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Revolução Cultural na China contou com episódios violentos de canibalismo

Corações, fígados e genitais das vítimas eram cortados, cozidos e servidos aos carrascos. Mesmo após 50 anos, regime comunista mantém silêncio sobre excessos cometidos

O Estado de S. Paulo

16 Maio 2016 | 10h12

WUXUAN, CHINA - No auge da Revolução Cultural, os convidados de macabros "banquetes" devoravam os órgãos de suas vítimas "contrarrevolucionárias", cenas de horror que foram apagadas da memória oficial, meio século depois deste período sangrento.

Iniciada em 16 de maio de 1966 pelo líder Mao Tsé-tung com o objetivo de eliminar seus adversários, a Revolução Cultural foi marcada por um frenesi de violência, afundando o país no caos provocado pelas lutas políticas.

Adolescentes, os "guardas vermelhos" espancaram seus professores até a morte, os conflitos internos dividiram famílias inteiras, as facções mataram umas às outras. Mas o regime comunista continua mantendo em um silêncio obstinado os piores excessos cometidos naquele período.

Em Wuxuan, localizada em uma isolada zona rural da província de Guangxi, a barbárie chegou ao seu grau máximo quando os corações, fígados e genitais das vítimas eram cortados e cozidos para que seus carrascos os comessem.

Atualmente, a cidade oferece um panorama muito diferente: lojas de iogurte, pescadores à sombra das altas copas verdes e cartazes vermelhos exaltando o Partido Comunista chinês. No entanto, foi ali que, há cinquenta anos, ao menos 38 pessoas foram vítimas do canibalismo organizado, informou, pedindo o anonimato, uma pessoa que participou no início dos anos 1980 de uma investigação oficial sobre estes crimes.

"Levando ao extremo o princípio da luta de classes se chegou ao canibalismo", explicou. "Os assassinatos eram espantosos, pior que os das bestas". "Durante esta década catastrófica, Guangxi (...) foi o símbolo de uma crueldade e de uma selvageria chocante", escreveu este aposentado do partido em um manuscrito consultado pela agência de notícias France-Presse.

"Pessoas foram decapitadas, espancadas até a morte, enterradas vivas, apedrejadas, afogadas, fervidas, massacradas em grupo, esvaziadas de suas entranhas (...), detonadas com dinamite. Todos os métodos foram utilizados".

Fanatismo. Diferentemente das cenas de canibalismo ocorridas durante a fome do "Grande Salto Adiante", os episódios de violência de Wuxuan eram motivados por puro fanatismo. "É um canibalismo provocado por acontecimentos políticos, um ódio político, em nome de uma ideologia e de rituais políticos", explicou X.L. Ding, professor da Universidade de Ciências e Tecnologia de Hong Kong.

Segundo professores universitários, o isolamento geográfico, a brutalidade do chefe regional do Partido Comunista, a pobreza e uma multiplicação das facções permitiram que o horror se tornasse realidade em Wuxuan. Alguns habitantes da cidade negam saber de algo ou respondem com um silêncio embaraçoso.

O cidadão Luo diz: "Canibalismo? Sim. Eu estava lá, eu vivi aquilo". Mas rapidamente acrescenta que Wuxuan se modernizou enormemente desde então e que o passado "já não significa nada".

Os rumores sobre os massacres em Guangxi - 150 mil mortos, segundo alguns balanços - levaram as autoridades a realizarem uma investigação oficial 15 anos depois. Suas conclusões nunca se tornaram públicas. Mas o jornalista Zheng Yi lançou um surpreendente livro, "Estrelas Vermelhas", publicado no exterior no início dos anos 1990 e proibido na China.

Quando o funcionário que não quis se identificar publicou em uma revista de baixa tiragem as conclusões da investigação, lembrando que ao menos uma centena de pessoas haviam participado de atos de canibalismo, enfrentou uma forte resistência.

Funcionários regionais aposentados contestaram raivosamente, enviando sua resposta às altas instâncias comunistas. "Acusavam-me de ser anti-Partido e antissocialista" e exigiam uma autocrítica, lembra ele.

Zheng Yi, que vive exilado nos EUA, mostra-se preocupado pelo silêncio que continua cercando a bárbara violência da Revolução Cultural. "Como o governo nunca permitiu uma análise histórica em profundidade do período, é impossível afirmar que tenham sido tiradas lições" do ocorrido, declarou. /AFP

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