Beatriz Bulla/Estadão
Pré-candidatos democratas à presidência americana concentram forças em Iowa; Joe Biden, um dos favoritos, conta com a ajuda da mulher Jill (centro) na campanha Beatriz Bulla/Estadão

Rival de Trump nas eleições começa a ser definido em Iowa, nos EUA

Estado produtor de grãos tem 1% da população, mas é chave em eleição americana

Beatriz Bulla, enviada especial a Des Moines, Iowa

02 de fevereiro de 2020 | 05h00

Vinte oito pessoas e um golden retriever se espremiam em cadeiras improvisadas e um sofá de dois lugares no comitê de campanha de Joe Biden em Iowa City na quinta-feira. Entre alguns apoiadores e muitos indecisos, eleitores da região buscavam ouvir de Jill Biden, mulher do ex-vice-presidente, por que ela considera seu marido o melhor nome democrata para disputar a eleição presidencial de 2020. 

A resposta da candidata a primeira-dama apareceu nos primeiros minutos de discurso: “Joe é o único que bate Trump nas pesquisas eleitorais nos Estados pêndulo”. “Quando estiverem cansados, andando no frio para fazer campanha, pensem no que sentiram no dia depois da eleição de Trump em 2016 para continuar a caminhar”, emendou. O Estado é considerado pêndulo, pois oscila entre democratas e republicanos no voto presidencial. 

A largada da campanha eleitoral dos EUA, com as primeiras prévias marcadas para amanhã, deveria ser sobre os democratas, que começam a definir o nome que irá concorrer à Casa Branca. Mas a disputa interna da oposição é sobre Trump. “Eu quero alguém que bata Trump, isso é o mais importante agora. Biden, Warren e Bernie têm o apoio público, apoiam coisas similares. O que precisamos é tirar o presidente”, diz Maggie Martin, eleitora democrata em West Des Moines. “Meu candidato é o Pete Buttigieg, mas quero qualquer um que possa vencer Donald Trump nesse momento”, também diz Courtney Lighfoot. O processo de impeachment contra Trump, aprovado pela Câmara, de maioria democrata, chega a sua etapa final nesta semana. A previsão é de que o Senado rejeite a acusação contra o presidente nesta quarta-feira. 

Desde o final da década de 70, a escolha de quem serão os candidatos a presidente nos EUA saiu do controle dos líderes partidários e passou a ser feita pela população. Iowa, onde vive só 1% dos americanos, é o primeiro Estado a indicar sua preferência. Quem larga bem é beneficiado por um efeito cascata em outras prévias. 

O peso do Estado na política nacional é considerado desproporcional, se analisados o tamanho da população local, a falta de representação de minorias e apenas seis votos no Colégio Eleitoral. Nos EUA, o sistema de voto é indireto e o Colégio Eleitoral é decisivo. Os eleitores escolhem os delegados do colegiado que, por sua vez, define o presidente. O número de eleitores de cada Estado é definido pela população e representação na Câmara. O Estado com maior número de delegados é a Califórnia, tendo 55 de 538 cadeiras. São necessários 270 votos para ser eleito à Casa Branca. Na maioria dos Estados, o candidato que tem o maior número de votos dos cidadãos leva todos os votos dos delegados daquele estado. Em 2016, Hillary Clinton ganhou de Trump no voto popular mas perdeu o voto do Colégio Eleitoral.

Iowa ainda tem a seu favor o fato de concentrar parte relevante da produção de grãos americana – soja e milho – e portanto atrair as atenções de qualquer presidente. Iowa e Illinois são os principais produtores de milho dos EUA, respondendo normalmente por um terço da safra do país. O milho é usado para produção de etanol, ração animal e exportação. “Iowa é um filtro. Os eleitores do Estado e os candidatos levam esse processo lá muito a sério”, diz John Zogby, estatístico americano dedicado às pesquisas eleitorais. 

Depois de votar em Bush em 2004, os moradores de Iowa ajudaram a eleger e reeleger Obama, mas em 2016 ajudaram Trump a chegar à Casa Branca. Se a eleição presidencial fosse hoje e se resumisse a Iowa, Trump ganharia de todos os candidatos, com as margens mais apertadas nas disputas contra Biden e Buttigieg (2 pontos e 1 ponto porcentual de diferença do republicano, respectivamente). Os dois são tidos como os mais moderados na oposição e atraem o voto do Estado rural e predominantemente branco. Em 2016, Trump recebeu 51,2% dos votos e Hillary, 41,7%. 

Moradores de Des Moines são orgulhosos pelo fato de o voto no Estado variar. “Eu quero o melhor para o país, não necessariamente votar só em um republicano ou só em um democrata”, afirmou Todd Christi, motorista de Uber. “Desde quando o Obama foi eleito virou isso ‘do meu jeito ou então nada’. Eles não aceitaram ter um negro como presidente”, disse Gregory Allen, nascido na Pensilvânia e morador de Des Moines. Allen foi a primeira pessoa negra que a reportagem viu depois de dois dias percorrendo quatro cidades do Estado. Pouco mais de 3 milhões de habitantes moram em Iowa, sendo 91% brancos. 

Em um cenário disperso na oposição, eleitores justificam a escolha com base na chance de cada um dos candidatos se viabilizar e atrair votos suficientes contra Trump. Os favoritos são Joe Biden e o senador Bernie Sanders, com 27% de intenções de voto dos eleitores cada. O ex-prefeito de South Bend, Indiana, Pete Buttigieg e a senadora Elizabeth Warren aparecem com 18% e 16%, respectivamente. Os dados são do agregador de pesquisas eleitorais FiveThirtyEight. 

Os partidos fazem primárias e caucuses nos Estados para definir os delegados que representarão cada região na convenção nacional da legenda. Esses delegados não se confundem com os do Colégio Eleitoral. O nome que obtiver a maioria simples dos votos dos delegados do partido é nomeado candidato. O bilionário Michael Bloomberg não participa das primárias em Iowa. Bernie e Warren são considerados o polo mais à esquerda entre os candidatos, enquanto Biden e Buttigieg são apontados como centristas. 

Resposta de Trump

Os termômetros marcavam -2ºC em Des Moines, na noite de quinta-feira, e a divisão política ficou fisicamente visível nas ruas. Trump quis marcar presença em um comício na capital de Iowa. “Eu não vou perder esse Estado”, disse, sob aplausos. Na praça em frente, manifestantes contra Trump gritavam palavras de ordem olhando para a massa de bonés “Trump 2020”. Os anti-Trump eram eleitores de Warren, Bernie, Biden, Pete, com broches de campanhas e cartazes variados. A coesão no grupo, disperso até nos gritos de guerra, era em torno da crítica ao presidente. Do outro lado, eleitores do presidente revidavam em uníssono pedindo “four more years” (mais quatro anos). 

A divisão – dentro e fora do partido democrata – sobre como enfrentar Trump deixou sequelas para parte dos candidatos. Na sexta-feira à noite, Bernie Sanders lotou um ginásio com eleitores, mas teve de participar via telefone pois não conseguiu viajar de Washington, onde estava na votação do impeachment de Trump, a Des Moines a tempo de seu próprio comício. 

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Perfil: Joe Biden não quer, nem propõe uma revolução, mas ainda pode vencer

Como foram definidas suas últimas campanhas, Biden se apresenta como uma alternativa; nem um socialista, nem um Trump.

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2020 | 21h13

ASHINGTON - O ex-vice-presidente dos Estados Unidos Joe Biden entrou em abril na disputa pela candidatura democrata para a Casa Branca como um favorito instantâneo, deixando para trás os outros candidatos e aumentando a pressão para aqueles com desempenho mais modesto.

Biden, de 77 anos e senador de longa data que serviu por dois mandatos como vice do presidente Barack Obama, anunciou sua candidatura em um vídeo no qual exaltou a determinação em derrotar o atual presidente, o republicano Donald Trump.

“Estamos numa batalha pela alma desta nação”, disse Biden. “Eu acredito que a história vai olhar para trás, sobre os quatro anos desse presidente e tudo que ele representa, como sendo um período bizarro. Mas se dermos a Donald Trump oito anos na Casa Branca, ele vai para sempre e essencialmente alterar o caráter desta nação, quem nós somos, e eu não posso ficar de lado e esperar que isso aconteça.”

Trump respondeu com uma postagem no Twitter em que disse “bem-vindo à corrida Joe Preguiçoso” e questionou a inteligência de Biden.

O lançamento da campanha ocorreu antes mesmo de Biden ver o nome de seu filho Hunter envolvido em um caso que se tornou central no processo de impeachment de Trump. O atual presidente americano acusou Hunter, que era do conselho de administração de uma empresa ucraniana de gás, de estar envolvido em corrupção. Uma queixa de um delator apontou que Trump usou seu cargo para pedir a interferência de Kiev para abrir uma investigação sobre o caso, o que poderia prejudicar Biden politicamente, seu possível adversário. 

Na longa lista de pré-candidatos democratas, que chegou a ter 20 nomes, Biden tem como um dos principais aversários o senador Bernie Sanders, do Vermont, que se descreve como “socialista democrata”. A disputa entre os dois, tidos como os principais postulantes, deixa claro o conflito entre as alas moderada e progressista do partido.

Embora Biden ainda precise deixar claras suas propostas políticas, ele apoia muitas das pautas valorizadas pelos progressistas, entre elas o salário mínimo, o combate às mudanças climáticas, a proibição de armamentos mais pesados e a universidade pública gratuita.

Sua candidatura enfrenta, porém, vários questionamentos, entre os quais se ele é velho demais e muito ao centro para um partido cada vez mais impulsionado por sua ala liberal.

Em um comunicado, Obama disse que a escolha de Biden como seu vice em 2008 foi uma das melhores decisões que já tomou.

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Como foram definidas suas últimas campanhas, Biden se apresenta como uma alternativa. O ex-vice-presidente não é um socialista, mas também não é um Trump. Ele é Joe Biden, um dos estadistas mais velhos do país que já vê seu nome batizar alguns lugares. As pessoas o conhecem pelo melhor e pelo pior. Repetidas vezes, disse ser o que e está mais preparado para impedir que Trump consiga mais um mandato, o que seria uma aberração, na sua opinião. 

"Você sabe, eu estou aqui há muito tempo, essa é a má notícia", disse Biden certa vez. "Mas a boa notícia é que eu também estou aqui há muito tempo", mostrando gostar das construções de más/boas notícias. "A má notícia é que todo mundo me conhece", diz, começando outra. "A boa notícia é que todo mundo me conhece."

E isso define um ponto simples e fundamental sobre a campanha de Biden: sobrevivência. Ele ainda está na liderança, apesar de tudo - apesar de si mesmo. Kamala Harris, aparentemente, o "destruiu" em um debate no verão passado, com uma crítica sobre sua posição supostamente racista há mais de quatro décadas (uma posição que, para alguns, não era diferente da dela). Julián Castro o atacou em outro, falando sobre sua falta de memória. Os dois pré-candidatos já não estão mais na disputa. "Eu ainda estou aqui", disse Biden. "E ainda estou ganhando."

A campanha de Biden opera em um vasto escritório, espalhado por um único andar em um prédio na Filadélfia, não muito longe da estação de trem Amtrak. Como a maioria das sedes de campanhas de destaque hoje em dia, a de Biden não possui marcações ou sinalizações visíveis do lado de fora, para evitar protestos indesejados. Os três guardas de segurança do saguão disseram que não tinham ideia de que a campanha de Biden estava localizada no edifício.

Uma aura de fatalismo percorreu o início da campanha de Biden, começando com o próprio candidato. Ele já passou por cinco décadas de trabalho político e muito mais na vida. "Eu poderia cair morto amanhã", disse Biden a uma multidão de Iowa, como costuma fazer em seus comícios - uma fala curiosa de alguém que tenta acalmar os medos sobre sua idade. Isso pode ou não funcionar. Mas não importa quem os democratas indiquem, ele diz, ele ou ela será atacado sem piedade. Ele já passou por isso.

A outra questão fundamental para a campanha foi quanto falar sobre o próprio Trump. Após as eleições de meio de mandato de 2018, assumiu-se entre os democratas que eles deveriam se concentrar em questões centrais, como cuidados com a saúde e mudanças climáticas, e limitar a discussão sobre Trump. "E Biden, por outro lado, dizia: 'Não, não é por isso que estou correndo'", diz Mike Donilon, o principal estrategista da campanha. "Esta é uma batalha pela alma do país e pela ameaça que Trump representa para ele."

Não há nada na campanha de Biden sobre mudar paradigmas, nem nenhuma "teoria" elegante, ou uma grande ideia revolucionária,  ou um conto histórico que o rodeie. Se houver uma noção audaciosa em torno da campanha, é a vontade de Biden de falar sobre a unificação do país. 

Há ainda um número expressivo este ano do que os pesquisadores democratas estão chamando de "eleitores de elegibilidade", pessoas que valorizam a capacidade percebida de um candidato de derrotar Trump - outra vantagem para Biden, para quem o Partido Democrata mudou irreversivelmente para a esquerda depois de 2016. "É o que eu nunca entendo direito", disse ele. "Nunca vi dados concretos relacionados a isso."

De fato, a maioria dos democratas que conquistou cadeiras no Congresso em 2018 era mais popular, centrista que tinha muito mais em comum com Mitt Romney do que com qualquer membro do chamado "esquadrão de mulheres progressistas" do Congresso. Se essa dinâmica retornar em 2020, pode ser que Biden seja um ajuste para o momento.

Caso contrário, seria difícil explicar o grau de apoio que a campanha de Biden está contando entre os eleitores afro-americanos, caso ele se saia mal nos redutos brancos de Iowa e New Hampshire. Especialmente na Carolina do Sul, os eleitores negros representam aproximadamente 60% do eleitorado democrata. 

Pode não haver lugar mais essencial para as perspectivas de Biden, da mesma forma que o Estado foi - depois de Iowa - o maior responsável por levar Obama à nomeação em 2008. Biden tem uma vantagem duradoura nas pesquisas estaduais, derrotando seus oponentes em várias delas. Ele estava à frente de Sanders, seu concorrente mais próximo, por 32% a 15%.

Biden tem apelo natural entre os eleitores afro-americanos, entre os quais ele é extremamente conhecido por sua estreita associação com Obama. Mas segundo a analista Kate Bedingfield, a profundidade do apoio de Biden entre esses eleitores vai muito além do ex-presidente. 

Ela citou seu trabalho como defensor público, seus esforços no Senado para reautorizar a Lei dos Direitos de Voto e seu longo relacionamento com a comunidade afro-americana em Delaware, além da ampla rede de relacionamentos de Biden com líderes políticos negros em todo o país. Ele recebeu o apoio de 52% dos eleitores das primárias democratas negras em uma pesquisa nacional da Economist/YouGov atualizada na segunda quinzena de janeiro (Elizabeth Warren ficou em segundo, com 13%).

Há uma crença em Biden de que ele já passou por alguns dos destinos mais cruéis que podem acontecer a um homem - em 1972, perdeu a mulher, Neilia, e a filha Naomi, de 13 meses, em um acidente de carro; em 2015, perdeu o filho mais velho, Beau, de câncer no cérebro - o que poderia machucá-lo ainda mais? 

Seu histórico de vida empresta a ele um ar de ser, se não à prova de balas, de alguém que pode flutuar um pouco acima das pressões e demandas do momento. E daí se ele perder uma campanha? Não chegaria nem perto de ser a pior coisa que já aconteceu com ele. "Isso é verdade", disse ele. "Olha, a ideia de perder uma eleição, perder uma discussão, perder - quero dizer - Cristo!."

Por outro lado, há algo a mais que vem surgindo ultimamente. "Está começando a depositar em mim agora", disse ele. "Se eu sou o candidato, tenho uma obrigação tão avassaladora...de vencer", disse Biden, parecendo temer que pudesse encontrar o mesmo destino histórico de Hillary Clinton - o democrata do ano que consegue perder para Donald Trump.

Por um segundo, os apertados olhos azuis de Biden se arregalaram em um flash de inquietação. Era como se essa perspectiva nunca tivesse lhe ocorrido antes.

"Não é assim: eu perco a corrida, também perdi a corrida para John McCain, ou perdi a corrida para - quem quer que seja", disse Biden. Ele fez uma pausa. "Mas, Deus, sabe?"/Reuters e New York Times

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Perfil: Como em 2016, Bernie Sanders tira força das fraquezas de seus oponentes

Fora da 'bolha' existem poucos sinais de entusiasmo por suas promessas, mas senador pode conseguir unir a esquerda

Redação, The Economist

03 de fevereiro de 2020 | 19h06

Depois de bancar uma das plataformas de campanha mais radicais da história americana, dentro de uma cervejaria artesanal na neve de New Hampshire no final de semana passado, Bernie Sanders voltou-se para os aspectos práticos. Sua lista de tarefas, o senador de Vermont reconheceu para a multidão de bem-agasalhados habitantes de New England, era ambiciosa. Seus prometidos programas de assistência médica, educação e infraestrutura representariam de fato a maior expansão dos gastos do governo em tempos de paz; por uma estimativa, Sanders dobraria o orçamento federal. E ele não pararia por aí. Ele falou à plateia sobre sua esperança de convencer a China, a Índia e o Paquistão a redirecionar seus orçamentos de armas nucleares para combater as mudanças climáticas. 

Já para evitar que qualquer um considerasse tudo isso improvável, Sanders ofereceu uma garantia. "A mudança social acontece em momentos radicais", disse ele, citando as lutas do movimento trabalhista, sufragistas e defensores dos direitos LGBT. "Quando milhões se levantam para lutar por justiça, nada pode nos parar!"

Para os sandernistas comprometidos, o senador independente é outra razão pela qual a revolução política que ele promete está próxima. Político à esquerda pouco conhecido antes de sua impressionante corrida contra Hillary Clinton em 2016, ele desenvolveu um culto à personalidade. Seu slogan de campanha costumava ser "Um futuro em que acreditar"; agora é apenas: "Bernie". Os elogios que seus líderes de torcida oferecem a ele, um político profissional veterano de terno folgado, são tão extremos quanto suas idéias. "Acontece que Bernie é um homem do futuro!", disse Naomi Klein, aquecendo para o ato principal na cervejaria, em reconhecimento ao fato de Sanders estar oferecendo a mesma crítica à "elite corporativa" que ele culpa por todos os males por mais de três décadas. "Ele estava apenas esperando o mundo para alcançar!"

De fato, existem poucos sinais, no mundo frio do lado de fora da cervejaria, de entusiasmo pelas enormes mudanças que Sanders promete. Seu sucesso em 2016 refletiu principalmente insatisfação com Clinton. E, apesar de uma longa e contínua tendência à esquerda entre os democratas, para a qual ele contribuiu, suas idéias permanecem bastante marginais. A política mais popular de Sanders, uma expansão universal do Medicare, é apoiada por 38% dos democratas. Isso é significativo, mas dificilmente augura a debandada do ativismo radical que ele prevê. Apesar de possuir vantagens pelas quais muitos de seus oponentes democratas matariam - incluindo o reconhecimento quase total de seu nome e a capacidade de angariar milhões de entusiastas on-line -, Sanders consistentemente ficou abaixo dos 20%, menos da metade da participação que ganhou em 2016. Ele nunca pareceu ser um desafio a Joe Biden.

No entanto, duas semanas antes de Iowa dar o pontapé inicial, e apesar de só uma pequena melhora nas pesquisas, Sanders começou a parecer mais imponente. Sua angariação de fundos está sendo particularmente bem-sucedida. Ele está surgindo nos mercados de apostas. Três meses atrás, eles deram a ele 6% de chance de vitória; agora ele está com 29%. O establishment democrata está alarmado - liderado por Clinton, que nesta semana avaliou Sanders em um documentário: "Ninguém gosta dele, ninguém quer trabalhar com ele". O que mudou?

Como em 2016, Sanders está tirando força das fraquezas de seus oponentes. Biden, um septuagenário mais cansado e menos articulado, dominou, mas não conseguiu unir a centro-esquerda. Sentado no topo da maior fatia dos democratas como uma esponja molhada, o ex-vice-presidente amorteceu seu ardor, enquanto sufocava moderados mais inspiradores, como Pete Buttigieg. Enquanto isso, a rival de Sanders, à esquerda, Elizabeth Warren, vacilou. Ao tentar apelar para esquerdistas e moderados, ela irritou os dois. Isso tornou a minoria pequena, mas comprometida, de apoiadores de Sanders mais significativa. Se ele conseguir unir a esquerda, superando Warren de maneira convincente nos primeiros estados, enquanto a centro-esquerda permanece dividida, ele poderá estabelecer uma vantagem inicial útil. E o desempenho especialmente forte de Sanders em Iowa, New Hampshire e Nevada, onde atualmente está empatado com Biden, sugere que isso pode estar nas cartas. Foi o meio pelo qual Donald Trump, outro populista com uma base pequena, mas zelosa, ganhou a indicação republicana.

Sanders ainda enfrentaria obstáculos que Trump não enfrentou. Em particular, onde as primárias republicanas operam sob um sistema de vencedor leva tudo - que maximizou a pilhagem da liderança inicial de Trump - os democratas alocam seus delegados na proporção do número de votos que cada candidato ganha. Embora isso dificulte que Sanders se destaque, ele ainda pode estar preparado para fazê-lo. Sua capacidade de angariar fundos garantirá que ele possa resistir a uma disputa acirrada, mesmo quando candidatos colocados da mesma forma abandonarem o cargo. Seu profundo desdém pelo hostil establishment democrata o tornará especialmente determinado a fazê-lo. Além disso, aparecendo pela primeira vez como líder, Sanders pode ser capaz de expandir seu apelo em todo o partido com mais sucesso do que muitos imaginam.

Autenticamente louco

O que quer que os democratas moderados possam pensar sobre as políticas de Sanders, os eleitores americanos não escolhem seus líderes nessa base. Eles escolhem principalmente aqueles de quem gostam ou que fazem com que se sintam entendidos; e Sanders tem bom desempenho em tais marcadores. Democratas de todos os tipos consideram seu jeito ranzinza autêntico e sua obstinação ideológica uma marca de integridade. Mais de 70% dizem que gostam dele. Aqueles que saíram da cervejaria em New Hampshire disseram que ele era "honesto", "inspirado" e que "se identificavam com ele". Quase ninguém mencionou detalhes de uma plataforma que faria o New Deal parecer austero. E quando este colunista levantou o fato de que Sanders é socialista, ele foi gentilmente repreendido. A maioria dos participantes parecia considerar isso uma irrelevância um pouco estranha.

Dada a impraticabilidade das promessas de Sanders, há uma espécie de lógica nisso. No entanto, os democratas podem ter certeza de que não é um exemplo que Trump seguiria se tivesse a sorte de ter um socialista de verdade como seu oponente. Se os democratas nomearem Sanders, isso ocorrerá principalmente apesar de suas opiniões radicais. Mas isso não impediria Trump de ganhar a reeleição por causa deles.

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Perfil: Elizabeth Warren, estrela democrata americana em ascensão

Ex-professora de direito, senadora já foi republicana e superou caso de assédio sexual para atingir o auge de sua escalada política

Holly Bailey / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2019 | 08h00

HOUSTON, EUA - Elizabeth Warren é senadora pelo Estado de Massachusetts. Representante da ala mais progressista do Partido Democrata, Warren tornou-se favorita a obter a vaga de candidata do partido nas eleições presidenciais de 2020. Nas últimas semanas, ela superou o ex-vice-presidente Joe Biden em Estados cruciais como Iowa e New Hampshire, arrecadou US$ 25 milhões em doações de campanha e vem arrastando multidões a seus comícios. 

Ela não pisava no câmpus da Universidade de Houston havia quase 15 anos, desde que deixou seu primeiro emprego como professora em tempo integral. Mas, em uma manhã de setembro de 1997, Warren, na época uma já celebrada professora de direito de Harvard, voltou para homenagear um homem que havia desempenhado um papel pequeno, mas não insignificante, em sua carreira.

Os cinco anos que Warren passou no Texas foram os mais transformadores de sua vida. Ela se separou de um marido que não lidava bem com a ambição dela, especializou-se em leis de falências de consumidores e venceu seu medo de se apresentar em público, desenvolvendo o estilo de falar que fez dela um símbolo. Houston é onde Liz Warren se tornou Elizabeth Warren.

Ela foi convidada a homenagear Eugene Smith, professor de direito da Universidade de Houston, que, como chefe do comitê de contratação de professores, em 1978, havia defendido sua admissão. Smith, que morreu de complicações da poliomielite contraída quando era criança, havia solicitado especificamente que Warren falasse em seu funeral. O que ela disse na capela do câmpus surpreendeu seus ex-colegas.

Com um sorriso no rosto e humor na voz, Warren descreveu como Smith a assediara. Duas décadas depois, ela recontaria a história em uma entrevista no programa Meet the Press, em 2017, apresentando o episódio como sua própria experiência #MeToo com assédio sexual.

De acordo com registros divulgados pela campanha de Warren, seu salário naquele primeiro ano em Houston foi de US$ 20.500 anuais. Com seu corte de cabelo na altura do queixo, semelhante ao penteado que usa agora, ela parecia ter menos de 29 anos. “Eu era constantemente lembrada de que não parecia uma verdadeira professora de direito”, disse a senadora.

Seus colegas frequentemente a confundiam com secretária, enfermeira da escola ou até uma aluna perdida quando a viam vagando pelos escritórios da faculdade. Se Warren se considerava uma pioneira para mulheres da área do direito, ela nunca o reconheceu. Sua mãe há muito a advertia, ela disse, para não se tornar “uma daquelas mulheres malucas que roubam livros”. E, de acordo com aqueles que a conheciam na época, Warren, então republicana, não defendia o feminismo.

Estilo

Michael Olivas, professor de direito da Universidade de Houston, que foi contratado depois de Warren, lembrou-se de ter participado de suas aulas e ficar atordoado com o quanto ela era boa. “Ela ainda não era Elizabeth Warren, mas era Elizabeth Warren”, disse Olivas.

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Muitos de seus alunos reconhecem as mesmas técnicas e estilo de falar no trabalho durante a campanha. Até os braços erguidos são familiares. “É o mesmo quando você a vê na televisão e ela tenta explicar algo e diz: ‘Veja, é assim’”, disse Rita Lucido, advogada de direito da família de Houston que teve aulas com Warren. 

Na época, Elizabeth era mais jovem e menos rabugenta que os homens da faculdade. Ela pintou uma parede em seu escritório de um verde brilhante e pendurou um grande balanço de vime na varanda, herdado de sua avó, onde ela se sentava para preparar suas aulas.

Assédio

Warren adorava seu trabalho. Para mantê-lo, ela percebeu que teria de criar um bom relacionamento com Smith e, ao mesmo tempo, se esquivar do que descreveu como um comportamento cada vez mais “inadequado” da parte dele. Warren pensou que o controlaria até aquele dia, no início de 1979, quando ocorreu o assédio.

Ela afirma que pensou em dar um soco na cara do professor, mas levou em consideração as avaliações dele, a influência de Smith com o reitor e o fato de a escola ainda não ter decidido se seu contrato seria renovado. “Se Gene quisesse me afundar, ele poderia”, disse. “E assim, quando ele me perseguiu pelo escritório, eu não tinha tanto medo dele fisicamente, mas temia o que ele poderia tirar de mim.”

Warren sabia instintivamente que o silêncio era sua única opção. Enquanto tentava se manter no emprego, sua vida em casa desmoronava. Ela tentava equilibrar as pressões de ser uma professora sob intenso escrutínio com o fato de ser esposa e mãe. E ela estava fracassando. “Meu mundo foi esticado até o ponto de ruptura”, disse.

Problemas familiares

Na ocasião, ela preparava o café da manhã para o marido, Jim, e seus dois filhos, Alex e Amelia, e depois voltava para a escola. “Cuidar das crianças quase me derrubou”, diz Warren, até que sua tia Bess Reed Veneck veio de Oklahoma para ajudar.

A tia não conseguiu consertar o que havia de errado no casamento. Segundo Warren, ela e Jim nunca brigaram. Ele apenas olhava para ela, com cara de poucos amigos, quando o jantar estava atrasado ou quando ela passava a noite toda corrigindo provas.

“Acho que nós dois ficamos chocados com o que acabei me tornando, dez anos depois de casada”, disse Warren. “Ele pensou que eu seria outra pessoa e, sinceramente, eu meio que presumi isso também. Continuei mudando e crescendo quase à revelia de mim mesma.”

Para Warren, lecionar abriu um novo mundo. Era impossível colocar suas ambições de volta em uma caixa e fechá-la, até mesmo para salvar seu casamento. “Eu queria muito o trabalho”, disse. “Queria ser uma boa mãe, boa esposa, mas não consegui tudo isso.”

Uma noite, como Warren conta em seu livro de memórias A Fighting Chance (“Uma chance de lutar”), ela perguntou a Jim se ele queria o divórcio. “Sim”, ele respondeu. Ela ficou chocada, mas ele não.

Novo começo

Sua família cuidou das crianças naquele verão, quando Warren foi para a Flórida para participar de um retiro sobre leis e economia. Um dos outros participantes era Bruce Mann, professor e historiador da Universidade de Connecticut. Foi atração instantânea. Não está claro quando eles se tornaram oficialmente um casal, mas Warren conta que o visitou logo depois em Connecticut. E ele foi vê-la em Houston.

Se Jim lutava contra a ambição de Warren, Mann a acolheu. Os dois se casaram em julho de 1980, logo após o aniversário de 31 anos de Warren. Mann desistiu de seu emprego e se mudou para Houston, onde a UH lhe concedeu um contrato de ensino de um ano. 

Ela foi nomeada reitora assistente do centro de direito. Mas, em 1983, arrumou as malas e levou a família para Austin, também no Texas, para dar aulas na universidade local. 

Em julho, Warren passava pelos corredores da UH, lugar onde tudo começou. Ela apontou seu antigo escritório, as salas de aula onde ensinava. “Esta é uma volta para casa”, disse mais tarde a uma multidão de mais de 2 mil pessoas que enfrentaram fila para ouvi-la. / Tradução de Claudia Bozzo

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