Rivalidade da Guerra Fria volta a Genebra

Ninguém oficialmente ousa usar o termo, mas a cúpula entre EUA e Rússia em Genebra está permeada por um clima similar ao da Guerra Fria. Washington e Moscou estão em lados opostos em uma crise regional, ameaçando armar grupos diferentes e tentando encontrar uma solução diplomática em território neutro: a Suíça. A novidade é que, desta vez, quem dá as cartas é Moscou.

BASTIDORES: Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2013 | 02h14

Genebra foi tradicionalmente usada por anos por soviéticos e americanos como local de contato entre as duas superpotências. "Em Genebra, não eram poucos os funcionários de agências de inteligência que circulavam pelo local e jornalistas que, na prática, eram espiões", explicou ao 'Estado' um experiente diplomata britânico aposentado que desembarcou pela primeira vez na cidade nos anos 50.

Ontem, os chanceleres Sergei Lavrov e John Kerry deixaram claro que os desentendimentos são profundos. Enquanto o americano falava, o russo torcia o rosto, em um claro sinal de desaprovação pública.

Ao final da entrevista, o aparelho que fazia a tradução simultânea de russo para inglês falhou. Kerry pediu que a frase de Lavrov fosse repetida. Mas o russo garantiu que não era nada importante. O americano, então, escancarou as diferenças. "Você quer que eu confie na sua palavra? Acho que é um pouco cedo para isso."

Ontem, Lavrov fez Kerry esperar cinco horas por sua chegada. O russo se recusou a cancelar sua agenda no Cazaquistão, onde manteve reuniões sobre a integração entre Astana e Moscou. Ao desembarcar em Genebra, não usava gravata e, sorridente, caminhava com a segurança de quem chegava para negociar em posição de vantagem.

Do lado dos americanos, o novato Kerry era um vivo contraste com Lavrov - homem forte de Putin que ficou conhecido na diplomacia americana por fazer a antecessora de Kerry, Hillary Clinton, cair em lágrimas em Genebra após reuniões sobre a Síria no ano passado.

Antes de chegar a Genebra, Kerry ainda adotou uma iniciativa que não poderia ser mais simbólica. Ele fez questão de convocar um encontro com Henry Kissinger para saber como lidar com os russos e sobre o Oriente Médio.

Kissinger foi quem desenhou a relação entre soviéticos e americanos nos anos 70, no auge da Guerra Fria, e tem criticado a condução da crise síria.

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