Rigor chinês frustra diplomatas

Em viagem oficial a Lhasa, no Tibete, comitiva diplomática tem agenda controlada por autoridades chinesas

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

29 de março de 2008 | 00h00

O grupo de 15 diplomatas estrangeiros - entre os quais[O SHOW] o ministro Oswaldo Biato Jr., da Embaixada do Brasil[/O SHOW] - que foi verificar na sexta-feira a situação no Tibete conseguiu ficar em Lhasa apenas 22 horas e teve de cumprir um estrito programa estabelecido pelo governo chinês, no qual só havia espaço para a apresentação dos efeitos da violência dos protestos do dia 14 de março.Encontro com monges tibetanos, visitas aos detidos e discussão das causas do descontentamento ficaram fora da agenda oficial. "A delegação não foi autorizada a se mover de maneira independente e não conseguiu manter conversações com residentes de Lhasa sem supervisão de autoridades chinesas", dizia a nota distribuída pela Embaixada dos Estados Unidos em Pequim.Depois de muita insistência, a comitiva conseguiu visitar na manhã de ontem o templo Jokhang, onde cerca de 30 monges protestaram na quinta-feira contra a ausência de liberdade religiosa diante dos primeiros jornalistas estrangeiros autorizados a visitar a região após as manifestações.Os diplomatas chegaram ao templo às 8 horas, mas não viram nenhum monge. Segundo as autoridades chinesas, estavam todos dormindo.A agenda concentrou-se na apresentação dos danos provocados pelos manifestantes, que agiram nos dias 14 e 15 sem que houvesse qualquer ação da polícia, o que chamou a atenção da comitiva. Integrantes do grupo levantaram três teorias para justificar a omissão policial: os protestos coincidiram com a reunião do Congresso Nacional do Povo em Pequim, onde estavam todos os líderes do país, incluindo os do Tibete; houve temor de que a repressão prejudicasse a imagem internacional da China a quatro meses da Olimpíada; antes de agir, a polícia esperou a saída de turistas e jornalistas estrangeiros que estavam na região.Até agora, quase 700 pessoas foram presas sob a suspeita de terem participado das manifestações anti-China, as mais violentas desde 1989, quando a Lei Marcial vigorou no Tibete durante 13 meses. O primeiro compromisso dos diplomatas foi a visita à loja de roupas onde cinco vendedoras morreram vítimas de incêndio iniciado pelos manifestantes - uma tibetana e quatro chinesas han, a etnia à qual pertencem 91,6% da população do país. Depois, o grupo caminhou pelas ruas em que ocorreram os maiores atos de violência, com ataque e incêndio de estabelecimentos comerciais.O governo chinês afirma que 908 lojas e 120 casas foram danificadas ou destruídas nos dias 14 e 15. Ontem, Pequim anunciou que pagará indenização de US$ 28,2 mil às famílias dos 22 civis mortos durante os protestos. Oficialmente, também morreram três monges, que teriam se atirado de um prédio ao fugir da polícia. Tibetanos no exílio sustentam que o número de vítimas é de pelo menos 135. A saída dos diplomatas da capital do Tibete coincidiu com novos protestos na cidade, de acordo com o governo tibetano no exílio, chefiado pelo dalai-lama.A porta-voz da Campanha Internacional pelo Tibete, Kate Saunders, disse que forças de segurança cercaram na tarde de ontem os dois principais templos de Lhasa: Jokhang e Ramoche. A nota da Embaixada dos Estados Unidos observou que a visita é um passo na direção correta, mas defendeu que jornalistas e diplomatas possam viajar à região. "E nós pedimos que a China respeite o direito universalmente reconhecido de todos os seus cidadãos expressarem de maneira pacífica suas visões políticas e religiosas, sem medo de repreensão, seja conversando com jornalistas e diplomatas, seja participando de demonstrações pacíficas", ressalta a nota.

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