Ridículo, como numa república de bananas

Este escândalo sem precedentes nas despesas dos parlamentares britânicos é digno de uma república das bananas. Piadas à parte, a denúncia dos gastos mirabolantes pede pela volta da condição autônoma dos parlamentares - e mostra o valor do jornalismo feito à moda antiga. A Grã-Bretanha passou a semana numa longa gargalhada, deitada no chão, esperneando no ar, num surto de honrada indignação. O Parlamento ridicularizou a si mesmo e, por um momento, o povo pôde se distrair da recessão. A frase favorita da HMRC - o Fisco britânico - , "todos os gastos devem ser acompanhados por notas fiscais", foi usada contra seus autores com efeito devastador. A confusão das despesas é uma verdadeira revolta popular, uma vingança daqueles que foram tiranizados pelo poder, vítimas dos parlamentares que, durante a última década, aprovaram medidas opressivas uma atrás da outra.Agora nós cuidamos da nossa própria retaguarda. A indignação não é uma moção formal de censura política. Trata-se de algo muito mais mortífero: a ridicularização. Em cenas que lembram sátiras políticas, parlamentares foram chutados escada abaixo em meio a uma cascata de assentos de privada, lâmpadas, biscoitos caninos e esterco de cavalo. Eu não poderia imaginar maneira melhor de fazê-lo. Obrigado, liberdade de informação. Obrigado, Daily Telegraph.Os parlamentares não sabem o que fazer. São como soldados perdidos na terra de ninguém, minas explodindo ao seu redor, balas chovendo de todos os lados e ninguém no comando porque todos estão feridos. Como podem o presidente da Câmara, o primeiro-ministro ou o líder da oposição repreender os demais quando as suas próprias corridas de táxi, faxineiras e pagamentos da hipoteca são incapazes de suportar o escrutínio público? Como alguém pode afirmar que estava "dentro das regras" quando esta expressão convida ao riso? É como dizer que estavam "apenas obedecendo ordens". Como pode o maior de todos os parlamentos se recuperar deste escândalo? Os conservadores vão reembolsar o valor dos seus gastos extravagantes, um reconhecimento da falta de justificativa para os mesmos.O presidente da Câmara não demonstrou remorso semelhante. Não sei como ele pode continuar no cargo por mais um único dia. O trabalho dele é preservar a dignidade e a eficácia do Parlamento e ele falhou. A resposta de Michael Martin foi gastar uma fortuna com advogados na tentativa de proteger da liberdade de informação as suas despesas, chegando ao ponto de chamar a polícia quando sua estratégia fracassou. O remédio que sugiro é simples. Os parlamentares não devem mais figurar na folha de pagamentos do Estado, repleta de retenções e isenções fiscais, despesas fraudulentas e corrupção. Eles devem ter o status de trabalhadores autônomos, recebendo um salário previamente acordado que seria proveniente de fundos mantidos pelos funcionários da sua campanha e pagos pelo seu eleitorado. Não se trata de um castigo drástico; eles teriam simplesmente que se comportar como cidadãos comuns. Quanto às extravagâncias da imprensa, não consigo ver o que o Telegraph fez de errado. O jornal supostamente pagou por material roubado que foi subsequentemente publicado. Assim, o Telegraph teria incorrido no delito de lucrar a partir de um crime. Mas seria difícil imaginar uma situação na qual o interesse público fosse uma justificativa mais indiscutível. A publicação era a única maneira de revelar a fraude sistemática nas contas públicas. Aqueles que entoam o obituário da "grande mídia" poderiam citar alguma outra organização eletrônica capaz de realizar uma investigação deste porte. Como a recente divulgação das fraudes fiscais corporativas nas páginas do The Guardian, este trabalho exige recursos humanos e financeiros. Grosseiro, injusto, esquerdista, chame-o do que quiser: o bom e velho jornalismo ainda é desesperadamente necessário para manter a democracia em estado de alerta. Deus permita que ele nunca desapareça.*Simon Jenkins é escritor e jornalistaConfusão de gastos justifica a revolta do povo britânico Neste artigo, o autor comenta a indignação dos contribuintes britânicos com a confusão - feita por parlamentares, ministros e funcionários - entre gastos públicos e privados. E compara o escândalo que abala a política britânica a práticas comuns de ?repúblicas de bananas?.

Simon Jenkins, THE GUARDIAN*, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 00h00

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