Risco político das doenças

Em geral são as crises, não os problema de longo prazo, que obrigam as pessoas e os governos a agir. A evolução dos desafios globais para a saúde pública, nos dias de hoje, levará indubitavelmente, nos próximos anos, essa tendência a criar graves problemas políticos e econômicos tanto nos países industrializados quanto nos em desenvolvimento. É natural, portanto, que se busquem urgentemente respostas para doenças agudas e contagiosas provocadas por vírus como Ebola e Zika.

IAN BREMMER, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2016 | 04h00

Existem, entretanto, ameaças não transmissíveis de prazo mais longo que produzirão um impacto na vida de um número muito maior de pessoas, abalarão governos e afetarão os mercados – sem receberem destaque na imprensa. Os governos não estão agindo rapidamente ou de maneira eficiente para atender à inevitável modificação das necessidades dos sistema de saúde pública.

Tanto nos países desenvolvidos quanto nos em vias de desenvolvimento, o aumento de doenças crônicas ameaça vidas, famílias e economias inteiras. Um recente relatório da Câmara de Comércio americana apresentado no âmbito de sua Iniciativa Global sobre Saúde e Economia calcula que “o custo em termos de produtividade perdida, em razão de doenças não transmissíveis, é elevado para todos os países estudados (em média, cerca de 6,5% do PIB) e prevê que em quase todos eles esse custo deverá aumentar”. Trata-se de uma estimativa do custo da produtividade dos trabalhadores que se ausentam por motivo de doença, dos que trabalham abaixo de sua capacidade plena e dos que são obrigados a se aposentar mais cedo pelo mesmo motivo.

Os governos e instituições de saúde pública em geral, no entanto, costumam concentrar sua atenção e recursos em doenças agudas, infecciosas, como as provocadas pelo vírus da Zika, que apavoram as populações e são alardeadas pela imprensa, particularmente quando começam a ameaçar países mais ricos. Os problemas crônicos de saúde decorrentes do comportamento, como diabetes, doenças do coração, hipertensão e câncer, provocam um impacto muito mais profundo e duradouro na saúde física e econômica de um país. A ausência de uma crise – e do interesse da mídia – torna tais problemas muito mais difíceis de serem atacados. Nos últimos anos, os enormes cortes de orçamento determinados pela Organização Mundial da Saúde, da ONU, agravaram a situação.

Não surpreende que nos países em desenvolvimento o impacto político e econômico das epidemias de doenças não transmissíveis seja mais grave. À medida que as pessoas saem da pobreza nesses países, sua dieta e estilo de vida se modificam e, enquanto a expectativa de vida da população aumenta, as pessoas passam a apresentar as doenças crônicas do mundo desenvolvido. Enfermidades como diabetes substituem a malária nas preocupações dos governos.

Os custos e os riscos decorrentes das políticas de saúde pública fazem com que essa seja a área mais perigosa em termos políticos para a adoção de mudanças por parte das autoridades. Nesses países, as pessoas gastam mais com dinheiro próprio em tratamento médico do que com qualquer outro item, excetuando-se a alimentação. Calcula-se que os gastos com saúde levem anualmente 150 milhões de pessoas de volta para a pobreza.

Sinal vermelho. É da maior urgência que os governos tomem providências. A construção da infraestrutura para atender à saúde pública leva muito tempo. A construção do moderno sistema universal de saúde da Coreia do Sul, considerado mundialmente um dos mais eficazes e rapidamente implantados em toda a história, levou 12 anos. À medida que os cidadãos saírem da pobreza, a classe média se expandir e as expectativas do público por melhores serviços aumentarem, os governos que ficaram para trás na corrida para a implantação de uma rede de segurança para a saúde enfrentarão graves riscos de instabilidade na próxima década.

Por exemplo, no Brasil, onde já existe uma classe média inquieta, pouco se fez além da importação de médicos cubanos para melhorar a saúde pública, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso no final dos anos 1990. Na Arábia Saudita, as medidas de austeridade destinadas a fazer frente à queda dos preços do petróleo acabarão comprometendo a capacidade do governo de cumprir seu papel tradicional de provedor de importantes serviços.

Por outro lado, a Turquia se revelou uma exceção a essa regra preocupante. O presidente Recep Erdogan e seu partido AKP criaram um programa de saúde inteligentemente projetado e dotado de amplos recursos. O governo da China há muito reconheceu a necessidade urgente de destinar maiores recursos para melhorar a infraestrutura médica e a assistência para um número maior de cidadãos. O governo de Xi Jinping encara a reforma da saúde com muita seriedade, mas em geral o progresso, até o momento, tem se preocupado mais com a redução dos custos do que com ampliar a cobertura do serviço e solucionar o problema do aumento das doenças crônicas.

Há, no entanto, alguns motivos para sermos otimistas. Até mesmo os governos que não investem suficientemente na formação de médicos e na construção de hospitais e clínicas para tratamentos longos estão investindo na melhoria da qualidade do ar, da água, e do saneamento, o que contribuirá para uma grande diferença na saúde pública, ainda que apenas indiretamente. Mas essas mudanças sozinhas não conseguirão atender, em muitos países, à crescente demanda por uma rede social de proteção para a saúde.

Os governos raramente adotam medidas audaciosas enquanto não julgam necessário. Mas a explosão de problemas de saúde em todo o mundo em desenvolvimento é uma tempestade que já vemos aproximar-se no horizonte. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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