Revolução iraniana mudou mapa político na região, dizem analistas

Trinta anos depois da derrubada do xá, revolução continua a influenciar a região.

Tariq Saleh, BBC

11 de fevereiro de 2009 | 06h24

A Revolução Islâmica no Irã, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, trouxe profundas mudanças políticas no Oriente Médio que continuam ecoando pela região, segunda a opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil. O movimento islâmico de Khomeini, que tem seus 30 anos completados nesta quarta-feira, colocou um fim àmonarquia iraniana, condenando o xá Reza Pahlevi ao exílio. Mas a revolução islâmica trouxe outras consequências para o país: uma ruptura com o Ocidente e a hostilidade com os vizinhos árabes.Depois da revolução, o Irã rompeu suas relações com os Estados Unidos e entrou em uma rota de colisão com os governos sunitas da região do Golfo Pérsico. O resultado imediato foi a guerra com o Iraque (1980-1988), governado pelo sunita Saddam Hussein. Saddam foi financiado por vários governos árabes e por outros países ocidentais, como os EUA. Mas a guerra não trouxe vencedores e terminou com mais de 1 milhão de mortos.O regime iraniano sobreviveu mesmo após a morte de Khomeini, em 1989. Mais que isso, a Revolução Islâmica trouxe mudanças no mapa político do Oriente Médio.O analista paquistanês Iftikhar Hussein afirma que o que aconteceu no Irã foi uma das mais importantes revoluções do século 20."Foi a revolução que mudou o curso da história do país e alterou o balanço de forças em uma região dominada por sunitas. Os xiitas passaram a ter maior importância no cenário do Oriente Médio", disse Hussein por telefone à BBC Brasil.Para ele, os países árabes continuam receosos de que a revolução iraniana ainda possa inspirar movimentos islâmicos que coloquem em risco seus próprios regimes.Segundo Hussein, o Irã está no centro das questões do Oriente Médio e a maior herança da revolução hoje é a divisão dos árabes."Mesmo entre os regimes árabes, há divisões sobre como lidar com os iranianos. Temos dois blocos, um liderado pelo Catar e Síria, com boas relações com o Irã, e outro encabeçado pelo Egito e Arábia Saudita, alinhados com o Ocidente e hostis aos iranianos", afirma.Hussein salienta que, em um cenário em que os EUA lutam para estabilizar o Iraque e o Afeganistão, o Irã tem um "peso político muito grande" que ainda não é compreendido por árabes a americanos."O Irã continua hoje forte e ativo na região. Árabes e americanos deveriam investir em mais diplomacia e política com o país", afirma.Segundo ele, a Revolução Islâmica no Irã retirou do poder um aliado essencial dos americanos (o xá Reza Pahlevi) e, agora, os EUA deveriam retornar às boas relações com o governo iraniano para voltar a contar com sua ajuda na estabilização na região."O Irã tem muito a contribuir com o Iraque pós-Saddam, pois a maioria da população iraquiana é xiita. Uma maior aproximação dos árabes e ocidentais com o governo iraniano traria benefícios à região", diz Hussein.O professor Mehdi Sanaei, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Teerã, afirma que a revolução iraniana continua a dar ao país um papel ativo na região."Movimentos islâmicos no Oriente Médio se inspiraram no Irã para criar suas agendas políticas, mas não necessariamente uma cópia. O principal foi a ideia de resistência contra uma dominação estrangeira", disse Sanaei à BBC Brasil.Para ele, os grupos políticos no Iraque, Líbano e territórios palestinos tiveram uma aproximação natural com o Irã por sua "importância no cenário da região e por ser um dos últimos bastiões de resistências aos EUA e Israel"."Vemos o grupo libanês Hezbollah e o palestino Hamas, que perceberam a falta de ação de governos árabes e suas alianças com os americanos. Isso trouxe o Irã como centro de uma ideia de resistência e de apoio político-financeiro".Sanaei, no entanto, admite que, embora a revolução continue a afetar o mapa político da região, ela falhou em exportar a totalidade de seus ideais."A revolução não chegou para as outras sociedades muçulmanas, mesmo com a simpatia do mundo islâmico pelo aiatolá Khomeini".Ele afirma que o motivo para isso foi o afastamento do secularismo do início da revolução iraniana e uma maior ênfase à linha mais dura e teocrática. Isso, segundo Sanaei, não agradou às sociedades sunitas, mais propensas ao secularismo.No entanto, outros analistas apontam a relação com o Ocidente e o isolamento iraniano como a maior falha da revolução iraniana."Embora haja partidos reformistas que defendem uma maior aproximação, o Irã continuou a ter péssimas relações com muitos países ocidentais", declarou à BBC Brasil o analista libanês Ibrahim Moussawi.Ele afirma que este isolamento fez com que Irã tentasse atingir os interesses dos EUA através do financiamento de grupos antiamericanos em diversos países árabes."Os EUA e aliados erraram ao isolar o Irã, mas os iranianos também falharam ao reagir com mais radicalismo", afirma Moussawi.As ameaças a Israel e as declarações de que o país deveria ser riscado do mapa, feitas pelo presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, teriam piorado a situação."O uso desta perigosa retórica só prejudicou a imagem do Irã no resto do mundo. O país deveria mudar sua linguagem e mostrar ao mundo que está interessado em estabilidade", declarou o cientista político Oussama Safa, diretor do Centro Libanês para Estudos Políticos de Beirute.O programa nuclear iraniano vem sendo o novo foco de disputas entre o país e o Ocidente. Com mais sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU, o Irã desafia a comunidade internacional com a continuidade de seu programa atômico.Os EUA e aliados acusam o Irã de desenvolver energia nuclear para fins militares, mas o governo iraniano nega e diz que seu programa tem fins pacíficos.O líder supremo do país, Ali Khamenei, declarou que o Irã não abrirá mão de seu direito à tecnologia nuclear.O cientista político Oussama Safa, no entanto, diz acreditar que pode haver um diálogo entre o Irã e o governo do novo presidente norte-americano, Barack Obama."Depois de anos de uma política conservadora de George W. Bush, o novo governo americano expressou seu desejo de voltar à mesa de negociações com o regime iraniano", diz.O Irã está em um delicado jogo entre "suas aspirações para se tornar uma potência nuclear e seu desejo de continuar tendo boas relações com seus vizinhos", escreveu o analista Mohammad Shakeel, da Unidade de Inteligência Econômica, em artigo publicado em jornais árabes.Segundo ele, há um medo entre os iranianos de que o país possa ser atacado pelos Estados Unidos ou seu aliado Israel."Mesmo com a linguagem desafiadora, o Irã negociaria nos assuntos mais fundamentais, inclusive com o governo de Barack Obama. Isso porque sua relação com os vizinhos do Golfo pesa muito para os interesses iranianos", enfatizou Shakeel no artigo.Mas, 30 anos depois, os analistas concordam que a revolução islâmica veio para ficar, apesar das acusações de violações de direitos humanos, perseguições políticas e torturas. Para eles, uma mudança no Irã viria somente com uma relação mais amistosa com o Ocidente.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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