Cezaro de Luca/AP
Cezaro de Luca/AP

Rivais na oposição argentina acertam trégua para pressionar em caso Nisman

Os principais candidatos da oposição na campanha para tirar o kirchnerismo do poder em outubro assinaram uma carta publicada ontem nos principais jornais da Argentina. Em cinco itens, pediram o esclarecimento da morte do promotor Alberto Nisman e do atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), em 1994. Também exigiram proteção da atual equipe do Ministério Público e um sucessor "imparcial" para Nisman.

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2015 | 02h03

Trata-se do primeiro movimento sincronizado de opositores para pressionar por avanços no caso que acuou o governo. Nisman foi encontrado com um tiro na cabeça no dia 18, em seu apartamento, quatro dias depois de acusar a presidente Cristina Kirchner de proteger altos dirigentes iranianos indiciados pela Justiça por praticar o ato terrorista. No dia seguinte, ele esclareceria as acusações no Congresso.

Há uma percepção entre analistas de que nenhum opositor se beneficiou da debilidade do governo. Segundo a consultoria Management & Fit, 45% da população considerou regular a reação dos políticos anti-kirchneristas. "A carta faz certamente parte de uma estratégia da oposição. Qualquer declaração dada de forma individual por um dos candidatos pareceria oportunista. Ganha uma eleição o que menos erra", disse ao Estado Mariel Fornoni, diretora da consultoria. Após a morte de Nisman, o instituto Poliarquía detectou queda moderada de 5 pontos na aprovação à presidente, de 40% em dezembro, considerada alta.

Entre os principais presidenciáveis que assinaram o documento estão o conservador Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, e Sergio Massa, ex-kirchnerista que aparece na frente da última pesquisa do instituto Carlos Fara (com 28%, ante 20% de Macri). O levantamento tem peso relativo porque Cristina ainda não indicou seu favorito, potencialmente o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli (que tem 18% na pesquisa). Outros nomes que devem decidir se concorrem e assinaram o manifesto são Hermes Binner, José Manuel De la Sota e Ernesto Sanz.

A publicação marca o começo de 10 dias de pressão que deve culminar no dia 18 com uma marcha silenciosa. O ato, inicialmente convocado por colegas de Nisman, tende a reunir uma multidão em Buenos Aires. "Não queremos mais promotores militantes, queremos que sejam livres para investigar sem medo. Por isso, sem identificação partidária ou ideológica, sairemos em silêncio para que não haja mais impunidade. E tomara que os políticos não fiquem na primeira fila, mas sim no final, entre a população", disse ao Estado Sergio Massa. "A Argentina precisa de um grande acordo de todos os partidos."

A deputada Elisa Carrió, que abandonou uma coalizão de centro-esquerda para se aliar a Macri, afirmou ao jornal Clarín que os manifestantes poderão ir ao ato com tranquilidade. "Se nos tocarem, cai o governo", ameaçou. A resposta mais dura veio do setor kirchnerista do Judiciário conhecido como Justiça Legítima. "As pessoas que comparecerem à marcha serão usadas", disse a juíza María Laura Garrigós de Rébori, presidente do grupo, à rádio América.

Exigências. No documento publicado ontem e intitulado Direito à Verdade, firmado por representantes de dezenas de associações civis lideradas pela Amia, além de ONGs e empresários, há cobrança sobre várias instituições. Ao Legislativo, o grupo solicita que se chamem colaboradores de Nisman para detalhar o teor das denúncias. Ao Judiciário, pede que controle o rumo da investigação e proteja os promotores e os documentos. E ao Ministério Público, exige que mantenha a equipe atual de investigadores.

Opositores acusam o governo de controlar, por meio da procuradora-geral, Alejandra Gils Carbó, o rumo da apuração a cargo da promotora Viviana Fein e de tentar desviar as atenções, ao ligar a morte ao serviço secreto, de modo mais direto ao espião recém-aposentado Horacio "Jaime" Stiuso. Ele trabalhou com Nisman no caso Amia a partir de 2004 e deve depor esta semana, de forma sigilosa.

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