Revolução sustada e golpe na desejada democracia

Análise: Jeffrey Fleishman / LA Times

O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2012 | 03h07

A revolução foi temporariamente esmagada. A medida tomada pelos generais do Egito para reduzir o primeiro presidente eleito da nação a uma marionete parece ter dado um golpe mortal na visão de que uma democracia popular substituiria suavemente as décadas de liderança autocrática de Hosni Mubarak. Os militares resistem à mudanças desde os anos 50 e, por isso, não causou muita surpresa quando eles agiram durante a noite de domingo para bloquear qualquer pretensão presidencial contra sua autoridade.

O destino do Egito tem amplas implicações não só para o Oriente Médio, onde a revolução egípcia influenciou outras revoltas da Primavera Árabe, mas também para o mundo em geral. Os militares egípcios, que recebem bilhões de dólares de ajuda americana, têm sido aliados dos EUA e baluarte da segurança regional com sua paz "fria" com Israel.

A Irmandade Muçulmana, capaz de arrastar milhares de pessoas às ruas, disse que questionará os decretos constitucionais dos militares e também a decisão da semana passada da Suprema Corte que dissolveu o novo Parlamento do Egito, controlado por deputados islâmicos. Pelo decreto, os militares deram-se poderes legislativos e decidiram que um novo Parlamento não poderá ser eleito até que uma constituição, que eles supervisionarão, seja escrita. O presidente não terá nenhuma autoridade sobre o Exército ou o orçamento nacional.

Durante décadas, os governantes do Egito barraram as ambições da Irmandade Muçulmana a um Estado com base no islamismo político, engajado em perseguições e torturas que provocaram o extremismo. A pergunta é se os militares ou a Irmandade aceitarão um dia qualquer uma das grandes reivindicações que surgiram da revolta. Os ativistas que precipitaram a revolução não tinham uma voz mobilizadora para as mudanças mais profundas, permitindo que as ordens estabelecidas assumissem o controle. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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