Mohamad Torokman/Reuters
Mohamad Torokman/Reuters

Risco de ''3ª intifada'' assusta palestinos e israelenses

Dois lados se aproximam de queda de braço na ONU e ciclo de violência em casa

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2011 | 00h00

Tímido, o palestino Ahmed Khatib, de 35 anos, acabou convencido a se deixar fotografar segurando o souvenir que acabara de conseguir. Era uma placa laranja florescente com as inscrições "Perigo Mortal, Zona Militar" em hebraico, árabe e inglês. Por cinco anos, ela avisou aos moradores de sua vila - Bil"in, na Cisjordânia - dos riscos de se aproximar do muro que os separava do assentamento israelense ultraortodoxo de Modiin Illit.

A Justiça de Israel ordenou a destruição desse trecho da barreira e o recuo dos militares israelenses, que deixaram para trás o novo souvenir de Khatib. "Se houver uma terceira intifada depois de setembro (quando os palestinos vão à ONU por um Estado), olharei para a placa para me lembrar que conquistamos muito mais sem armas do que com violência", explica.

Nos últimos seis anos, toda sexta-feira, antes da reza, ele e algumas dezenas iam até o pé do muro de Bil"in protestar na frente dos soldados. O ritual geralmente terminava com uma troca de pedradas e gás lacrimogêneo. Animados por um caminhão de som estridente, Khatib, moradores de sua vila e manifestantes entraram no dia 1.º através do antigo posto de controle israelense e, nas terras antes inacessíveis, começaram a construir uma casa.

Bil"in virou uma espécie de símbolo da nova estratégia de luta palestina por um Estado, exatos 18 anos após os Acordos de Oslo. Distantes da violência dos homens-bomba, que jogaram a opinião pública internacional contra os palestinos, os manifestantes agora desafiam, desarmados, o sofisticado aparato de segurança de Israel diante de dezenas de câmeras amadoras e celulares. As cenas em minutos vão parar no YouTube e Facebook, as redes sociais que semearam a primavera árabe.

"Tsunami". O palestino da pequena Bil"in diz ter "certeza" de que foi esse tipo de protesto que levou à "desocupação" de 14 hectares de sua vila. E avisa: "Setembro fará com que essa fagulha se espalhe por toda Cisjordânia".

Não é só Khatib que se refere a "setembro" como um marco entre um período de relativa calma e um novo ciclo de violência. Alguns, como o colunista do jornal Haaretz Aluf Benn, falam na "inevitável terceira intifada" daqui a dois meses. É nessa época que a Autoridade Palestina pretende levar à Assembleia-Geral da ONU um pedido de reconhecimento de sua soberania sobre os territórios árabes segundo o traçado pré-1967.

O resultado da iniciativa diplomática - a outra face da nova estratégia de luta palestina - é previsível: ou os EUA torpedearão a medida, ou Israel ignorará (novamente) a decisão. Espera-se, então, a chegada de um "tsunami" - palavra usada, curiosamente, tanto por Khatib quanto pelo ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, para descrever a iminente reação palestina.

Nakba e Naksa. A trajetória do morador de Bil"in parece acompanhar à risca a evolução da causa palestina nas últimas décadas. Ainda criança, nos anos 80, ele atirou pedras contra soldados israelenses na primeira intifada. No segundo levante palestino, a partir de 2000, juntou-se ao grupo armado Brigada dos Mártires de al-Aqsa. Khatib ajudava a transportar armas a "mártires" prestes a atacar civis israelenses. Mas acabou preso em 2006 e ficou 13 meses em uma cadeia dentro de Israel.

Libertado, abandonou a luta armada e passou a advogar "ações não violentas" contra Israel, como a que conduziu em sua vila. Agora, ele diz ser um entusiasta de protestos em que milhares de palestinos simplesmente andam em direção à fronteira ou a um posto de controle israelense - como ocorreu nos últimos aniversários das guerras de 1948, a Nakba ("catástrofe", em árabe), e de 1967, a Naksa ("derrota"). Nas duas ocasiões, soldados israelenses, surpreendidos, abriram fogo para tentar frear a multidão de andarilhos.

Em um artigo publicado em maio, o colunista do New York Times Thomas Friedman havia sugerido essa nova tática de protestos aos palestinos. Ele a batizou de "Alternativa Praça Tahrir", em referência ao epicentro dos protestos no Cairo que levaram à queda do ditador egípcio Hosni Mubarak.

"O mundo vê que estamos desarmados", afirma Khatib. Segundo ele, tunisianos e egípcios mostraram aos palestinos que uma massa de gente "também faz política". "Mas Israel não quer a paz e sabemos que seremos reprimidos à bala. Pouco importa, não desistiremos."

Veterano. Outro que acredita que "setembro" iniciará um novo ciclo de violência é Yonathan Bachal, colono israelense de 51 anos nascido em Nova York. Bachal é um pioneiro do assentamento de Har Brachá ("Monte da Bênção", em hebraico). Construído com pedras claras e cercado por arame farpado, o vilarejo fica no topo de uma montanha vizinha à cidade de Nablus, no norte da Cisjordânia. Na colina, há alguns milhares de anos, seis tribos hebreias teriam encontrado abrigo após vagarem por 40 anos no deserto, fugindo da escravidão no Egito sob comando de Josué, sucessor de Moisés.

Har Brachá é formada por uma comunidade ultraortodoxa de cerca de 300 famílias. Na yeshiva (escola religiosa) do assentamento, o rabino Eliezer Melamed pregava que a Torá proíbe judeus de expulsarem seus semelhantes de qualquer porção da terra prometida por Deus - o que provavelmente ocorrerá se um dia houver uma solução de dois Estados. A prédica incendiária fez com que o governo de Israel rompesse com o rabino, que teve de deixar o assentamento. No mês seguinte, o dobro de alunos se matricularam na yeshiva.

Na primeira intifada, o vizinho de porta de Bachal foi assassinado com um bastão a metros da entrada do assentamento. Hoje o local é marcado por uma bandeira de Israel. Na segunda, um palestino conseguiu entrar em Har Brachá após fazer um buraco na cerca e abriu fogo contra moradores. Uma mulher grávida e seu marido foram baleados.

"Depois de setembro, virá mais uma dessas temporadas, com tiros voando sobre nossas cabeças. Mas o que posso fazer? Deus nos disse para voltar para cá. Aqui é minha casa", afirma o colono.

Segundo uma pesquisa realizada há duas semanas pelo instituto Palestinian Center for Policy and Survey Research (PCPSR), de Ramallah, 65% dos palestinos apoiam a decisão de recorrer à ONU. Mais: 52% dizem que pretendem participar de "manifestações pacíficas" nos territórios ocupados, caso a proposta naufrague nas Nações Unidas ou seja ignorada por Israel.

Uma terceira intifada, porém, não seria "inevitável". Uma simulação realizada na semana passada pelo instituto com políticos e acadêmicos palestinos e israelenses apontou para duas tendências gerais. No primeiro cenário, o impasse na ONU levaria a confrontos na Cisjordânia e novos tiros de foguetes desde a Faixa de Gaza contra o sul de Israel - a temida "terceira intifada".

No segundo, os EUA tentariam uma manobra nas Nações Unidas - como, por exemplo, propor um texto reconhecendo o Estado palestino, mas sem capital ou fronteiras definidas. De acordo com a simulação, Israel aceitaria o texto americano, enquanto palestinos o rejeitariam. A estagnação diplomática em Nova York, porém, não implicaria necessariamente em confrontos nos territórios palestinos e em Israel.

"Existe um sentimento geral de apreensão diante de uma nova onda de violência, sobretudo por que as autoridades dos dois lados ficam martelando que estão "se preparando para setembro"", diz Ytzhak Galnoor, cientista político da Universidade Hebraica de Jerusalém. Segundo ele, esse discurso também serve como instrumento de pressão política.

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