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Rivais aplaudem gafes de Trump

Comentários racistas do pré-candidato devem afetar o Partido Republicano se ele não condenar as declarações de magnata

PHILIP, RUCKER, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2015 | 02h02

Para os democratas, Donald Trump se equipara a uma intervenção divina. Com o Partido Republicano numa missão urgente de atrair eleitores latinos, um de seus principais pré-candidatos há duas semanas está envolvido numa contenda desagradável a respeito de seus comentários inflamados sobre os imigrantes mexicanos.

"Eles estão trazendo drogas", disse Trump no discurso de lançamento da sua campanha. "Estão trazendo o crime. São estupradores".

Estes comentários, e muitos outros desde então, provocaram irritação entre os grupos latinos e uma série de rupturas entre Trump e parceiros corporativos. Sua retórica e habilidades bizarras para chamar a atenção também são muito prejudiciais para a marca republicana, que está em fase de reabilitação após perder a disputa presidencial em 2012.

A rede de TV Univisión anunciou que não transmitirá os concursos Miss Universo e Miss Estados Unidos. Trump está cobrando judicialmente US$ 500 milhões da rede. A NBC Universal cortou todos os vínculos com ele esta semana, incluindo seu reality show O Aprendiz. Trump qualificou a NBC de "fraca e estúpida".

Na quarta-feira a loja de departamentos Macy's também o abandonou, anunciando que não mais venderá sua linha de roupas masculinas. Trump disse que a loja "se rendeu inteiramente".

Apesar dessa situação grotesca - ou talvez em razão dela -, o magnata do setor imobiliário com uma enorme conta bancária e um ego ainda maior disparou para o segundo lugar nas recentes pesquisas nacionais e nos Estados de Iowa e New Hampshire, que inauguram as primárias.

Mas Hillary Clinton e outros democratas estão ávidos para transformar Trump no rosto do Partido Republicano que atualmente está sem liderança, com diversos pré-candidatos e nenhum favorito claro.

"Sou uma pessoa de fé, e a entrada de Trump nesta disputa só pode ser atribuída ao fato de que o bom Deus é um democrata com senso de humor", disse Paul Begala, veterano estrategista democrata e assessor do Priorities USA Action, super comitê de arrecadação em apoio à candidatura de Hillary.

Em Iowa, o incorporador de Nova York está em segundo lugar, atrás do governador de Wisconsin, Scott Walker, com 10%. Em New Hampshire, pesquisa realizada na semana passada colocava Trump em segundo lugar, atrás do ex-governador da Flórida Jeb Bush, com 11%. Ele também figura em segundo lugar, atrás de Jeb Bush na pesquisa nacional da CNN/ORC divulgada na quarta-feira.

Trump, que afirma valer US$ 9 bilhões, até agora tem adotado uma posição populista na campanha, clamando contra o impacto dos imigrantes ilegais, particularmente do México, sobre a economia dos EUA, e prometendo "erguer um grande muro na fronteira no sul" para mantê-los afastados. Essa mensagem, juntamente com promessas de limitar as importações chinesas e adotar outras medidas protecionistas, repercutem bem no caso de um eleitorado branco e operário, irritado com a lenta recuperação econômica e desconfiado da elite em Washington.

Trump também tem se destacado por comentários relacionando os imigrantes ao crime. "Gosto do México. Adoro o povo mexicano. Mantenho negócios com mexicanos, mas há pessoas que atravessam a fronteira e são más", disse ele à CNN. "As pessoas estão entrando, e não me refiro somente a mexicanos. Estou me referindo àqueles que vêm de todas as partes e são assassinos e estupradores."

Quem lidera o esforço democrata de vincular o Partido Republicano a Trump é Hillary, que tem mencionado os comentários feitos por ele em suas viagens de campanha, sem citar seu nome. "Recentemente, um pré-candidato republicano à presidência qualificou os imigrantes como traficantes de drogas, estupradores e criminosos", disse num comício em Virgínia. "Talvez ele nunca tenha encontrado com eles. E nunca parou para perguntar às milhões de pessoas que amam este país, trabalham duro e querem apenas uma chance de construir uma vida melhor para elas e seus filhos, como é a vida delas aqui."

Para Reince Priebus, presidente do Comitê Nacional Republicano, os comentários de Trump "não contribuem" para os esforços do partido de chegar aos diversos eleitores. "Mas não vamos decidir e escolher quem deve disputar e quem não deve."

Embora muitas pessoas no início tenham hesitado em comentar sobre o assunto, um número crescente de prováveis ou declarados candidatos republicanos condenaram os comentários de Trump. "Acho que foram totalmente inadequados" disse Chris Christie, governador de New Jersey. Para o senador Ted Cruz, do Texas, pré-candidato presidencial favorito do Tea Party, Trump foi "genial" e não deve se desculpar, pois "fala a verdade". Steve King, deputado por Iowa, que tem um papel importante no caucus de Iowa, disse que aprecia a "belicosidade" de Trump. "Ele é um dos poucos indivíduos que fala corajosamente sobre as coisas em que acredita e é criticado pela polícia do politicamente correto, mas em vez de recuar e se curvar, segue em frente", afirmou King.

Hillary censurou o Partido Republicano por não condenar Trump abertamente. "Precisamos contestar os insultos, os ataques pessoais. Há muita coisa para debater sem precisar chegar a esse ponto."

Paul Begala ajudou a escrever o discurso de Bill Clinton durante sua campanha presidencial de 1992, quando ele repudiou comentários controvertidos sobre raça feitos por um artista hip-hop. "Sei como pode ser poderoso realçar problemas na nossa equipe", disse Begala. Mas no caso de Trump, disse ele, os republicanos "não sabem o que fazer a respeito. A verdade é muito simples. O que eles dizem para amigos em particular é o que devem dizer ao país em público, ou seja, 'que este indivíduo passou dos limites'".

Para David Axelrod, ex-coordenador de campanha de Barack Obama, os candidatos republicanos precisam criar "uma estratégia Trump"."Você ouviu seus comentários iniciais, muitos criaram desconforto entre os republicanos", disse. "Todos os candidatos republicanos agora têm de calcular como lidar com ele, particularmente nos debates. Se Trump afirmar alguma coisa ultrajante e ninguém o contestar, isso não será bom para eles, nem para o Partido Republicano."

A perspectiva de algo do tipo traz à lembrança os debates durante as primárias republicanas em 2012 que acabaram se tornando um obstáculo para Mitt Romney. Em um deles, quando a plateia vaiou um soldado gay, nem Romney ou qualquer outro candidato foram em sua defesa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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