''Revolução dos Cravos'' já não encanta jovens

Apatia marca os 35 anos do fim do regime de Salazar

Jair Rattner, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 00h00

Trinta e cinco anos depois da revolução que mudou a história de Portugal, o principal centro da agitação estudantil do período revolucionário, a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, é hoje um local de pouca atividade política. "Todos falam da importância de Jorge Sampaio (líder estudantil socialista na época da revolução)", diz o presidente da Associação Acadêmica, João Ascêncio. "Mas hoje os estudantes não têm nenhuma tendência partidária e ideológica", acrescenta, ressaltando a participação tímida do movimento na celebração do aniversário da Revolução dos Cravos, que o governo português promove hoje. "Atualmente, o 25 de Abril é comemorado pelos comunistas. Como eu não ligo para política, isso não me diz nada", resume Mafalda Marques, na cantina da faculdade.Ao derrubar a ditadura estabelecida havia 48 anos por Antonio de Oliveira Salazar, a revolução - na prática, um golpe militar - modernizou Portugal. A queda do regime salazarista (liderado por Marcello Caetano desde 1968, quando lesões cerebrais causadas por uma queda tornaram Salazar incapaz de seguir no poder) levou à independência das colônias portuguesas na África, deu início ao processo de redemocratização do país e permitiu o retorno do exílio de políticos de esquerda que, mais tarde, conduziriam Portugal à União Europeia. A revolução portuguesa teve três momentos. O primeiro começou com a queda de Caetano e sua substituição pelo general Antonio Spínola. Nessa época, retornaram ao país líderes como o socialista Mário Soares e o comunista Álvaro Cunhal.Em 11 de março de 1975, militares ligados a Spínola tentaram um novo golpe, com o objetivo de "restaurar a disciplina" no país. O fracasso desse movimento desarticulou o aparelho do Estado, dando início a um segundo período revolucionário, chamado na época de "Verão Quente". No governo dirigido por Vasco Gonçalves, ligado ao Partido Comunista, são decididas as nacionalizações dos bancos, seguradoras, siderúrgicas, fábricas de cimentos e cigarros, cervejarias e ocorre a reforma agrária.Na terceira fase, a partir de novembro de 1975, as forças ligadas a Gonçalves também tentam um golpe - igualmente fracassado. "A resistência ao golpe gonçalvista repôs as coisas no lugar. Mas, mesmo entre os resistentes, houve vencedores e vencidos. Os vencidos era os que queriam atacar os comunistas, afastá-los do processo político", conta Vasco Lourenço, que liderou o contragolpe ao lado do general Ramalho Eanes, que depois foi eleito presidente.Entre as polêmicas que cercam a comemoração de hoje está o atual papel dos protagonistas do 25 de Abril. Há algumas semanas, o governo e a cúpula militar decidiram promover a general o então capitão Jaime Neves, um dos líderes da intentona gonçalvista. "Em 25 de novembro (de 1975), ele queria atacar o Partido Comunista. Era eu quem estava lá para impedir isso", relata Lourenço, que lutou para assegurar, após a tentativa de golpe, que nenhum partido - incluindo o PCP - deveria ser lançado na ilegalidade. Vasco Lourenço terminou sua carreira militar como tenente-coronel, assim como grande parte dos membros do Conselho da Revolução, que nunca chegou ao topo da hierarquia militar. Dos militares de abril, apenas um encontra-se no parlamento. O então capitão Marques Júnior é deputado pelo Partido Socialista, com uma atuação apagada no debate político.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.