Lam Yik Fei/The New York Times
Lam Yik Fei/The New York Times

Richard Wike: 'Satisfação com democracia tem a ver com economia e escolaridade'

Pew Research Center conduziu investigação em 34 países com mais de 38 mil pessoas sobre a satisfação com a democracia

Entrevista com

Richard Wike, diretor de pesquisas do Pew Research Center

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 12h00

A satisfação dos cidadãos com a democracia está diretamente relacionada ao desempenho econômico de seus países, à escolaridade e a presença ou ausência do partido que apoiam no governo. A conclusão é de um estudo com 38.426 pessoas conduzido pelo Pew Research Center, centro de estudos com sede em Washington, nos Estados Unidos. 

O Pew Research Center realizou entrevistas em 34 países para entender a importância de nove valores democráticos: justiça igualitária, igualdade de gênero, liberdade religiosa, eleições regulares, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade na internet, liberdade de atuação de grupos de direitos humanos e liberdade de atuação de partidos de oposição.

"O quão felizes estamos ou não com a democracia tem a ver com o desempenho da economia. Se você acredita que ela está em boa forma, tende a estar mais satisfeito. Isso vale também a longo prazo: se você está otimista em relação às projeções para a próxima geração, por exemplo", explica o pesquisador Richard Wike, diretor de pesquisas do centro de estudos. Abaixo, a entrevista completa. 

Nesta pesquisa, vocês chegaram à conclusão de que a democracia é popular, mas o real comprometimento com ideais democráticos, nem tanto. Não é um paradoxo?

No geral, os princípios democráticos são, de certa forma, populares. As pessoas tendem a dizer que eles são importantes, e geralmente apoiam direitos e instituições democráticas em seus países. A questão é que, quando você olha diretamente para o comprometimento

dessas pessoas em relação aos princípios, você descobre que muitas vezes ele não é tão forte quanto pensamos, ou esperamos, que seja.

Nós fazemos essa medição a partir do número de pessoas que classificam os princípios como ‘muito importantes’ (não só ‘importantes’). O número de pessoas que dizem que é muito importante ter direitos e instituições democráticas em seus países pode ser decepcionante, algumas vezes. Não é que as pessoas não gostem da democracia, elas gostam, mas a prioridade que elas dão a alguns princípios democráticos varia muito de lugar para lugar e de pessoa para pessoa. 

Entre os princípios democráticos analisados por vocês, a livre atuação de partidos políticos de oposição foi o que pareceu ter menor importância para os entrevistados. Quais poderiam ser os motivos para isto?

Nós perguntamos sobre nove diferentes princípios. Este foi o que recebeu menor apoio, inclusive entre os entrevistados brasileiros. Outro princípio que foi relativamente mal foi o de atuação livre de organizações de direitos humanos. Eu acho que o que nós vemos é que, quando se trata de sociedade civil, esses dois princípios são encarados como de menor prioridade, se comparados a outros, como liberdade religiosa, de expressão, ou igualdade de gênero, por exemplo.

É possível traçar um perfil de quem tende a considerar a atuação livre de partidos políticos de oposição como algo muito importante?

Nós precisamos investigar isso com mais profundidade, mas de modo geral, em qualquer país, quem tende a defender mais este princípio são as pessoas com maior escolaridade.

A preocupação com o ‘estado de saúde’ da democracia impacta a forma como as pessoas se engajam com os princípios democráticos? Alguém que está preocupado com a democracia, por exemplo, pode ter inclinação a ser mais ou menos comprometido com os ideais democráticos?

Temos trabalhado em cima da ideia de ‘democratas insatisfeitos’. Pessoas que particularmente gostariam de trazer mudança aos seus países e estão insatisfeitas com a forma como a democracia está funcionando estão em certa medida comprometidas com os princípios democráticos.

Muitas pessoas em muitos países se encaixam nessa descrição. Elas não estão felizes com como a democracia está funcionando, mas defendem os direitos democráticos e querem uma sociedade mais democrática.

De que forma a forte polarização política que estamos experimentando em países como Brasil e Estados Unidos afeta o nível de comprometimento dos cidadãos com os ideais democráticos?

Estamos experienciando esta polarização em muitos países. Em particular, a forma como você se sente em relação ao partido que está no poder tem um grande impacto em como você se sente em relação à democracia como um todo. Nós perguntamos: você está

satisfeito ou insatisfeito com a forma como a democracia está funcionando em seu país?

E percebemos que aqueles que apoiam um partido que no momento é oposição, por exemplo, tendem muito mais a manifestar insatisfação. Como as pessoas se sentem em relação ao partido que está no poder tem um grande impacto em como as pessoas estão felizes ou infelizes com o funcionamento da democracia.

Qual papel a economia desempenha em termos de ‘fé’ na democracia?

O quão felizes estamos ou não com a democracia tem a ver com o desempenho da economia. Se você acredita que ela está em boa forma, tende a estar mais satisfeito. Isso vale também a longo prazo: se você está otimista em relação às projeções para a

próxima geração, por exemplo. Já as pessoas que acreditam que seus filhos viverão pior do que elas geralmente estão menos comprometidas com a democracia. 

A partir desta pesquisa, é possível saber a quem os ideais democráticos são mais caros?

Com frequência, você verá uma defesa maior da democracia entre aqueles que têm melhor educação/escolaridade. Esse é um padrão muito comum. Mas o comprometimento varia de acordo com o princípio em questão. Mulheres tendem a priorizar mais a igualdade de gênero do que os homens. Usuários da internet tendem a defender a liberdade de internet mais do que aqueles que não a usam. Pessoas que têm a religião como algo fundamental na vida tendem a dizer que a liberdade religiosa é muito importante.

Este resultado indica novos rumos, se comparado aos estudos anteriores?

Nós começamos a perguntar especificamente sobre esses princípios apenas há 4 anos, mas vimos muitas mudanças. Houve um aumento na porcentagem de pessoas que consideram alguns deles muito importantes, como a liberdade de imprensa e de expressão.

Isso pode ser em parte uma reação aos ataques que esses princípios democráticos vêm sofrendo em alguns países.

Vários estudos sugerem isso. A liberdade de imprensa, por exemplo, diminuiu em várias partes do mundo, e o que isso pode indicar é que quanto mais um princípio democrático é desafiado, mais as pessoas tendem a apoiá-lo.

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