Risco de guerra na Venezuela sem Chávez

Uma coisa que a doença do presidente sublinhou é a profundidade da divisão no país

Peter Wilsonm, Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2011 | 00h00

A maior preocupação que Marianela Hernández enfrentava costumava ser encontrar óleo de cozinha e carne no bairro de classe trabalhadora em que ela mora em Caracas. Isso foi antes de o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, viajar para Havana para tratar um câncer. Agora, Marianela tem preocupações mais urgentes: o estado de saúde do presidente e o período de caos que surgirá caso ele não se recupere.

"O que faremos se "el comandante" não puder continuar à frente do país?", disse Marianela, de 55 anos, faxineira de escritório. "Qual será o futuro dos programas iniciados por ele, o que acontecerá com seu apoio ao povo? O que vai ocorrer conosco?" Ela não é a única pessoa obcecada pela doença do presidente: a Venezuela parece ter virtualmente parado de prestar atenção em tudo o mais. O aniversário de 200 anos da fundação do país, celebrado no dia 5, encontrou pouco espaço no imaginário popular, assim como o recente sucesso da seleção nacional de futebol que disputa a Copa América na Argentina.

Esta influência durante a doença se equipara à inescapável presença de Chávez nos momentos de saúde. Diferentemente de todos os outros líderes da história democrática da Venezuela, Chávez dominou a vida cotidiana, reunindo em torno de si um poder cada vez maior por meio da erosão da autonomia das instituições políticas do país. Desde que assumiu a presidência, em 1999, Chávez buscou ativamente alterar a realidade política, social e econômica da Venezuela, levando muitos de seus seguidores a retratá-lo como o messiânico salvador do país.

Apoio. Chávez obtém a maior parte de seu apoio da população pobre da Venezuela, que corresponde a 80% dos 28 milhões de habitantes. Eles apoiam o presidente por causa de seus maneirismos populares, mas também porque são beneficiados pelos programas sociais apresentados por Chávez - habitação gratuita e empréstimos a juros baixos.

Isso não significa que os venezuelanos estejam todos ansiando pela pronta recuperação do presidente. Roberto Carmona, programador de computadores atualmente desempregado, diz estar perplexo com a comoção excessiva. "Ele está arruinando o país com suas políticas, e por isso torço para que ele tenha de renunciar. Talvez eu possa encontrar emprego novamente quando as empresas voltarem a investir. Mas acho que ainda é cedo para contar com o afastamento dele", disse Carmona, suspirando. "Como diz o ditado local, ervas daninhas nunca morrem".

No início do mês, Chávez admitiu que os médicos em Cuba tinham removido um tumor maligno de seu abdômen. Desde então, o vice-presidente Elías Jaua disse apenas que Chávez está se submetendo a um "tratamento rigoroso" e "o presidente continua a desempenhar suas funções durante este processo". Ele não ofereceu mais detalhes.

É esse tipo de informação inconsistente e incompleta sobre a saúde de Chávez que alimentou as incontroláveis especulações do público. Enquanto Chávez se cala sobre a doença, suas poucas e cuidadosamente orquestradas aparições públicas são assistidas de novo e de novo na busca por possíveis pistas a respeito da saúde dele enquanto o presidente recebia tratamento em Caracas.

Muitos venezuelanos têm se disposto a arriscar palpites para o diagnóstico com base nas evidências fotográficas. "Ele está mais pálido agora, e fala mais devagar", disse Nora Alvarez, dona de casa de 32 anos que nunca votou em Chávez. "Ele parece mais magro e menos animado. Não é o mesmo homem de antes." Ela se diz convencida de que Chávez está morrendo, pois o presidente abandonou seu hábito de concluir todos os discursos com as palavras Pátria, Socialismo ou Morte. "Ele não quer desafiar a sorte", disse ela.

Há também aqueles que desconfiam da própria doença do presidente. Nem todos acreditam que Chávez tenha câncer. Alguns creem que a doença dele pode ser um embuste que teria como objetivo provocar compaixão pelo presidente conforme se aproximam as eleições presidenciais de 2012. Chávez ainda é o político mais popular da Venezuela, com uma taxa de aprovação de 50%.

Levando-se em consideração que o presidente tem 56 anos e o tumor estava localizado na região pélvica, alguns médicos especularam que Chávez poderia estar sofrendo de um câncer avançado no cólon ou na próstata, diagnóstico que exigiria uma terapia agressiva para possibilitar a sobrevivência do presidente.

Cada vez mais, os políticos da oposição estão pedindo que a situação seja totalmente esclarecida; o governo respondeu mantendo o silêncio.

Apesar de a emissora estatal de TV mostrar constantemente partidários de Chávez gritando "Pa"lante Comandante!" (Adiante, Comandante!) enquanto desejam melhoras ao presidente, os apresentadores muitas vezes se veem sem palavras para explicar a ausência do presidente.

Rumores. Enquanto esteve em Caracas, ele tentou projetar uma aura de autoridade ao fazer aparições públicas cercado pelo alto comando das Forças Armadas. Isso serviu também para afastar os rumores de uma possível dissensão nos altos escalões do governo. Na verdade, parte do motivo do silêncio de Chávez pode ser a tentativa de evitar disputas internas dentro do seu Partido Socialista Unido da Venezuela. O partido se encontra dividido entre dois grupos, com os mais dogmáticos reunidos em torno do irmão de Chávez, Adán, e os membros mais pragmáticos manifestando seu apoio ao vice-presidente Diosdado Cabello. Um diagnóstico grave da saúde do presidente poderia dar início a uma guerra civil dentro do partido, desencadeada pela disputa entre as diferentes facções pelo comando de uma Venezuela pós-Chávez. Isso, por sua vez, beneficiaria a oposição.

Ainda assim, a Venezuela é um lugar diferente sem a onipresença do presidente. Antes de sua doença, ele dominava as ondas de rádio e televisão do país. E a sua imagem estava, com certeza, por toda parte. As fotos do presidente se multiplicam: viajantes que chegam ao Aeroporto Internacional Simon Bolívar são bombardeados com pôsteres de um Chávez salientando suas realizações revolucionárias.

Agora, sua inesperada doença criou um vácuo que seus vice-presidentes e ministros parecem não poder ou não desejar preencher. Sem Chávez para liderar, muitos se perguntam por quanto tempo seu movimento persistirá. "O chavismo sem Chávez não durará muito", disse Carmona. Os investidores parecem concordar. Os preços dos títulos venezuelanos subiram 11% desde o início da crise. Os compradores estimularam a demanda por considerar que qualquer mudança no governo implicaria um repúdio a muitas iniciativas e nacionalizações forçadas e bancadas por Chávez que prejudicaram o investimento do setor privado e tornaram a Venezuela um parceiro comercial não confiável.

Uma coisa que a doença de Chávez sublinhou é profundidade da divisão do país. Embora Chávez continue sendo o político mais popular do país, suas políticas são rejeitadas por dois em cada três venezuelanos. Mais da metade diz também que já é hora deixar outra pessoa governar a Venezuela.

A criminalidade vem crescendo - assim como o endividamento do país. Chávez tomou muitos empréstimos para financiar seus programas sociais. Uma nova moeda que Chávez introduziu há mais de dois anos já perdeu mais da metade do seu valor, e os preços ao consumidor subiram 13% nos primeiros seis meses do ano, o ritmo mais acelerado da América Latina. A produção de petróleo, que responde por 90% das exportações do país, caiu um terço desde 1999, um registro fraco para um país que diz possuir as maiores reservas mundiais.

Por enquanto, a oposição mostrou um comedimento pouco característico. Se a saúde do presidente se agravar, esse comedimento provavelmente não vai durar. E é aí que poderiam surgir problemas, especialmente se os apoiadores tentarem forçar uma transição constitucional não muito ordeira. "Com a sociedade tão polarizada e tantas armas nas ruas, poderá haver uma guerra civil se ele morrer", disse Carmen Soto, que chefia um conselho local. "Essa é uma receita para o desastre". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL E CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA, FOI CHEFE DA SUCURSAL DA BLOOMBERG NEWS EM CARACAS POR QUASE 11 ANOS E ESTÁ ESCREVENDO UM LIVRO SOBRE CHÁVEZ E SUA REVOLUÇÃO

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