Risco no Everest é desigual

Sherpas nepaleses estão muito mais expostos a perigos do que alpinistas ocidentais

Freddie Wilkinson*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2014 | 02h05

Numa tarde luminosa de junho de 1922, o pioneiro na escalada do Monte Everest, George Mallory, liderava um grupo de 17 homens presos um ao outro em três equipes e em cordas separadas. Ele rumava com os alpinistas para a face norte da montanha quando ouviu um som ameaçador. Ao se virar, viu uma avalanche fraturando a encosta íngreme acima deles. Mallory e seus companheiros de corda foram poupados pela força do deslizamento, mas as duas equipes que os seguiam - formadas por 14 carregadores de Darjeeling, na Índia - foram carregadas montanha abaixo. Sete morreram. O Monte Everest reclamava suas primeiras vítimas conhecidas.

Um dos companheiros de Mallory, Howard Somervell, escreveria mais tarde: "Naquele momento, eu preferiria estar ali morto na neve, nem que fosse apenas para dar aos bons companheiros que sobreviveram a sensação de que partilhávamos da sua perda".

Na sexta-feira de manhã, por volta das 6h30, outra avalanche desceu pelo Everest. Apanhou um grupo de 25 alpinistas a 5.800 metros perto do topo da notória cascata de gelo Khumbu, uma assustadora mistura de seracs (blocos de gelo pontiagudos de uma geleira) e fendas, matando pelo menos 13 pessoas - o pior incidente do gênero já registrado na história da montanha.

Apesar de grupos comercialmente organizados constituírem a maioria esmagadora das expedições ao Everest hoje, nenhum cliente ou guia internacional foi apanhado na avalanche. Os mortos eram nepaleses. Eles estavam carregando suprimentos para auxiliar os clientes de seu empregador, que pagam às fornecedoras comerciais dezenas de milhares de dólares para chegar ao topo da montanha mais alta do mundo.

Hoje em dia, como nos tempos de Mallory, são esses sherpas escaladores profissionais que arcam com uma quantidade desproporcional do risco da escalada do Himalaia. Aliás, as probabilidades podem ser piores para eles do que eram nos tempos das grandes expedições britânicas.

Mallory ficou torturado pela culpa com a tragédia de 1922 e decidiu que jamais permitiria que uma equipe de carregadores escalasse sem um montanhista britânico compartilhando a mesma corda. Eric Shipton, outro lendário alpinista britânico que em 1951 desbravou a rota pela cascata de gelo, considerava eticamente questionável pedir aos sherpas que se aventurassem na cascata de gelo para ajudar ocidentais a alcançar o cume.

Como observou o alpinista americano Ed Viesturs em seu livro The Mountain: My Time on Everest: "A cascata de gelo provou ser, nos últimos 60 anos, tão perigosa quanto Shipton temia". Viesturs, que alcançou o cume do Everest sete vezes, observou que "um número excessivo de montanhistas havia encontrado a morte caindo em fendas ou sendo esmagado pelo desmoronamento de torres de gelo ou avalanches na cascata de gelo Khumbu. E uma proporção excessiva dessas mortes recaiu sobre os sherpas, simplesmente porque muitos deles fazem mais viagens pela cascata do que a maioria de seus empregadores ocidentais".

Ao contrário da liderança solidária de Mallory e Shipton, os modernos agenciadores de escalada do Everest tomam todas as medidas para limitar a exposição de seus clientes à cascata. Em vez de deixar os clientes se aclimatar dormindo nos acampamentos em menor altitude no Everest, a estratégia aceita uma geração atrás, eles os fazem passar a maior parte do mês de abril galgando os cumes de montanhas satélites, considerados mais seguros.

Enquanto isso, a força de trabalho de escalada sherpa já está posicionada no Everest - estocando suprimentos e preparando a rota antes das fugazes janelas climáticas do cume em maio. Um dos trabalhos mais perigosos é prender as cordas e fixar escadas na cascata de gelo.

A maioria dos sherpas trabalha numa escala de dias alternados e pode fazer uma dezena ou mais de percursos de ida e volta pela cascata durante uma temporada de dez semanas. A maioria dos clientes passa por ela duas ou três vezes, no máximo.

A matemática não funciona a favor dos sherpas. Por esse risco, um sherpa escalador típico costuma levar para casa, aproximadamente, de US$ 3 mil a US$ 6 mil no fim da temporada - talvez mais, caso suas habilidades na língua inglesa sejam boas ou se ele subir com um cliente abonado, segundo um artigo publicado no ano passado na revista Outside pelo jornalista Grayson Schaffer. Se a temporada foi ruim, eles ou suas famílias poderão recorrer às apólices de seguro obrigatório de vida ou de acidente - cujo valor foi aumentado recentemente de US$ 4,6 mil para US$ 11 mil, relatou Schaffer.

Pouca coisa pode ser feita para atenuar os perigos da cascata de gelo Khumbu. Não há sinais tampouco de que as forças do mercado que movem a indústria de escalada comercial mudem ou que o governo nepalês institua uma legislação eficiente. É de se esperar, porém, que a tragédia da semana passada provoque uma mudança significativa na política trabalhista no Everest.

"Ouvimos com frequência nossos amigos agenciadores ocidentais reconhecer que os habilidosos escaladores sherpas merecem mais", escreveu Summit Joshi, um sherpa escalador e sócio de um serviço de guia de propriedade nepalesa. "Mas o que eles estão realmente dispostos a dar mais? Mais dinheiro? Mais benefícios? Mais fama?" A realidade é que essa mudança precisa começar entre os próprios sherpas.

Os sherpas poderiam se inspirar nos gurkhas, os famosos soldados nepaleses que servem no Exército britânico. Durante a última década, os gurkhas se organizaram solidamente e travaram batalhas legais amplamente divulgadas sobre direitos de pensão e outras questões. Um esforço desses (ontem, os sherpas ameaçavam fazer uma greve) demandaria anos - décadas, talvez - para aumentar a remuneração e os benefícios de sherpas escaladores para compensar os riscos que eles enfrentam no seu trabalho. Mas não há maneira melhor de honrar as vidas dos que pereceram.

*Freddie Wilkinson é alpinista, guia e autor de 'One Mountain Thousand Summits: the untold story of tragedy and true heroism on k2'.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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