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'Revolução Mujica' no fim

Há uns bons quilômetros e uma cordilheira cultural entre o Brasil e Uruguai. Mas bem que Marina Silva poderia ficar de olho em Luis Lacalle Pou.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2014 | 04h23

Jovem, remediado e conservador, o candidato uruguaio saiu do berço esplêndido para a fama. Herdeiro de uma lenda política, o ex-presidente Luis Lacalle, o advogado de 41 anos lembra mais o falecido Eduardo Campos, do que a acreana autodidata, que se alçou do seringal para o palco central da política brasileira.

No entanto, a campanha que Marina começa a construir - eclética, facciosa e crivada de contradições e desconfianças -, se apoia nos mesmos pilares de Laccalle Pou, só que com menos destreza que o uruguaio e uma visão mais turva.

No ano passado, Lacalle Pou parecia mais um candidato sonhador, com bom pedigree, mas parca chance entre os cardeais da política uruguaia. Optar por esse novato de cabelos longos e currículo curto, seria como apoiar "a seleção sub 20" em vez da "seleção experiente", disse o ex-presidente, Tabaré Vázquez.

Acontece que Tabaré é a esperança do bloco governista , a Frente Ampla, e já está sentindo o bafo do novo no cangote. A última pesquisa, Factum, deu-lhe 50% da preferência do eleitorado. Lacalle Pou obteve, 48%.

Até aí, nenhuma tragédia. Afinal, Tabaré saiu louvado do governo em 2010 e continua com índices invejáveis de apoio. Mas olhar a foto em movimento é diferente. Desde fevereiro, Tabaré perdeu 9 pontos porcentuais nas pesquisas de intenção de voto, enquanto Lacalle Pou ganhou 14 pontos. Mantida a tendência, a eleição deve ir para o segundo turno, com Lacalle como favorito.

Para quem acompanha de longe o pequeno país sul-americano, é um espanto. Uruguai, enfim, é a pátria de José 'Pepe' Mujica, o ex-guerrilheiro Tupamaro que lançou uma ousada reforma social - aprovou o matrimônio homossexual, legalizou a maconha e o aborto - para se converter em ícone latino-americano.

Sua visão pragmática no governo o confrontou com as corporações - de empresários afeitos aos padrinhos no poder aos intocáveis do funcionalismo público -, tornando-o emblema para a esquerda, enojado da "velha política" partidária e desconfiado do chavismo.

Agora a revolução "mujicana" está no ar. Mujica não pode concorrer a outro mandato. Lacalle Pou promete cortar na carne, revogando a lei da maconha. Nisso, até os uruguaios questionam, pois a maconha estatizada é um atalho para o inferno burocrático, com cadastro central e cotas e licenças para plantadores, vendedores e usuários. Nenhum "clube" de consumo foi regulamentado até agora e 62% dos uruguaios querem revogar a lei.

Não que Lacalle Pou signifique a contrarrevolução. Astuto, entendeu que Mujica é querido e não deve tocar em reformas populares, como programas para os mais pobres. Antenado, captou os anseios da classe média, que prosperou com a economia, mas teme perder o que conquistou - sobretudo pela violência, que aumentou, e a qualidade do ensino, que recuou.

Desenhou uma campanha ecumênica, que abraça a juventude ao mesmo tempo em que valoriza as tradições políticas. Sua propaganda de campanha inclui música rap e canções à antiga, vídeos musicados e ensaios fotográficos em preto e branco.

A peça principal de campanha, Somos, Hoje, Somos Agora, é um vídeo curto recheado de sorrisos e flagrantes de cidadãos comuns, ora no trabalho, ora ao sol, com o brilho, cadenciamento e sedução explícita de um comercial de carro de luxo.

A estética é a do filme No, do diretor Pablo Larraín, sobre a campanha publicitária no Chile, de 1988, em prol do referendo contra a continuidade do general Augusto Pinochet. No enredo, um publicitário genial e competitivo (Gael Garcia Bernal) consegue fazer do 'Não' uma festa da democracia.

Agora Lacalle Pou tenta repetir o feito, prometendo melhor a obra de um líder encantado, num país - atenção, Marina - cansado do mesmo.

* É colunista do 'Estado' e chefe da sucursal brasileira do portal de notícias 'Vocativi'

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