Risco de corrida armamentista preocupa região

Unasul expôs tensão causada pelos acordos e alta dos gastos militares

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

A reunião da União de Nações Sul-americanas (Unasul) desta sexta-feira voltou a lançar luz sobre uma questão que há algum tempo preocupa autoridades e especialistas: a possibilidade de que a região caia numa dispendiosa e arriscada corrida armamentista. Alguns alertam para o risco de o acordo militar Colômbia-EUA servir de pretexto para o aumento dos gastos em armamento. Outros ressaltam já existir uma dinâmica de modernização das Forças Armadas locais que precede essa polêmica. No último ano, os gastos militares na região aumentaram 30% segundo o centro de estudos argentino Nueva Mayoría. "Por que não analisamos esse processo de compra de armas vergonhoso?", propôs o presidente peruano, Alan García, na Unasul. "Em 2008, gastamos US$ 38 bilhões em armas, dinheiro que poderia ajudar milhares de famílias."O governo colombiano, que desde 2002 recebeu US$ 6 bilhões dos EUA para o combate às drogas, chegou ao encontro de sexta-feira munido da lista dos acordos de outros países. A Venezuela fechou parcerias com o Irã e a Rússia. Comprou US$ 4 bilhões em caças, helicópteros e fuzis de Moscou e fez uma operação militar conjunta. O Brasil assinou um contrato de mais de US$ 8 bilhões com a França prevendo a compra de helicópteros, jatos e a construção de um submarino nuclear. O Peru espera uma ajuda de US$ 1,2 bilhão dos EUA para o combate ao tráfico, a Bolívia deve comprar US$ 100 milhões em armas russas. E o Equador adquiriu 6 aviões de guerra de Israel e 24 do Brasil. A lista de fato levanta algumas dúvidas. A primeira é se esses acordos podem ser considerados um sinal de que a dinâmica de corrida armamentista já está instalada na região. Para Marcelo Coutinho, coordenador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) e professor da UNB, é cedo para concluir isso. "O aumento dos gastos militares serviu para modernizar um setor que estava sucateado na maior parte dos países", disse Coutinho ao Estado. "Era lógico que os governos fizessem esses investimentos em tempo de bonança econômica."Outros analistas ressaltam, porém, que, principalmente em algumas partes da região, as tensões com os vizinhos de fato são um estímulo. Afinal, é natural que se um país investe em poderio militar, outros se sintam compelidos a alcançá-lo. "Em pelo menos duas situações há uma possível corrida armamentista: entre o Chile e o Peru e entre a Colômbia e a Venezuela", disse, para a BBC, Robert Munks, da revista britânica especializada em Defesa Jane?s Intelligence Weekly. ACORDOS DISTINTOSA segunda dúvida relacionada aos acordos é até que ponto cada um deles pode representar uma ameaça para a estabilidade da região. Moisés Naím, editor da revista Foreign Policy, por exemplo, não vê no uso das bases colombianas pelos EUA um perigo. "Mais importante é o fato de haver novas provas de que as Farc recebem apoio da Venezuela e esse país é um ponto de operações de traficantes. Por que as bases provocaram imediata reação de Lula e tais revelações não mereceram nenhum comentário?", disse Naím ao Estado, no início do mês. Para a analista política venezuelana Francine Jácome, é natural que haja desconfiança em relação ao acordo Colômbia-EUA "por uma questão histórica, relacionada ao intervencionismo americano na região". "Além disso, comprar armas não é o mesmo que permitir a presença de tropas e aviões estrangeiros em seu território", concorda Coutinho. "O risco de transbordamento no caso colombiano é grande."Mas mesmo entre as "compras de armas", segundo analistas, é preciso fazer distinções. Há alguns casos que causam preocupação - e em especial, o da Venezuela. Não tanto por uma questão de escala (o Brasil e o Chile gastaram mais em armas em 2008), mas pelo discurso belicista de Hugo Chávez. No ano passado, o líder venezuelano chegou a enviar tropas para a fronteira em outra crise com a Colômbia. E recentemente sugeriu que se restituísse à força o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya. "Chávez tem uma política expansionista, tanto que financia políticos e grupos em outros países", diz Fernando Gerbasi, do Centro de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais da Universidade Metropolitana, em Caracas. Ele concorda que há motivos para cautela no que diz respeito ao acordo Colômbia-EUA, mas não vê sentido na diferença de tratamento que receberam as parcerias militares de Chávez: "Os países da região estão se recusando a ver nas compras de armas da Venezuela uma ameaça, mas no futuro isso pode custar caro."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.