelicamente. A possível reação do lado oposto é parte do cálculo político, que todo líder responsável deve levar em consideração, no lugar de usá-la para justificar a debacle econômica.

3) Cuba exportou a revolução com recursos materiais, treinamento e armas. A esquerda aceitou que o princípio de respeito à soberania nacional, considerado sagrado para casos de intervenções dos EUA, fosse violado em nome do “internacionalismo”. O efeito mais importante foi a exportação irresponsável de um mito simplório de “como se faz a revolução socialista a partir de um foco guerrilheiro”, que deturpou a história real da revolução cubana – um amplo movimento social, no campo e na cidade, que lutava contra uma ditadura para restituir a vida democrática. Foi a exportação desse mito que levou jovens incrédulos, em sua maioria de classe média, a aderir à luta revolucionaria.

Na construção do mito, a fracassada invasão da Baía dos Porcos foi transformada numa derrota militar dos EUA, quando sabemos que o presidente Kennedy retirou o apoio aéreo, que estava no planejamento da ação, e o aparelho militar americano não foi mobilizado. Não se trata de reduzir a importância que a vitória teve para Cuba, mas de destacar a doce ilusão que foi criada sobre o real poderio americano. Quando ele foi efetivamente mobilizado, na Crise dos Mísseis, o realismo soviético se impôs, salvando o povo cubano de um genocídio que o líder da revolução estava disposto a assumir. 

4) Enquanto na Europa Ocidental o medo ao comunismo permitiu uma renegociação entre as classes, na qual os grupos mais ricos se dispuseram a pagar o preço de um Estado de bem-estar social, na América Latina os setores trogloditas das classes dominantes, mobilizando o temor produzido pela luta guerrilheira, que fortaleceu a linha dura entre os militares, impuseram ditaduras truculentas.

5) Cuba vive um período difícil de transição, que faz jus ao ditado de que o comunismo é o caminho mais longo do capitalismo para o capitalismo. É bom que nessa transição as conquistas sociais da revolução cubana sejam mantidas. Se a esquerda latino-americana for responsável, deverá monitorar e apoiar iniciativas que permitam a Cuba voltar às origens social-democratas da revolução vitoriosa em 1959. Em relação ao papel histórico de Fidel na sua pátria, é sobretudo o povo cubano que deverá julgar, o dia em que existam condições para o livre debate de ideias. 

É SOCIÓLOGO

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.