Rivalidade na barbárie

Onde terminará a corrida ao horror? Esta pergunta angustiante não é feita somente pelas populações das regiões que são presas dos delírios sanguinários do terrorismo de inspiração religiosa ou pseudo religiosa.

ISSA GORAIEB*, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2014 | 02h01

Nos últimos dias, aliás, mais de uma fronteira foi rompida. A primeira é de natureza geográfica. Não é a primeira vez, é verdade, que uma grande cidade ocidental serve de palco para um ato terrorista, como a tomada de reféns ocorrida num café do centro de Sydney encerrada com a morte do alucinado e dois cativos. Há algum tempo, porém, a expansão da violência jihadista parecia se confinar a alguns países da África do Norte, do Oriente Próximo e do Médio. Além do Afeganistão, onde o terrorismo permanente visa tanto civis como militares ocidentais, esses países são: a Líbia, entregue ao caos mais absoluto desde a derrubada do ditador Muamar Kadafi; o Egito, onde o Exército, embora solidamente encastelado no poder, é alvo constante de ataques de ativistas islâmicos; o Iraque, onde os atentados com carros-bomba em lugares movimentados se tornaram quase cotidianos; a Síria, onde grassa uma guerra civil feroz e onde acaba de se descobrir uma vala comum com 230 cadáveres, em sua maioria de membros civis de uma tribo sunita que se rebelou contra o Estado Islâmico e foi duramente castigada por isso; o Líbano, onde 26 soldados e policiais estão cativos há mais de quatro meses de islamistas infiltrados da Síria - que já executaram três de seus reféns; o Iêmen, onde uma bomba atingiu um ônibus escolar matou quinze garotinhas inocentes e mais de dez outras pessoas.

A segunda fronteira derrubada foi a que demarcava, assim acreditávamos, os limites da barbárie. Foi na cidade paquistanesa de Peshawar que tivemos a lamentável ilustração disso com o massacre em grande escala cometido a sangue frio por um comando do Taleban numa escola reservada a filhos de militares. Diferentemente das escolares iemenitas, os 132 alunos mortos não eram o que se chama eufemisticamente de danos colaterais; eram expressamente visados pelos atacantes que os caçaram de sala em sala.

Qual a razão de tanta sanha assassina? Uma vingança contra o Exército que, já faz algum tempo, move uma enérgica campanha contra os combatentes islamistas. Segundo país mais populoso do mundo muçulmano, depois da Indonésia, o Paquistão constitui um verdadeiro enigma.

Oficialmente aliado dos Estados Unidos, ele mesmo assim sempre manteve ligações equivocadas com o Taleban (palavra árabe que significa estudantes). Estes, por sua vez, se dividem em várias facções mais ou menos filiadas à Al-Qaeda. Vencedor das eleições legislativas de 2013, o primeiro-ministro Nawaz Sharif, um islamista moderado, tentou em vão negociar com o Taleban, que é partidário de uma aplicação literal e integral da sharia (a lei corânica). O fracasso das negociações em junho, para grande satisfação do Exército e de Washington, foi o pretexto para os militares passarem à ação, recorrendo até à aviação para atacar as posições dos jihadistas.

Além destes desdobramentos políticos, a hecatombe de Peshawar, precisamente porque marca uma escalada inimaginável do horror, é reveladora da sinistra competição à qual se entregam estas duas forças maiores do terrorismo islâmico que são a Al-Qaeda e o Estado Islâmico para se arrogarem o título de campeão da causa sagrada.

Os dois lados têm em seu currículo um sem número de vítimas igualmente lamentáveis; é no plano da comunicação que o EI marca pontos decisivos sobre o seu adversário, com o uso intensivo que faz de videoclipes que inundam as redes sociais de imagens macabras de jornalistas decapitados ou execuções em massa. Para compensar essa cooperação surreal entre tecnologia moderna e práticas da idade da pedra, a Al-Qaeda encontrou na carnificina de Peshawar uma publicidade mundial inesperada. E provou que o Oscar do horror ainda não tem dono. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É JORNALISTA DO 'L'ORIENT-LE JOUR', DE BEIRUTE, E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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