AP Photo/ Manu Brabo, FIle
AP Photo/ Manu Brabo, FIle

Risco de fome aumenta em Alepo, sitiada pelo Exército sírio

Cerca de 200 mil moradores de bairros no leste da cidade, controlada pelos rebeldes, estão isolados; Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA) diz que previsões durarão apenas até o começo de agosto

O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2016 | 11h31

ALEPO, SÍRIA - O risco de fome e escassez generalizada aumenta para os mais de 200 mil habitantes dos bairros controlados pelos rebeldes em Alepo, no norte da Síria, atualmente completamente sitiada pelo Exército.

"Não sei o que será de nós", disse Mohamed Rukbi, desempregado e pai de quatro crianças, que vive no bairro rebelde de Bustan al Qasr. "Todas as rotas estão fechadas, e há dias falta pão, os alimentos em geral, praticamente tudo", acrescenta este homem de 38 anos.

A escassez de alimentos e combustível é sentida nos bairros localizados no leste da segunda maior cidade da Síria desde que as forças do regime de Bashar Assad bloquearam no dia 7 a rota do Castello, última via de abastecimento do setor controlado pelos insurgentes.

este fim de semana as tropas governamentais tomaram o controle da totalidade da rota, isolando completamente o leste de Alepo do mundo exterior e aumentando os temores de um longo cerco. 

Em breve, a fome. "Tenho medo do futuro. O regime não se contentará sitiando os bairros do leste (da cidade), mas também os atacará", teme Mohamed. Em Mashad, outro bairro rebelde, o mecânico Mohama Zaytun afirma não ter mais trabalho devido à falta de gasolina.

"Pensar no cerco me impede de dormir", disse o homem de 44 anos, com cinco filhos. "Tenho provisões para apenas uma semana. Se todos os produtos alimentícios começarem a faltar no mercado, em breve significará a fome", afirma. "Tento fugir da cidade, mas não há nenhuma rota segura."

A ex-capital econômica da Síria é uma das cidades mais afetadas pela guerra. Em 2010 ficou dividida em dois setores, um controlado pelo regime no oeste e outro pelos rebeldes no leste.

Para os especialistas, o avanço do Exército, apoiado pela aviação russa, é um golpe muito duro para os insurgentes e pode dar uma guinada no conflito que deixou mais de 280 mil mortos. "Além da catástrofe humanitária, os recentes acontecimentos de Alepo são muito importantes politicamente falando", ressalta Karim Bitar, diretor de pesquisas do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS). "Privados de oxigênio, os rebeldes enfrentam uma missão impossível."

O presidente sírio, por sua vez, se sente "consideravelmente mais confortável que há alguns meses" e suas forças "podem consolidar ainda mais suas posições", disse o especialista.

Ajuda urgente. Segundo as Nações Unidas, quase 600 mil pessoas vivem nas zonas sitiadas na Síria, na maioria dos casos por parte do regime, sem acesso a alimentos ou ajuda médica, o que provoca muitos casos de desnutrição. Dezenas de pessoas morreram de fome nestas zonas.

Os bairros do leste de Alepo ainda não estão definidos como "sitiados" pela ONU, mas esta última se declarou "muito preocupada pela escalada de violência" que "coloca em risco centenas de milhares de pessoas" nesta cidade. A organização convocou "todas as partes a autorizar a entrega de ajuda humanitária" e "a retirada dos civis que desejarem".

O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA) ressaltou uma situação "particularmente inquietante devido à forte concentração de habitantes nesta zona". Segundo a OCHA, há alimentos suficientes para 145 mil pessoas para apenas um mês, enquanto o leste de Alepo não recebe ajuda desde 7 de julho. "Há uma ajuda vital que é urgente entregar", diz o escritório.

Enquanto o regime fecha seu cerco sobre Alepo, o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, anunciou recentemente que é preciso retomar as negociações de paz. Duas sessões precedentes de negociações ocorreram em Genebra desde o início do ano, mas sem conseguir aproximar os grupos adversários.

Para Basma Kadamani, membros da oposição síria no exílio, o "castigo coletivo" imposto aos civis em Alepo "impõe um grande ponto de interrogação sobre Genebra". / AFP

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