Riscos de uma retirada

Como não alegrar-se sempre que uma guerra acaba, principalmente quando se trata de uma sem sentido e mal conduzida? Era natural que Barack Obama falasse de seu regozijo e se congratulasse com os últimos soldados que se preparam para partir da terra do pesadelo americano.

É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2011 | 03h07

Sobre o balanço da guerra tudo já foi dito. Com 4,5 mil soldados mortos, dezenas de milhares de feridos e um número maior ainda dos que regressaram ao país, mas cujos sonhos serão assombrados por muito tempo pelas matanças às quais foram obrigados. E os iraquianos? Quantos morreram? Foram 120 mil, dos quais 100 mil civis.

Outra herança da guerra foram as rupturas no campo ocidental: a França, de Jacques Chirac, recusou-se a participar, enquanto o britânico Tony Blair não hesitou em mergulhar nela, por um efeito de mimetismo americano. E, como consequência, como costuma ocorrer cada vez que o Ocidente intervém em um país, um novo surto de antiamericanismo, de sentimentos antieuropeus.

Mas e o futuro? O Iraque terá direito a uma trégua? Seu novo Exército manterá a ordem quando os americanos se retirarem? Os atentados não cessaram: no início do mês, 80 pessoas morreram em uma semana, principalmente na Província de Dyala. O ódio entre xiitas e sunitas continua um dos maiores perigos para o novo Iraque, principalmente porque o vizinho Irã, que é xiita, não parou de alimentar os delírios e as forças do xiismo iraquiano.

Não nos esqueçamos de que, ao mesmo tempo, a Al-Qaeda, que entrou no Iraque após a deflagração da guerra, ainda atua no país. O quadro é tão inquietante que Washington e Bagdá planejavam deixar no terreno, após a retirada, alguns milhares de instrutores americanos para formar soldados iraquianos.

As negociações fracassaram por causa da situação legal dos militares. Os EUA queriam que eles tivessem imunidade judicial total. O premiê Nuri al-Maliki rejeitou. Por isso, o general americano John Allen pediu à Otan que deixasse no país, a partir de 2015, algumas centenas "de oficiais e suboficiais" para dirigir uma "escola de guerra" local.

Outro perigo são as minorias, principalmente os curdos. A região autônoma do Curdistão é considerada um dos principais riscos para a estabilidade do novo Iraque. Mas, se os americanos esperam que os nove anos de guerra os tornem populares e amados pelos iraquianos, estão enganados.

Um diplomata ocidental de alto escalão deu o seguinte veredicto ao jornal Le Figaro: "As duas partes tentaram sair de cabeça erguida: os EUA não querem aceitar a derrota, enquanto o Iraque tenta mascarar a influência iraniana. No fundo, todos sabem o futuro do país."

Os americanos pretendem continuar de olho nos desdobramentos do conflito. Bagdá terá uma das mais poderosas embaixadas americanas do mundo, que ocupa uma área maior que a do Vaticano. Vários milhares de diplomatas, rodeados por militares, continuarão zelando pela saúde do Iraque. Assim como alguns mercenários, nem é preciso dizer.

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