Rivalidade maior entre China e EUA atinge emergentes

Em visita ao Brasil, especialistas dos dois países analisam as convergências e diferenças entre as duas grandes potências

RENATA TRANCHES, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2014 | 02h00

A rivalidade nas relações entre China e EUA - marcadas pela interdependência - ficou maior após a crise econômica de 2008 e a chegada de Xi Jinping ao poder. Enquanto Washington cobra que o país asiático assuma mais responsabilidades na comunidade internacional, Pequim reivindica mais poder na relação, avaliam especialistas.

Em passagem pelo Brasil para falar sobre o tema, Douglas Paal, vice-presidente de Estudos do Carnegie Endowment for International Peace (Washington), afirmou, em entrevista ao Estado, que há anos os EUA esperam que a China deixe de ser tão seletiva e assuma mais responsabilidades em questões internacionais. "Temos crises por toda parte e a China contribui apenas com tropas para as operações americanas de manutenção da paz e não para as usadas para se fazer a paz", afirma Paal, que integrou o Conselho de Segurança Nacional dos EUA nos governos Reagan e Bush (pai), republicanos.

Ao seu lado, Sam Zhao, diretor executivo do Centro de Cooperação China-EUA da Universidade de Denver reconhece que a questão é nova para Pequim, que tem tentado assimilar melhor esse papel. "Quando Robert Zoellick (ex-vice-secretário de Estado americano) instou a China, em 2005, a assumir um papel responsável, foi difícil para os analistas chineses encontrarem até mesmo explicação correspondente em chinês", lembrou, também em entrevista ao Estado. "A partir de então, houve uma maior compreensão sobre o crescimento da China e o país se deu conta da responsabilidade que não podia mais evitar."

Mas, para o analista chinês, também pesquisador de Leste Asiático da Universidade de Harvard, a China sempre se viu como a parte fraca da relação com os EUA e isso mudou a partir da crise econômica e financeira de 2008. "Ela (crise) foi o ponto de virada da relação e a China a atravessou muito melhor do que os EUA", disse Zhao, durante seminário, no dia 19, no Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC) do qual também participou Paal. No dia anterior, os dois falaram sobre o tema na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Essa perspectiva, segundo Zhao, mudou a forma como a China se relaciona com os EUA e passou a assumir posições muito mais duras. Segundo Zhao, as desconfianças da China com relação aos EUA se agravaram com a política de Barack Obama para a região Ásia-Pacífico, conhecida como "pivô", que reforçou a presença militar no Pacífico e acirrou a disputa entre os dois países. "Se você vem ao nosso quintal, nós vamos ao seu. Nós vamos à América Latina. A China tem feito o que qualquer potência emergente faria", diz o analista, sobre o interesse de Pequim na região.

Apesar de ser crescente, a presença chinesa na América Latina não representa uma preocupação para os EUA, acredita Paal. "Se as pessoas aqui nessa região pensarem que há uma disputa entre EUA e China na América Latina e podem se beneficiar dela ficarão desapontadas, porque os EUA não estão interessados nesse tipo de competição", disse. "Essa administração (Obama, democrata) já deixou clara a falta de interesse nessa relação."

Tornar a América Latina um alvo para a China, segundo o americano, não é uma estratégia, mas uma necessidade, assim como sua investida em outras regiões como África. Como retardatária no mercado internacional energético, disse Paal, a nação precisou buscar mercados não ocupados pelas grandes companhias energéticas.

Zhao insiste, por sua vez, que a atenção na região latino-americana vai além dos recursos energéticos e de mercado. Ele destaca o interesse do próprio Xi Jinping, que já fez duas longas viagens a países latino-americanos, incluindo Brasil, em menos de dois anos de governo. Seu antecessor, Hu Jintao, também visitou a região duas vezes, mas em dez anos de poder. "Hu não se sentia à vontade. Mas Xi adora esse tipo de diplomacia", destaca.

Segundo Zhao, durante a última cúpula dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), no Brasil, os veículos de comunicação chineses discutiam como grandes países da região - citando também Argentina e Venezuela - se aproximaram tanto da China e se afastaram dos EUA. "A China vê isso como uma oportunidade. Os EUA cometem erros, a China tem sucesso."

As tensões entre as duas potências levaram o secretário de Estado americano, John Kerry, a encerrar uma recente viagem diplomática com um discurso apaziguador no Havaí, há duas semanas. O objetivo foi o de se criar uma atmosfera positiva para a visita que Obama fará à China em novembro, para um fórum de cooperação econômica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.