Yuri Gripas / Reuters
Yuri Gripas / Reuters

Robert Mueller: 'Se acreditássemos que Trump não cometeu crime, teríamos dito'

Procurador especial falou pela primeira vez desde que assumiu as investigações sobre interferência russa na campanha de 2016 e disse que o relatório de 448 páginas escrito por ele 'fala por si'

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2019 | 12h49

O procurador especial Robert Mueller quebrou um silêncio de dois anos nesta quarta-feira e falou sobre a investigação da influência russa na eleição americana. Em declaração curta, ele rejeitou inocentar Donald Trump e afirmou que cabe ao Congresso – e não a ele – indiciar um presidente no exercício do mandato. As declarações aumentaram a pressão para que os democratas iniciem um processo de impeachment na Câmara. 

“Como consta no relatório, depois da investigação, se nós tivéssemos tido a confiança de que o presidente não cometeu um crime, teríamos dito isso”, afirmou Mueller. A declaração, que veio juntamente com o anúncio de que ele estava se demitindo do serviço público, jogou o tema no colo do Congresso e ressuscitou o tema do impeachment, que vinha perdendo força.

Os candidatos que pretendem disputar a eleição presidencial de 2020 contra Trump se mostraram a favor da abertura de um processo de impeachment, com diferença na intensidade das manifestações. Por enquanto, a resistência está nos líderes do Congresso. 

A presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, tem acalmado os ânimos dentro do partido sobre o impeachment e ontem manteve o tom, em sintonia com o presidente da Comitê Judiciário, Jerry Nadler. Ambos defenderam que o Congresso vá fundo em investigações sobre Trump. “Cabe ao Congresso responder às mentiras, crimes e irregularidades do presidente”, disse Nadler. Mas, sobre o impeachment, os dois democratas se limitaram a dizer que a opção não está descartada.

Nos últimos dois meses, a sombra da investigação de Mueller saiu da Casa Branca e passou a pairar sobre os democratas. Desde que o procurador especial concluiu a investigação, a oposição se vê diante de um impasse. De um lado, as conclusões são graves o bastante para que o eleitorado fiel aos democratas e crítico a Trump deixe a história para trás. De outro, líderes do partido entendem que deixar de debater temas locais para investir no impeachment pode levar a população à exaustão e, se o processo for malsucedido, os democratas sairão desgastados às vésperas da eleição.

A despeito de o procurador ter deixado claro que não inocentou o presidente, Trump voltou a repetir que não foram colhidas provas suficientes para incriminá-lo. “Nada muda em relação ao relatório de Mueller. Havia prova insuficientes e, no nosso país, a pessoa é inocente. O caso está encerrado!”, tuitou Trump.  

 


Mueller frisou, no seu pronunciamento, informações que já constavam no relatório e afirmou que “existiram esforços múltiplos e sistemáticos de interferir” nas eleições americanas. “É importante que o relatório fale por si. Ele é meu testemunho e não vou falar nada além do que está escrito nele.”

A pressão pelo impeachment provocou reações na Casa Branca. A porta-voz, Sarah Sanders, disse que o governo está preparado para isso, mas o “povo americano” não merece um processo de deposição do presidente. “Cada minuto que o Congresso gasta nisso não é gasto em infraestrutura, não é gasto em redução dos preços de medicamentos, não é gasto em Irã, China, Coreia do Norte, novos acordos comerciais. É um desserviço”, disse.

Durante toda a tarde, a imprensa americana analisou a possibilidade de impeachment. Uma pesquisa divulgada no dia 1.º mostra que a maioria dos eleitores democratas apoia a abertura de um processo de impeachment com base no relatório de investigação. Mas, quando somados os eleitores republicanos e independentes, 53% dos americanos são contra o impeachment, 39% são a favor e 8% estão indecisos. 

“Os líderes democratas na Câmara não querem o impeachment, sabem que precisarão lutar para manter as cadeiras que ganharam de republicanos em 2018. E o impeachment não passará no Senado”, disse Gary Nordlinger, professor da Universidade George Washington. “Não é como em Watergate, onde tínhamos a voz de Richard Nixon gravada planejando obstrução de Justiça.”

Como no Brasil, o processo de impeachment nos EUA precisa ser aberto na Câmara e aprovado por maioria dos deputados para ser enviado ao Senado, onde a deposição do presidente exige dois terços dos votos. O Senado tem maioria republicana, partido de Trump, e para a aprovação do impeachment seria necessário que todos os democratas e independentes votassem contra o presidente, além de ao menos 20 republicanos.

Mesmo assim, os democratas fazem as contas. Atualmente, segundo análise do jornal Washington Post, 42 dos 435 deputados se declaram publicamente favoráveis ao impeachment.

Tido como o mais moderado dos cerca de 20 pré-candidatos, o ex-vice de Obama, Joe Biden, defendeu a posição de Pelosi. Em comunicado, Biden pediu a continuidade das investigações pelo Congresso e disse que ninguém gostaria de um processo de impeachment que “certamente seria divisivo”, mas emendou dizendo que isso “pode ser inevitável se o governo continuar neste caminho”.

Bernie Sanders também preferiu um caminho do meio. Ele defendeu que o Congresso continue com as investigações e disse que apoiará se a o Comitê de Justiça da Câmara entender que é necessário abrir uma consulta sobre o impeachment – sem clamar para que os congressistas adotem esse procedimento. “Temos um presidente que acredita que está acima da lei”, disse.

Kamala Harris, Beto O'Rouke e Elizabeth Warren fizeram parte do grupo que deu coro à pressão clara pelo impeachment. “Obrigação constitucional”, classificou Kamala. Pete Buttigieg encarou o pronunciamento de Mueller como a “indicação clara” de um impeachment. “Ele passou o assunto para o Congresso, que pode sozinho agir para garantir o devido processo e a responsabilização”, disse Buttigieg.

Para o professor da George Washington University, os candidatos destinam a mensagem à base eleitoral que não gosta de Trump – e que pode levá-los à indicação do partido para 2020 -, mas isso não necessariamente influenciará a Câmara.

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