Ricos da China encabeçam recente onda migratória

Integrantes da nova elite de milionários chineses deixam país em busca de liberdade

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

A China cresceu invejáveis 9,1% em 2009, quando o mundo desenvolvido agonizava na mais grave crise das últimas sete décadas. Ainda assim, milhares de chineses preferem deixar seu país e se mudar para os EUA, Canadá, Austrália, Europa e regiões vizinhas da Ásia. Engrossam a que é considerada a mais recente onda migratória da história da China.

Os que lideram o movimento atual não são pessoas desesperadas fugindo da miséria ou do caos político. Integram a nova elite do país, que se muda em busca de melhor educação para os filhos, segurança econômica, ar puro e mais liberdade. "Aqui eu nunca sei se as coisas são verdadeiras ou falsas", diz Liu Leng, engenheira de software que se inscreveu no programa canadense de imigração de profissionais especializados. Liu não se refere apenas aos clássicos relógios, DVDs e bolsas piratas. Fala de coisas essenciais, como remédios e alimentos. "Quando há problemas, não temos para quem reclamar, a Justiça é inoperante."

O país, que assumirá o posto de segunda maior economia do mundo este ano, à frente do Japão, ainda é uma das maiores fontes de imigrantes do planeta. O movimento se acelerou nos últimos anos, com aumento do número de estudantes que vão para universidades de prestígio e não retornam à China, empresários que preferem a clareza das regras de países estrangeiros do que a incerteza criada pelo regime de partido único e pessoas que pretendem iniciar pequenos negócios com a poupança acumulada em solo chinês.

No período entre 1980 e 1989 - a primeira década depois das reformas econômicas de 1978 -, os EUA deram vistos permanentes de residência a 315 mil chineses. O número subiu para 410 mil na década seguinte e atingiu 637 mil entre 2000 e 2009. Neste mesmo período, 349 mil chineses obtiveram a cidadania americana, o que implica abrir mão da chinesa, já que Pequim proíbe a dupla nacionalidade.

O analista político Willy Lam, de Hong Kong, acredita que há uma "fuga de cérebros", evidenciada na emigração de intelectuais, cientistas, empreendedores de classe média e futuros talentos.

Nas última três décadas, a China cresceu a uma média de 9,6% ao ano, o que multiplicou por 11 o seu PIB per capita. A ascensão econômica, porém, não parece ter sido suficiente para seduzir os próprios chineses. Em pesquisa internacional realizada no primeiro semestre por três instituições canadenses, 77% deles responderam que emigrariam para o Canadá se pudessem. Isto colocou a China no topo do ranking de 20 países pesquisados, pouco à frente do México (71%), que vive uma guerra contra o narcotráfico e cujo PIB encolheu 6,5% em 2009.

"As pessoas estão ficando ricas, mas não estão satisfeitas com a situação da China", afirma Lam. "Em razão do fato de a China não reconhecer normas globais, como direitos civis e democráticos, muitos de seus mais bem qualificados cidadãos podem estar "votando com seus pés" ao se estabelecer no Ocidente."

Parece contraditório, mas o advogado Mikael Charette também afirma que o enriquecimento é a principal causa da mudança de chineses para seu país, o Canadá. Especialista em casos de migração de investimentos para a Província de Quebec, ele estima que há um aumento de 20% ao ano no número de chineses que se candidatam ao programa. O candidato deve ter patrimônio de pelo menos US$ 770 mil e estar disposto a investir US$ 380 mil, o que lhe dá direito a um visto de residência de cinco anos, renováveis por períodos iguais e sucessivos. Nos EUA, 1.979 chineses obtiveram visto de residência em 2009 com investimentos que variaram de US$ 500 mil a US$ 1 milhão. O número é superior aos 1.443 vistos do mesmo tipo dados pelo governo americano, em 2008, a todos os outros países e representa um aumento de 550% em relação aos 360 que foram concedidos a chineses naquele ano.

Nem todos que optam pela migração de investimentos deixam seus negócios na China. Alguns mandam as famílias para o exterior e se dividem entre os dois países. Segundo Charette, a principal motivação para a mudança é a educação dos filhos, mas a busca de segurança econômica também pesa.

"Muitos dos meus clientes são novos milionários, sabem que a realidade atual nem sempre foi a que prevaleceu no país e se perguntam por quanto tempo ela poderá se sustentar", diz Charette, em uma menção velada ao período de turbulência vivido pelos chineses durante as três décadas de império do maoismo.

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