Revolução na Síria afunda no impasse militar de Alepo

Rebeldes dominam cidade, mas governo tem supremacia aérea; guerra chega a Líbano e Turquia e pode levar anos, diz comandante

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL, PROVÍNCIA DE ALEPO, SÍRIA, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h03

No final da noite de quarta-feira, um jovem rebelde de cerca de 20 anos acelerou sua moto de 125 cilindradas pelas estradas esburacadas da Província de Alepo, na Síria, entrou em alta velocidade em um trecho de chão batido e, buzinando e gritando a um amigo, advertiu: "Avião! Avião!".

Em um ato reflexo, o adolescente de 16 anos a quem a mensagem era dirigida atirou ao chão o computador que tinha no colo e correu até os interruptores de eletricidade, apagando todas as luzes da casa. "Vão nos bombardear de novo", disse ao Estado.

Dezenove meses após a eclosão da guerra civil na Síria e três meses depois do início da ofensiva rebelde sobre Alepo, considerada decisiva para a sorte do regime de Bashar Assad, uma atmosfera de terror paira em tempo integral sobre os habitantes da província, o epicentro do conflito.

Todas as maiores cidades da região, como Alepo, Azaz e Marea, estão sendo parcialmente destruídas dia após dia. A economia da região foi arruinada pela inflação e o futuro parece cada vez mais comprometido pela violência fratricida e pela destruição do patrimônio histórico, a maior riqueza da região.

Quase todo "liberado" pelos insurgentes ao longo do primeiro mês de levante, o território está sob o domínio de milícias revolucionárias e, em menor escala, de grupos de origem curda que habitam o norte da Síria e optaram pela neutralidade.

Por terra, as áreas sob o poder do Exército fiel ao regime são cada vez mais limitadas e se concentram em partes da cidade de Idlib e em cerca de 25% da área de Alepo, segundo estimativas do comando rebelde. De fato, como a reportagem do Estado constatou ao longo da semana, é possível circular pela província, desde que evitando alguns pontos onde ainda existem barreiras do regime.

Essa liberdade de movimento dos rebeldes se explica pelo enfraquecimento do Exército. Abalado pelas deserções, que se multiplicaram no meio do ano, as tropas de terra não conseguiram sitiar Alepo após 90 dias de tentativas - o que os rebeldes interpretam como uma mostra de que não há mais o poder de fogo avassalador que destruiu os núcleos rebeldes em Deraa ou Homs.

A perda de potência em terra, porém, é compensada pelos bombardeios constantes lançados por aviões e helicópteros, que vêm disparando bombas de fragmentação, proibidas por legislação internacional por fazer mais vítimas. Dia e noite, o ruído de aeronaves pode ser ouvido na região, não raro acompanhado de explosões. Na quinta-feira, o bombardeio de Ma'arrat al-Numan, na Província de Idlib, deixou cerca de 50 mortos. Despejar bombas na região, matando civis, teria sido o recurso do regime para tentar evitar a tomada da base militar de Wadi Deif pelo Exército Sírio Livre (ESL).

"A situação é difícil, pois temos o controle da situação em terra, mas não temos armas adequadas para destruir aviões, helicópteros e tanques. Não temos como partir para um combate frontal", disse Omar Bienuni, comandante insurgente na região de Arkoup, no norte de Alepo. Segundo ele, a única opção é adotar táticas de guerrilha para minar a resistência pouco a pouco. "A verdade é que ainda não estamos prontos para vencê-los na região", confidenciou ele.

Outro comandante, Ahmad Laz, ex-capitão que abandonou o Exército regular e hoje é líder de uma brigada, a Mártir Jabar, admite que, no atual impasse, a guerra civil no norte da Síria pode se prolongar por meses - talvez anos. "Estamos progredindo em vários fronts, mas temos dificuldades em outros", reconhece. "Estamos em uma guerra. Não podemos prever se ou quando venceremos essa batalha. Se Alá quiser serão apenas meses. Mas vai ser uma longa guerra e pode levar anos."

Ajuda externa. O impasse militar, explicam os rebeldes, é causado pela falta de armas antiaéreas e de munição para abater as aeronaves e os tanques do Exército fiel ao regime. Com o bloqueio russo das discussões no Conselho de Segurança da ONU sobre uma zona de exclusão aérea e com decisão dos EUA, da França e da Grã-Bretanha de não fornecer armas, os recursos dos rebeldes são limitados. Líderes insurgentes com os quais o Estado se encontrou reagem inconformados quando questionados sobre as supostas transferências de armas pelo Catar e pela Arábia Saudita.

"Os cataris nos dão algum dinheiro, que usamos para comprar armas no mercado negro. Os sauditas nos dão algumas Kalashnikov. Também recebemos muita comida e medicamentos, mas não armamentos pesados, que é o que precisamos", diz Talal Abunassar, comandante de brigada do ESL em Marea.

Com o prolongamento do conflito, em Alepo a expectativa é que Assad adote a estratégia de espalhar a guerra para Turquia e Líbano, dois países vizinhos com os quais os rebeldes mais contam na Síria. A preocupação com a "regionalização" da guerra vem crescendo nas duas últimas semanas, após o bombardeio da cidade de Akçakale, sul da Turquia. As dúvidas cresceram na sexta-feira, com o atentado em um bairro cristão em Beirute.

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