Reprodução/Twitter
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Robôs russos fizeram campanha virtual sobre armas após massacre na Flórida

Centenas de contas no Twitter supostamente ligadas a Moscou espalharam mensagens com ênfase na questão do controle sobre a venda de armas; especialistas dizem que estratégia tem como objetivo ampliar divisão entre americanos em relação ao tema

O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2018 | 10h24

WASHINGTON - Uma hora depois de a imprensa noticiar o ataque em que o jovem identificado como Nikolas Cruz matou 17 pessoas em uma escola na Flórida, na semana passada, centenas contas no Twitter supostamente ligadas à Rússia publicaram centenas de postagens provocando um debate sobre controle de armas.

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Essas contas abordaram as notícias sobre o ataque na mesma velocidade que os canais de notícias transmitiam as últimas informações sobre o caso. Algumas adotaram a hashtag #guncontrolnow (controle de armas agora, em tradução livre). Outras usaram os termos #gunreformnow (reforma sobre armas agora) e #Parklandshooting (ataque a tiros em Parkland).

Antes do ataque, muitas destas contas publicavam mensagens com foco na investigação do procurador especial Robert Mueller, que lidera a apuração sobre a possível interferência russa na eleição presidencial dos EUA, em 2016.

"Isto é muito típico para eles, de se aproveitar de notícias como esta", disse Jonathon Morgan, diretor da New Knowledge, empresa que rastreia campanhas online de desinformação. "Os robôs focam em qualquer questão que cause discórdia entre os americanos. Quase de forma sistemática." 

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E uma das questões mais polêmicas nos EUA neste momento é como lidar com a questão das armas, já que defensores da 2.ª Emenda se opõem aos defensores do controle sobre a venda de armamento. Assim, as mensagem publicadas por estas contas automatizadas, ou robôs, tinham como objetivo ampliar essa divisão e tornar ainda mais difícil algum tipo de entendimento entre os dois lados.

Qualquer notícia - não importa o quão trágica - se tornou uma oportunidade para espalhar mensagens inflamatórias no que se acredita ser uma campanha de desinformação russa de longo alcance. A desinformação tem várias formas: vídeos de conspiração no YouTube, falsos grupos de interesse no Facebook e exércitos de contas automatizadas que se apropiam de uma discussão no Twitter.

Essas contas automáticas no Twitter são acompanhadas de perto por pesquisadores. No ano passado, a Alliance for Securing Democracy, em conjunto com o German Marshall Fund, um grupo de pesquisa de políticas públicas em Washington, criou um site que rastreia centenas de contas do Twitter de usuários reais e de prováveis robôs relacionados a uma campanha de influência promovida por Moscou.

Para detectar as contas automatizadas, os pesquisadores procuraram por alguns sinais, como um volume extremamente alto de postagens ou conteúdos aparentemente combinados com centenas de outras contas. Eles disseram que foi exatamente o que aconteceu pouco depois do ataque em Parkland, na Flórida.

 Ampliadas por enxames de “bots” as contas ligadas aos russos tentaram fomentar a discórdia antes e depois da eleição. Centenas de contas promoveram histórias falsas sobre Hillary Clinton e espalharam artigos baseados em e-mails de pessoas que trabalhavam para os democratas obtidos por hackers russos.

O Facebook, Twitter e Google anunciaram novas medidas para eliminar essas contas e contrataram monitores para ajudá-los a extirpar tudo o que seja desinformação das suas plataformas.

Mas, desde a eleição, esses “bots” ligados aos russos partiram para outros assuntos que provocam discórdia, com freqüência aqueles aos quais o presidente Trump se refere no Twitter. E promoveram hashtags como #boycottnfl, #standforouranthem e “#takeaknee depois que alguns jogadores da Liga Nacional de Futebol se ajoelharam durante o hino nacional para protestar contra a injustiça radical.

Essas contas automatizadas ajudaram a popularizar a hashtag #releasethememo, sobre um memorando republicano secreto sugerindo que o FBI e o Departamento de Justiça abusaram da sua autoridade para obter uma ordem judicial que os autorizava a espionar um ex-assessor de campanha de Trump. O debate envolvendo esse memorando ampliou a divisão entre a Casa Branca e seus próprios serviços de polícia.

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"(Os robôs) encontram qualquer questão controvertida e tentam transformá-la em algo insolúvel e repleto de frustração", diz Karen North, professora de mídias sociais da University of Southern California Annenberg School for Communication and Journalism. "Isso aumenta a frustração e a raiva (dos internautas)".

Funcionários da inteligência dos EUA advertiram recentemente sobre a possibilidade de atores mal-intencionados tentarem espalhar campanhas de desinformação durante a eleição de meio de mandato, em novembro. 

Em audiências no Congresso no ano passado e em encontros com legisladores, as empresas de mídias sociais prometeram que se esforçarão para que não ocorra durante a campanha eleitoral deste ano o mesmo que em 2016, quando robôs foram usados para espalhar notícias falsas e boatos em detrimento de alguns candidatos.

Mas essa campanha no Twitter pouco depois do ataque na Flórida é um exemplo de como os russos ainda têm a capacidade de influenciar os internautas americanos. 

"Tivemos mais de um ano para trabalhar conjuntamente e enfrentar a ameaça da Rússia, para implementarmos estratégias para nos defendermos de futuros ataque. Acredito, no entanto, que infelizmente ainda não temos um plano abrangente neste sentido", afirmou o senador democrata Mark Warner, vice-diretor da Comissão de Inteligência do Senado durante audiência neste mês sobre as ameaças globais ao EUA.

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"O que estamos vendo é uma agressão contínua da Rússia com alvos predeterminados e com o objetivo de minar nossas instituições democráticas. E nada indica que eles deixarão de fazer isso (num futuro próximo)", completou Warner.

Quando os robôs russos passaram a usar a hashtag #Parklandshooting - criada inicialmente para divulgar notícias sobre o ataque -, rapidamente aumentaram a tensão sobre o tema. Explorando a questão da saúde mental associada ao debate sobre controle de armas, propagaram a noção de que Nikolas Cruz, autor da ação, era um "lobo solitário" com distúrbios mentais.

Essas contas também espalharam um boato  de que ele teria feito buscas por frases árabes no Google antes do ataque. Simultaneamente, os bots começaram a usar outras hashtags, como #ar15, em relação ao fuzil semiautomático usado por Cruz, e #NRA.

Segundo Morgan, um dos pesquisadores que trabalhou no German Marshall Fund, o comportamento dos robôs segue um padrão. Eles se concentram num tema contencioso como relações raciais ou armas. E insuflam a discussão, instigando ambos os lados e despertando dúvidas do público nas instituições, como a polícia ou a mídia. Qualquer assunto ligado a opiniões extremistas é um alvo oportuno. O objetivo é fazer com que ideias que estão à margem “se tornem um pouco mais centrais”, disse Morgan. Se pessoas conhecidas repassam essas mensagens elas começam a ganhar legitimidade.

Um indiciamento tornado público na sexta-feira por Mueller, inserido na investigação sobre a interferência russa na eleição, menciona uma notícia em um Twitter russo, @TEN GOP, que se apresentava como conta de um republicano do Tennessee e atraiu mais de 100 mil seguidores. Mensagens desta conta, agora apagada, foram repetidas pelos filhos do presidente e assessores, incluindo Kellyanne Conway e Michael T. Flynn. O indiciamento também descreveu como contas fraudulentas russas no Twitter procuraram incentivar os americanos a alguma ação. A falsa conta no Twitter, @March for Trump organizou manifestações em favor de Trump em Nova York antes da eleição e uma marcha “Down with Hillary” em 23 de julho de 2016.

Na manhã da sexta-feira 16, os bots que publicaram os tuítes sobre o ataque em Parkland passaram para a usar a hashtag #falseflag - um termo usado por teóricos da conspiração para se referir a uma operação secreta do governo que é realizada para se parecer com outra coisa - com uma teoria de que o ataque em Parkland nunca ocorreu.

Na segunda-feira 19, os robôs adotaram novos alvos: a corrida Daytona 500 em Daytona Beach, na Flórida, e notícias sobre William Holleeder, um homem julgado na Holanda por seu papel em seis assassinatos envolvendo membros de gangs. Não está claro o motivo para esta mudança. / NYT

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