ADRIANA CARRANCA / ESTADÃO
ADRIANA CARRANCA / ESTADÃO

Risco da travessia vale se a morte é certa em casa

No Porto di Augusta, na Província de Siracusa, o navio da marinha Nave Sirio aportou trazendo 576 pessoas a bordo; os sinais de exaustão e sofrimento estavam no rosto de cada um, mas havia também um ar de alívio

Adriana Carranca, Enviada Especial / Tarsia, Itália, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2016 | 05h00

TARSIA, ITÁLIA - Nas duas últimas semanas, mais de 17,8 mil pessoas foram resgatadas do Mediterrâneo central – 6,5 mil delas, que viajavam em 40 embarcações naufragadas ou encontradas à deriva, foram salvas em um só dia. No Porto di Augusta, na Província de Siracusa, o navio da marinha Nave Sirio aportou trazendo 576 pessoas a bordo. Os sinais de exaustão e sofrimento estavam no rosto de cada um, mas havia também um ar de alívio. 

Elas vinham de 11 países – Nigéria, Sudão, Eritreia, Guiné, Gâmbia, Etiópia, Senegal e Somália, Costa do Marfim, Egito e Bangladesh –, fugindo de conflitos, epidemias, tirania e pobreza extrema. A travessia do Mediterrâneo é arriscada, mas é também a ultima etapa de uma longa jornada que envolveu perigos maiores: exploração, escravidão, abuso sexual, perseguição, sequestros, prisões arbitrárias, tortura, fome. O mar é recomeço.

“Quais são as chances de sobreviver na travessia do mar? Cinquenta por cento? Metade vai chegar vivo, é isso? Para nós, é chance suficiente! De onde a gente vem, é chance suficiente! Você entende? Porque ficar é certo que vai morrer”, diz Ademola, de 32 anos, comerciante. Ele e a mulher saíram da Nigéria há três anos, quando um amigo o convenceu de que havia trabalho na Líbia. Em Trípoli, acabou lavando carros nas ruas para sobreviver. Uma noite, homens encapuzados invadiram sua casa e o sequestraram. “Roubaram tudo o que eu tinha: 500 dinares (algo como US$ 360). Não há governo na Líbia, os bancos não funcionam, então, todo o dinheiro fica em casa”, diz. “Eles nos amarraram e espancaram. Minha mulher desmaiou, ela tinha nosso filho de 2 anos nos braços. Durante um mês, ficamos presos, trabalhando como escravos. ‘O que você está fazendo na Líbia, seu negro!’, eles gritavam. Depois, nos jogaram no mar.”

Vitória, de 42 anos, que fugiu da Nigéria com os filhos Vitor e Comfort, recém-nascida, conta ter sido mantida por dois anos em um bordel na Líbia para pagar pela travessia do Mediterrâneo. Eles foram resgatados de um pequeno bote que levava 130 pessoas, da costa líbia à Sicília. Este ano, mais de 112 mil fizeram a travessia Líbia-Itália.

O caos na Líbia transformou o país em um centro de traficantes de pessoas. A União Europeia planeja “treinar” a guarda costeira líbia para identificar os criminosos, mas é provável que ela também lucre com o contrabando, assim como as facções que lutam em seu território. Pouco antes de salvar do mar parte das 576 pessoas que desembarcaram no porto de Augusta, o navio de resgate Bourbon Argos foi abordado por homens armados, em uma lancha, que dispararam contra a embarcação e, em seguida, o invadiram. O envolvimento de homens da marinha líbia foi confirmado mais tarde. As organizações de ajuda humanitária pedem a abertura de um corredor seguro para os que tentam chegar à Europa.

Os relatos dos que chegam pelas mãos de traficantes formam um quebra-cabeça de horror sobre a situação em regiões ignoradas pela comunidade internacional.

Veja abaixo: Número de refugiados atinge recorde

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