Jim Watson/AFP
Jim Watson/AFP

Rivais democratas estão brigando por Obama. E ele tem algumas opiniões

Ex-presidente, afirmam aliados, deixou claro que seu papel é unificar o partido depois da escolha das primárias

Glenn Thrush, The New York Times

29 de fevereiro de 2020 | 05h00

WASHINGTON – Faz tempo que Barack Obama não põe os pés na Carolina do Sul, mas ele se tornou objeto de discórdia entre os candidatos democratas que disputam os eleitores negros do estado nas primárias de sábado e nas grandes votações da Superterça da próxima semana.

Em declarações e anúncios de campanha nos últimos dias, o ex-vice-presidente Joe Biden acusou o senador Bernie Sanders de deslealdade contra o primeiro presidente negro do país, por ter pensado em disputar as primárias contra Obama em 2012. Sanders insiste que não pensou nisso.

O ex-prefeito Michael Bloomberg até agora gastou cerca de US $ 22,4 milhões em dois anúncios de televisão com várias fotos dele com Obama, algo que Biden tentou minar questionando se os dois são de fato tão próximos.

Outros candidatos elogiaram Obama nas transmissões de rádio e nos debates, bem como nos estados que tiveram votação pelas primárias este mês, uma reviravolta acentuada em relação às críticas que alguns candidatos lançaram no ano passado, especialmente no que diz respeito à imigração. A nova abordagem dá uma medida da popularidade de Obama entre os eleitores negros 12 anos depois de sua última disputa na Carolina do Sul, onde derrotou Hillary Clinton em um triunfo que cimentou, de uma vez por todas, sua posição junto aos eleitores negros de todo o país.

Obama tentou não avaliar como os atuais candidatos estão usando seu nome, imagem ou histórico e cuidadosamente evitou falar em favoritos. Ele tem opiniões sobre a corrida presidencial, afirmam vários de seus aliados, mas deixou claro que seu papel é unificar o partido depois da escolha das primárias e ajudar a aliviar as tensões entre os partidários em guerra.

Quando a campanha de Sanders ganhou força nas últimas semanas, Obama disse que apoiaria com entusiasmo qualquer um dos candidatos. Mas acrescentou que a tarefa de unir o partido em torno de Sanders “pode ser difícil”, segundo um assessor que falou sob condição de anonimato, relatando uma conversa privada.

Obama não impôs restrições aos candidatos democratas que quiseram abraçá-lo pensando nos ganhos políticos, independentemente de sua história ou orientação ideológica. Cinco candidatos democratas – Bloomberg, Sanders, Biden, Tom Steyer e a senadora Elizabeth Warren – aproveitaram a oportunidade, usando as palavras de Obama em suas propagandas. E quase todos o invocaram nos materiais de campanha.

“Acho que seria uma má prática política para qualquer um dos candidatos não se aproximar da pessoa mais popular do Partido Democrata”, disse Valerie Jarrett, uma das melhores amigas e conselheiras de Obama. “A (vitória na) Carolina do Sul foi um dos maiores e mais importantes dias da nossa campanha. As pessoas sempre se lembrarão dessa data”.

Não são apenas os democratas que citam Obama. No início desta semana, uma campanha de arrecadação de fundos pró-Trump exibiu um anúncio de TV enganoso, que manipulara trechos de um audiolivro de Obama de 1995 para dar a impressão de que o ex-presidente estava acusando Biden de trair os eleitores negros. Na quarta-feira, o advogado de Obama enviou uma carta de cessação ao diretor executivo do grupo, depois que a campanha de Biden o alertou sobre o problema.

Obama, que ofereceu conselhos estratégicos à equipe de Biden antes de este entrar na corrida no ano passado, fala mais frequentemente com seu ex-vice-presidente do que com outros candidatos. Ele ligou para consolar Biden depois de sua derrota humilhante nas primárias de Iowa, segundo uma pessoa informada sobre o telefonema. Os dois também se falaram na terça-feira, antes do debate na Carolina do Sul.

Na Carolina do Sul, Biden intensificou sua estratégia Joe-curte-Barack, tentando usar a popularidade do ex-presidente como arma para punir Sanders e Bloomberg por fazerem Obama suar a camisa por seu apoio em 2012.

Em uma gravação de áudio de um discurso de 2016 recentemente 'desenterrada', Bloomberg alegou ter dado a Obama um apoio “indireto”. Sanders, político independente de Vermont que entrava em conflito com o governo em relação à assistência médica e outras questões, em um programa de rádio de 2011 se referiu a Obama como uma “decepção” e, de acordo com um artigo recente da revista The Atlantic, até flertou com a possibilidade de desafiá-lo nas primárias, antes de ser dissuadido por seu amigo Harry Reid, ex-líder democrata no Senado.

Um conselheiro de Biden, falando sob condição de anonimato, disse que a visão da campanha era a de que os ataques a Sanders teriam menos probabilidade de causar impacto do que as críticas da campanha a Bloomberg, que não está na votação da Carolina do Sul. Sanders, disse essa pessoa, já garantiu muitos de seus apoiadores, mas Bloomberg, um ex-republicano que pode tomar para si o apoio moderado dos estados da Super Terça-Feira, é mais vulnerável a acusações de deslealdade.

Sanders disse repetidas vezes que vê Obama como um “ícone” histórico com quem teve discordâncias políticas. E insiste que nunca planejou desafiá-lo nas primárias.

Mas assessores que trabalharam na campanha de reeleição de Obama disseram acreditar que, na época, a ameaça foi real e alimentou o medo de que esse desafio pudesse minar o necessário apoio da ala progressista do partido.

“Ele deve ser responsabilizado”, disse Patrick Dillon, conselheiro da campanha de Obama em 2012, a respeito de Sanders. “Claro que ele estava tramando alguma coisa”.

Embora não sejam próximos, Sanders e Obama têm uma relação amigável, e o senador telefonou para o ex-presidente nas últimas semanas para atualizá-lo sobre sua campanha e manter suas linhas de comunicação abertas, segundo assessores de ambos.

Obama, por sua vez, expressou admiração pela tenacidade e perspicácia política de Sanders e pela operação de arrecadação de fundos de pequenos doadores. Mas também reconheceu a magnitude do desafio de fazer com que outros democratas se alinhem rapidamente atrás de Sanders, caso ele vença, disse uma pessoa próxima ao ex-presidente.

Obama e Bloomberg também têm uma história complicada, mas seu relacionamento é temperado por colaborações anteriores. As equipes de Bloomberg e Obama trabalharam de perto em uma série de iniciativas quando ambos estavam no cargo – especialmente no controle de armas e nas mudanças climáticas.

Os dois conversaram brevemente depois que Bloomberg anunciou que estava concorrendo à presidência, em novembro, e Obama questionou cautelosamente sua entrada tardia na corrida, disse uma pessoa com conhecimento sobre a conversa.

O ex-prefeito tinha uma linha de comunicação direta com Jarrett, que trabalhou como articuladora intergovernamental de Obama na Casa Branca. Esse canal permaneceu aberto, e a equipe da Bloomberg tomou medidas para mitigar quaisquer transtornos que suas ações e declarações recentes possam trazer para o relacionamento.

Kevin Sheekey, gerente de campanha de Bloomberg, procurou membros da equipe de Obama, especialmente Jarrett, para explicar a mudança de opinião do ex-prefeito sobre a criticada estratégia de policiamento da cidade e seu uso de acordos de confidencialidade em sua  empresa de mídia. /Tradução de Renato Prelorentzou.

 

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