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Roberto Godoy: Avião Super Tucano cai em mãos do Taleban no Afeganistão

Após tomar o poder, grupo jihadista assume controle de parte da frota de 26 turboélices brasileiros

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2021 | 05h00
Atualizado 17 de agosto de 2021 | 08h18

Nos últimos quatro anos, a aviação militar do Afeganistão vinha lançando bombas e foguetes contra instalações do Taleban utilizando aviões brasileiros Super Tucano, de ataque leve. Com a volta ao poder dos extremistas, parte da frota de 26 turboélices A-29 – 24 em operação – passa em princípio ao controle dos radicais islâmicos. 

As aeronaves ficavam estacionadas em duas bases afegãs, em Cabul e Mazar-i-Sharif, a principal do país, onde também estavam os helicópteros americanos Blackhawks, os russos MI-17, um número desconhecido de drones. Mazar-i-Sharif foi invadida e controlada pelo Taleban na quinta-feira. No fim de semana, a milícia também passou a dominar a base de Cabul.

O plano inicial era que pilotos afegãos e americanos levassem toda a frota para o Paquistão, na terça-feira, o que aparentemente não deu certo. Pelo menos um esquadrão de 12 Super Tucanos foi transferido para um país da região. No entanto, uma foto que circulou pelas redes sociais mostrou militantes do Taleban à frente de um Super Tucano. Portanto, não está totalmente claro para onde ou o que foi removido antes de Mazar-i-Shair cair sob o poder dos radicais.

Do ponto de vista tático, a primeira atitude seria destruir as aeronaves. Havia uma expectativa do envio de dois bombardeiros americanos B-52 para que destruíssem o espólio militar, evitando que ele caísse nas mãos dos radicais, mas o plano também não foi adiante.

Em seu poder de fogo, os Super Tucanos podem levar mais de 150 combinações de armamentos – por exemplo, foguete e combustível ou mísseis e foguetes – com uma capacidade de até 1,5 tonelada.

Todas as aeronaves são equipadas com 2 metralhadoras .50 mm. As aeronaves, também usadas para treinamento de pilotos e missões de inteligência, foram adquiridas por meio de linhas de crédito do governo dos EUA, no âmbito do programa de reconstrução das Forças Armadas afegãs.

O contrato da compra de 26 aeronaves, estimado em US$ 560 milhões, é resultado de um acordo trinacional – partes de cada unidade são produzidas pela Embraer, no Brasil, e depois enviadas para a fábrica do consórcio Embraer Defesa e Segurança (EDS) e grupo americano Sierra Nevada Corporation (SNC), parceiro local da empresa brasileira em Jacksonville, na Flórida, para a integração e instalação de componentes. Só depois elas foram entregues ao Afeganistão.

Por serem configuradas nos EUA, incorporam equipamento americano de última geração. Esses Super Tucanos possuem a mais sofisticada configuração do sistema de armas de todos os usados entre 15 países.

A expectativa agora é sobre como o Taleban fará uso dessas aeronaves. Se quando esteve no poder o Taleban era mais conhecido como uma horda de radicais islâmicos desorganizados, hoje o cenário é diferente. Nos últimos 20 anos, a milícia foi adquirindo organização, muitas vezes influenciada pelo grupo Estado Islâmico, muito mais estruturado desde seu início.

Dominando os conceitos de brigadas, batalhões, centros de treinamento, a milícia radical hoje possui uma arquitetura de força muito parecida com os exércitos do Ocidente. Com conceito de disciplina e hierarquia, não abriram mão de comandos autônomos e tornaram extremamente efetiva e segura a comunicação entre eles.

O grupo também desenvolveu um esquema de coleta de dados de inteligência e conta hoje com voluntários estrangeiros, assim como o Estado Islâmico. O Taleban tem ainda como vantagem estratégica membros das forças afegãs, simpatizantes do grupo, com conhecimento para operar equipamento militar, que passaram a integrar a milícia diante de uma iminente derrota.

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O Taleban, com seus 60 mil combatentes, vem varrendo o país diante de uma força afegã muito mais numerosa – 186 mil militares que compõem Exército e Aeronáutica (o país não tem Marinha) e seus equipamentos. As forças militares afegãs vinham sendo reequipadas por um programa financiado por EUA, Reino Unido e alguns países da União Europeia. 

Em seu arsenal, a milícia radical dispõe principalmente de canhões russos de 23 mm, metralhadoras de 762 mm e .50 mm, fuzis AK-47, além de material apreendido em batalha. 

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