'Revolução do Sutiã' chega à Arábia Saudita

Decreto real permite que mulheres trabalhem em lojas de lingerie e cosméticos do país

O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2012 | 03h03

Uma revolução social começou neste mês na Arábia Saudita, e ela tem muito pouco a ver com a Primavera Árabe. Mulheres estão começando a trabalhar em lojas de lingerie. A medida obedece a um decreto real que determina a participação exclusiva de mulheres em lojas de roupas, cosméticos e outros artigos femininos.

Mais de 28 mil mulheres candidataram-se aos empregos, segundo o Ministério do Trabalho. Em qualquer outra parte do mundo, a presença de vendedoras em lojas de calcinhas e sutiãs seria um fato corriqueiro. Mas na Arábia Saudita, onde as mulheres são excluídas da força de trabalho, é uma novidade importante.

Um das imagens mais curiosas na Arábia Saudita é a de mulheres ocultas pelo véu integral, frequentando lojas nos muitos shoppings elegantes do país e sendo atendidas por homens. Muitas delas ficavam tão incomodadas com essa situação absurda que preferiam ir ao exterior para comprar suas roupas íntimas e camisolas.

A campanha pela mudança das regras começou há muitos anos, e foi liderada por Reem Asaad, uma consultora financeira ligada à moda que fala inglês fluente e sente-se à vontade com a mídia ocidental. A campanha pareceu bem-sucedida em 2006 quando o governo ordenou que os empregos de vendas fossem transferidos para mulheres.

Mas conservadores em assuntos sociais e o establishment religioso opuseram-se à medida, argumentando que o islamismo proibia mulheres de trabalhar fora de casa e colocar mulheres em lojas de varejo as exporiam a qualquer estranho de passagem. Se os vendedores fossem mulheres, as vitrines das lojas teriam de ser cobertas, disseram os que discordavam da medida.

Além disso, havia o problema do transporte: se mulheres iam trabalhar naquelas lojas, elas precisariam que um homem as levasse de carro, pois não podem dirigir.

Asaad usou, então, o Facebook para organizar um boicote às lojas, e conseguiu que algumas mulheres fossem treinadas no trabalho de varejo. Desta vez, o rei Abdullah pôs sua autoridade pessoal por trás do novo decreto. As lojas têm até junho para substituir seus empregados homens por mulheres. E a polícia religiosa terá de cooperar.

Essas mudanças sofrerão uma oposição cerrada, mas as forças econômicas e demográficas por trás delas parecem irresistíveis. A transição seria mais fácil se as mulheres pudessem dirigir carros. Mas as fileiras crescentes de mulheres empregadas pressionarão nesse sentido. Elas estarão preparadas quando o dia chegar. / NYT

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