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Revolucionários improváveis

Resultado do voto britânico expõe o veio anárquico de um povo no mais das vezes pragmático

THE ECONOMIST , O Estado de S. Paulo

26 Junho 2016 | 05h00

“Os ingleses não são intelectuais”, escreveu George Orwell. “Têm verdadeiro horror ao pensamento abstrato e não sentem a menor necessidade de se guiar por filosofias ou ‘visões de mundo’ sistemáticas.” Nesse ponto, o melhor cronista da Inglaterra estava certo. O país é muito justamente conhecido por cultivar um pragmatismo ferrenho e desconfiar de ideias mirabolantes. 

Essa é a nação que deu as costas para o republicanismo, o fascismo e o comunismo, que em geral avança não por meio de revoluções, mas recorrendo a ajustes e acomodações, e trata de aguentar as consequentes tensões e contradições como rugas num rosto envelhecido.

De onde vem tal predileção por levar a vida ao sabor dos acontecimentos, sem se deixar entusiasmar por planos grandiosos? Alguns apontam para a guerra civil inglesa e a república que veio em seguida, de vida curta, mas tirânica. A experiência teria vacinado o país contra purismos de todos os tipos. Religião? A Igreja Anglicana está mais para agnosticismo com chá. Política? Quando os franceses descambaram para o regicídio e para o terror, o filósofo Edmund Burke balançou desconsoladamente a cabeça e depois discorreu, com aprovação, sobre a repulsa que seus compatriotas tinham à “razão pura” e aos princípios “abstratos”. 

Até hoje, o caráter nacional inglês lembra, a quem está de fora, o clima do país: ameno, tranquilo, raramente dado a extremos. Agitações e explosões de violência (ao menos quando se desconsidera a cultura alcoólica do país) são tão incomuns nessas ilhas verdes e úmidas quanto os tornados e as secas.

Daí que a vitória do Brexit entre os ingleses no referendo de quinta-feira - na Escócia e na Irlanda do Norte, a permanência na UE foi vitoriosa; no País de Gales a maioria também optou por se desligar da Europa -, pareça um desvio radical em relação à disposição benfazeja que costuma pautar sua atitude. Instado a escolher entre um estado de coisas imperfeito e um mergulho no escuro, esse povo normalmente pragmático e prudente se lançou no desconhecido, deixando seus líderes, e o restante do mundo, em estado de choque.

Não foi só o resultado em si que pareceu ser a antítese do espírito inglês, mas a maneira como ele foi construído. Foi a vitória de uma campanha que se mostrou evidentemente incapaz de responder a questões óbvias e objetivas sobre o Brexit. Que tipo de relações comerciais o país seria capaz de estabelecer? Qual o significado da decisão para a Irlanda do Norte e para a Escócia? O que aconteceria com o 1,3 milhão de britânicos que vivem na UE? 

Bravatas. Em vez de responder com fatos, os partidários do Brexit lançavam bravatas; afirmações sem pé nem cabeça sobre imigração, soberania e destino nacional; fantasias sobre um caos purificador. Queriam o país “deles” de volta. 

Até o clima parecia ter perdido sua fleuma tradicional: no dia do referendo, caíam trovões ensurdecedores sobre todo o sudeste do país, enquanto uma chuva torrencial inundava as ruas londrinas, provavelmente reduzindo o comparecimento às urnas na capital, onde predominava o sentimento pró-Europa.

Mas, assim como o plácido clima inglês vez por outra assume um comportamento atipicamente volátil, também os cidadãos do país são capazes disso. Por trás do “vamos parar com a ladainha” e do “sinto muito, mas...” esconde-se um traço rebelde. Consultemos novamente a história do país: dos luddistas e cartistas a Johnny Rotten e Margaret Thatcher vê-se que, quando lhes dá na telha, os ingleses não pensam duas vezes para mostrar o dedo médio para o establishment. 

Nas páginas de seus jornais, os políticos são tratados com muito mais brutalidade do que na maioria dos outros países europeus. A sátira desempenha papel especial na vida inglesa. Em cada apreciador de uma boa xícara de chá dorme um anarquista à espera de ser provocado. Nesse contexto, a vitória do Brexit parece menos estranha.

Ainda mais porque o veio anti-establishment no fundo não parece estar em contradição com o pragmatismo e a sensatez que costumam sobressair no caráter nacional. Os ingleses podem ser céticos em relação a ideias grandiosas, mas também desconfiam de todo tipo de autoridade. 

Como diz Burke, depositam sua fé no saber natural, o senso comum do homem comum. Pragmatismo não é a mesma coisa que deferência. Orwell, escrevendo sobre as canções que eram populares entre os soldados na 1.ª Guerra, observa que: “O único inimigo que chegava a ser nomeado nas letras era o sargento”.

Acontecimentos recentes ajudaram os partidários do Brexit a explorar esse instinto: o colapso financeiro de 2007-2008, a crise da zona do euro e a austeridade subsequente, o escândalo que eclodiu em 2009, envolvendo o uso abusivo de verbas parlamentares, e o fosso cada vez maior entre as áreas cosmopolitas e xenófobas do país contribuíram para o surgimento de um sentimento de insatisfação que fervia em fogo baixo. 

Em janeiro, uma liderança favorável ao Brexit admitiu abertamente que a campanha pretendia pôr o país contra seus líderes. A intenção era deslegitimar sistematicamente as elites políticas, burocráticas e empresariais pró-Europa. E assim foi: ativistas pró-Brexit causaram tumulto durante uma reunião da Confederação das Indústrias da Grã-Bretanha; Michael Gove, o ministro da Justiça que fez campanha pela saída da UE, comparou os economistas que advertiam contra os perigos do Brexit aos nazistas que difamaram as descobertas de Einstein; um folheto impresso pelo governo, esclarecendo as vantagens da permanência na UE, foi denunciado como “propaganda enganosa”.

A revolta dos camponeses. Deu certo. Em inúmeros comícios pró-Brexit era perceptível o sentimento contrário ao establishment, entendido aqui da maneira mais genérica possível, de modo a incluir os bancos (especialmente o Goldman Sachs), o Banco da Inglaterra, as lideranças empresariais, as universidades, os “especialistas” e o primeiro-ministro David Cameron. Num evento pró-Brexit, na região das Midlands, um ativista chegou a denunciar: “Cameron domina a mídia como os alemães dominavam os céus com seus aviões. Precisamos de uma bateria antiaérea”.

O que isso nos diz sobre o incerto mundo novo em que a Inglaterra acaba de lançar a Grã-Bretanha? Nas próximas semanas e meses, tanto as lideranças pró-Brexit, como as pró-Europa falarão, com acerto, da necessidade de ouvir os setores da sociedade inglesa que permanecem alheados do debate público, em particular os eleitores do Norte pós-industrial, que deram mais votos favoráveis à saída da UE do que se previa. 

Por outro lado, o fato é que, apesar do arroubo emotivo de quinta-feira, o velho pragmatismo inglês não está morto. Os eleitores não tardarão a se dar conta de que lhes venderam gato por lebre. Não há dúvida de que continuam a ser indivíduos suficientemente pragmáticos e sensatos para querer que os políticos que estiverem responsáveis pelas negociações com os europeus obtenham um acordo com a UE que preserve muitos dos benefícios que até agora a vida no interior do bloco regional lhes proporcionava; que mantenha a Grã-Bretanha como um país tão aberto e próspero quanto possível. 

Por ora as lideranças pró-Brexit se congratularão por terem libertado o anarquista adormecido no seio de uma nação no mais das vezes ajuizada. Mas logo o traço inglês mais pujante e familiar - o ceticismo terra a terra - voltará a predominar.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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