Risco de novas fraudes nas eleições afegãs

Até o final do mês, cerca de 2.500 homens e mulheres afegãos gastarão milhões de dólares e centenas de horas de viagem percorrendo algumas das estradas mais perigosas do mundo fazendo campanha para disputar as 249 cadeiras da Câmara Baixa. Ao longo do caminho para as eleições de 18 de setembro, muitos dos candidatos - a maioria mulheres - provavelmente abandonarão a disputa, pois estão suscetíveis a ser violentamente atacados e mortos.

Candace Rondeaux International Crisis Group, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2010 | 00h00

Quase todos os candidatos se perguntarão se o risco valeu a pena. Se forem usados como referência a fraude em massa e a onda de violência sem precedentes durante as eleições presidenciais e provinciais do ano passado, a resposta é não. Outro fracasso da comunidade internacional para enfrentar as deficiências do sistema eleitoral significará um golpe mortal nas frágeis instituições do Afeganistão e reduzirá substancialmente a possibilidade de se obter qualquer tipo de progresso.

A menos de um mês das eleições e com a segurança no país ao nível mais baixo de todos os tempos, é hora de admitir que a política de oportunismo que permitiu que o presidente Hamid Karzai pudesse fraudar sua reeleição no ano passado já não é viável. Na ausência de uma reforma eleitoral considerável e uma maior transparência do processo eleitoral, o adiamento das eleições parlamentares é a melhor estratégia.

A segurança deteriorou-se significativamente desde que os eleitores afegãos enfrentaram ameaças de violência para votar em agosto de 2009. O governo está paralisado no meio de uma disputa acirrada entre o presidente e o Parlamento. Apesar da fraude em favor de Karzai, que levou a Comissão de Reclamações Eleitorais (ECC) a invalidar mais de 1 milhão de votos, algumas reformas foram adotadas. O registro de eleitores ainda é altamente falho. Além disso, muitos dos funcionários cúmplices das fraudes permanecem nos cargos. Se não bastasse tudo isso, os processos de investigação para manter conhecidos criminosos fora da disputa fracassaram sob pressão dos poderosos no Afeganistão. Após um jogo político prolongado, apenas 31 candidatos foram excluídos por seus vínculos com grupos armados, deixando muitos senhores da guerra na disputa eleitoral.

Sem uma intervenção internacional decisiva, esse tipo de interferência das altas esferas do palácio presidencial provavelmente se repetirá. E isso significa que a violência continuará se alastrando pelo país e apenas os candidatos preparados para intimidar ou subornar terão chances de ser eleitos.

Se a ECC não consegue articular seu plano para enfrentar a fraude, é bem provável que a votação de setembro resulte em um desastre. Por um lado, a recente decisão da Comissão Eleitoral Independente (IEC) de fechar 900 centros de votação é um sinal animador de que as autoridades afegãs e da coalizão estão tomando a segurança no sistema eleitoral muito mais a sério desta vez. Mas, ao mesmo tempo, é um indício desalentador da privação em massa do direito ao voto caso a segurança se deteriore mais e outras seções eleitorais sejam forçadas a fechar no último minuto.

Pesquisas indicam que a maioria da população está de acordo com esse processo. Ter alguma escolha na forma como são governados e quem os governa é melhor do que não ter opção. Eles também reconhecem que os membros do Parlamento são mais vitais para a preservação de seus interesses que o presidente ou os politicamente inócuos conselhos provinciais. Se a comunidade internacional não está preparada para garantir que as eleições não sejam manipuladas, a votação deve ser adiada até que as reformas necessárias possam ser estabelecidas. Caso contrário, os riscos de todo o processo permitirão mais uma vitória fácil para os insurgentes no Afeganistão.

É ANALISTA SÊNIOR

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