Risco de saque ameaça obras de arte do país

Com as portas escancaradas, obras de arte de museus da Líbia estão à mercê de saqueadores

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2011 | 00h00

Obras de arte que vão do Neolítico à Idade Moderna e são parte do patrimônio cultural mundial estão à mercê de saqueadores em Trípoli. A constatação foi feita pela reportagem do "Estado", que entrou sem dificuldade no Museu de Trípoli após rastejar por uma grade que isola o prédio, no centro da capital.

Sem vigilância, basta empurrar uma das portas principais para ter acesso a obras de arte que fazem parte da história da humanidade. As peças estão no interior de um dos prédios do antigo Palácio Real de Trípoli. Entre os apreciadores de arte, o museu é conhecido como um dos mais importantes do país, apesar de suas dimensões reduzidas.

Algumas delas reconstituem a história da Líbia e de sua relação com Roma - mais do que terem sido parte do Império Romano, os líbios chegaram a fazer um imperador, Flavius Libius Severus Serpentius, que governou o Império Romano do Ocidente entre 461 e 465. Dessa época, há estátuas e mosaicos retirados de Leptis Magna, Oea (hoje Trípoli) e Sabratha.

No interior do prédio, a reportagem verificou que o museu foi usado até recentemente como acampamento militar. Há pares de coturnos em diversas galerias e colchões no chão em salas administrativas. Além disso, o ar-condicionado central e a eletricidade seguiam em funcionamento, sinal de que um gerador de energia continua intacto, já que a capital está sem luz.

Outro que também corre perigo é o Museu de Jamahiriya, organizado com o apoio da Unesco. A instituição abriga tesouros da Idade Antiga, quando a Líbia concorria pela hegemonia da região com o Egito. Um dos mais impressionantes objetos expostos é o Mausoléu de Ghirza, além de peças preciosas do Império de Garamantian, que ajudam a explicar a história e a cultura dos povos que hoje formam a Líbia.

Há também objetos de arte de fenícios e cartagineses, da transição da era cristã do Império Bizantino para a islâmica, além de um andar dedicado à cultura islâmica. No terceiro piso, há artefatos de diferentes povos contemporâneos da Líbia. Já o quarto destoa do restante: é um tributo a Muamar Kadafi.

Até agora, nenhuma autoridade do Conselho Nacional Transitório (CNT) foi designada para administrar o patrimônio histórico. A preocupação maior em Trípoli é com as ruínas das cidades de Sabratha e Leptis Magna, que constituem a parte mais importante do legado da era romana no país.

Em Trípoli, o patrimônio arquitetônico histórico não teria sido atingido pelos bombardeios da Otan, que, desde março, atingem a capital da Líbia.

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