Rice pressiona Jaafari a se retirar

A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, e o chanceler britânico, Jack Straw, fizeram neste domingo uma visita-surpresa ao Iraque para forçar as autoridades iraquianas a pôr fim a quatro meses de divergências políticas e formar um novo governo. O principal obstáculo a um entendimento entre os partidos políticos é a insistência do primeiro-ministro interino Ibrahim Jaafari, indicado pelo bloco majoritário xiita, em concorrer a um segundo mandato. Pouco antes chegada dos dois chanceleres, o comando militar dos EUA confirmava a derrubada de um helicóptero Apache na região sudoeste e a morte de seus dois tripulantes."Vamos tentar convencê-los a concluir logo as negociações", disse Condoleezza ao chegar à capital iraquiana acompanhada de Straw. "Acho que podemos ajudar a avançar o processo, com dados atualizados de Washington e Londres", acrescentou ela sem dar detalhes.Por sua vez, Straw lembrou que os Estados Unidos e Grã-Bretanha investiram muito dinheiro no país árabe. "Precisamos, por isso mesmo, ver resolvido o mais rapidamente possível esse impasse político", acrescentou numa referência à escolha de quem vai governar o país.Jaafari quer continuar no poder, apesar da forte oposição de curdos, sunitas e xiitas moderados. Ele é acusado de não ter atuado com eficácia para evitar o conflito sectário - entre xiitas e sunitas -, que ameaça desembocar numa guerra civil. Indicado pelo bloco majoritário xiita, dominado por religiosos, Jaafari insiste em manter sua candidatura.Straw deu a entender que tanto EUA quanto Grã-Bretanha não pretendem influir no processo político iraquiano, querem apenas uma solução rápida. "Compete a eles eleger seus líderes", disse Straw aos jornalistas.Condoleezza, por sua vez, não respondeu à indagação de um jornalista sobre se ela pediria a Jaafari a retirada da candidatura dele. Mas, segundo analistas de política internacional, o objetivo da visita inesperada de ambos ao Iraque seria exatamente retirar Jaafari do páreo, apesar de ser ele o escolhido pelo bloco majoritário no Parlamento.Condoleezza e Straw reuniram-se com o presidente iraquiano, o curdo Jalal Talabani, e com Jaafari. Essa é a terceira viagem este ano de Straw a Bagdá. Condoleezza esteve no Iraque pela última vez em novembro do ano passado.O presidente iraquiano emitiu um comunicado no qual diz que fez para os visitantes um balanço das negociações. "Também informei a eles os entendimentos que estamos mantendo com os partidos para a criação de um conselho político e uma comissão ministerial para lidar com os problemas de segurança nacional", disse Talabani na nota.Pressão xiitaNo sábado, o líder xiita Kasim Dauoud uniu-se aos sunitas e curdos para exigir que Jaafari desista de concorrer a um segundo mandato. "O primeiro-ministro seria transformado num herói nacional se renunciasse a seus planos políticos", ironizou Dauoud. "Isso poderia tirar o processo do estancamento e acelerá-lo na formação de um novo governo", emendou.Outro parlamentar xiita, Jalal Eddin al-Sagheer, concordou com o colega Dauoud, ao assegurar que Jaafari já não conta com o apoio dos partidos políticos iraquianos e da comunidade internacional."Não há outra forma para resolver o impasse na formação de um novo governo senão a retirada de Jaafari", concluiu Al-Sagheer, membro da Aliança Iraquiana Unida e do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque.Queda de helicópteroNo cenário militar, o Exército americano não deu muitos detalhes sobre o incidente envolvendo o helicóptero Apache, mas admitiu mais tarde que ele possivelmente foi derrubado por fogo hostil na região de Youssifiyah, 20 quilômetros a sudeste de Bagdá. Uma operação militar para resgatar os corpos foi montada. Os nomes das vítimas não foram revelados. O Apache dava cobertura a uma patrulha que entrara em choque com rebeldes no sábado. Esse helicóptero foi o terceiro que caiu em território iraquiano desde janeiro, deixando 18 mortos.Um porta-voz militar confirmou também a morte de outros três soldados americanos, que patrulhavam um subúrbio de Bagdá. O veículo deles passou sobre uma mina que explodiu.De acordo com uma contagem da Associated Press, 2.333 soldados americanos já perderam a vida no Iraque desde 20 de março de 2003, quando o país árabe foi invadido por forças estrangeiras lideradas pelos EUA em busca de armas de destruição em massa que nunca vieram a ser encontradas.Por fim, o porta-voz anunciou também a descoberta de 42 corpos de civis iraquianos em diversos bairros de Bagdá.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.