Revolução Cultural ainda aterroriza China

Para Sidney Rittenberg, primeiro americano a filiar-se ao PC chinês, risco de convulsão social deve limitar reformas políticas

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2012 | 02h05

A experiência dos futuros líderes chineses durante a Revolução Cultural (1966-1976) os deixou temerosos de qualquer tipo de turbulência social, o que deve limitar sua disposição para assumir os riscos inerentes às reformas políticas, avaliou ontem Sidney Rittenberg, primeiro americano a se filiar ao Partido Comunista da China, em 1946, e um dos poucos estrangeiros a participar da história do país nas primeiras décadas posteriores à revolução de 1949.

"Eles têm medo de que a liberdade de imprensa e de crítica levem de novo ao caos e à desordem", declarou Rittenberg. "O que eles viram na Revolução Cultural é um pesadelo que não querem viver de novo."

Como muitos chineses, o americano foi vítima da paranoia do regime, das campanhas maoistas e passou 15 anos preso em uma solitária de Pequim. Em 1980, ele voltou aos Estados Unidos com a família, mas vai com frequência à China.

A resistência às reformas políticas ficou evidente em comentário publicado domingo do Diário do Povo, o jornal oficial do Partido Comunista, que rejeitou tanto o modelo ocidental quanto mudanças bruscas de rumo. Segundo o texto, os líderes não podem "tolerar a mais leve impetuosidade ou precipitação" no eventual ajuste do curso político do país.

Sem mencionar nomes, o comentário ressaltou que nações que copiaram o modelo ocidental viveram "estagnação econômica, pobreza e agitação social". No discurso que fez na quinta-feira na abertura do 18.º Congresso do Partido Comunista, o presidente Hu Jintao já havia sido categórico ao afirmar que a China "nunca copiará" o modelo político ocidental.

Os líderes chineses, que assumirão o comando do Partido Comunista na quinta-feira, viveram a experiência de serem enviados à zona rural para trabalharem como camponeses durante a Revolução Cultural.

O futuro presidente da China, Xi Jinping, ficou dos 15 aos 22 anos de idade em uma vila na Província de Shaanxi. Antes do início do movimento, ele testemunhou a queda de seu pai, o herói revolucionário Xi Zhongxun, acusado de "direitista" por Mao, em 1962.

"Além do temor de turbulências, as reformas políticas enfrentam a resistência dos grupos de interesse que se beneficiam do sistema atual e a natural inércia das autoridades, o que favorece o status quo", observou Rittenberg. Em sua opinião, é justamente a ausência de reformas que pode ter impacto desestabilizador, já que não existem válvulas de escape para eventuais conflitos sociais.

Mudança. "Se houver uma crise econômica grave, que leve à queda no padrão de vida de um número substancial de pessoas, podem ocorrer problemas reais, porque as visões e as queixas dessas pessoas serão suprimidas", declarou o americano em entrevista a correspondentes estrangeiros em Pequim depois da apresentação do documentário O Revolucionário, que trata de sua experiência na China.

Por enquanto, Rittenberg não vê possibilidade de um grande movimento popular em defesa da democratização ou de mudanças políticas, apesar do aumento da desigualdade de renda. "Enquanto a vida da maioria das pessoas melhorar, elas não vão tomar as ruas e protestar contra o aumento da desigualdade social. E a vida da maioria das pessoas está melhorando."

O ex-comunista não espera mudanças radicais, mas acredita que os futuros líderes farão "algum tipo" de reforma na área política. O americano, que chegou à China como soldado em 1945 e se instalou na base comunista de Yan'an, no ano seguinte, ressaltou que o partido pelo qual se apaixonou há quase sete décadas é bastante diferente da organização que atualmente dirige a segunda maior economia do mundo.

"Creio que não", foi sua resposta quando indagado se pediria para se filiar ao partido em sua roupagem atual. "Eles se transformaram em um grupo governante que, gradualmente, perdeu o contato com a população. Eles eram os 'servidores do povo'. Agora, são os 'senhores do povo'", disse.

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