Rodríguez Saá ressurge como favorito na Argentina

"Quem é esse homem que durante sete dias e sete noites trouxe alegrias, iluminou esperanças no meio da tempestade pela qual passam os argentinos? Como ele é? De onde veio? Alguém de outra galáxia? Uma simples miragem?" Essa peculiar introdução, que parece o prólogo de uma história em quadrinhos do Super-Homem está, na verdade, no livro Rodríguez Saá, o Futuro, calhamaço de 396 páginas que exalta a polêmica e pitoresca última semana de dezembro de 2001, quando Adolfo Rodríguez Saá deixou o governo da Província de San Luis (que havia administrado durante ininterruptos 18 anos) para ocupar a Casa Rosada, a sede da presidência argentina. O livro ufanista é só um detalhe da campanha que está trazendo o sempre sorridente Rodríguez Saá de novo ao ringue político. Ignorado e desprezado durante meses pelos analistas e a mídia, Adolfo Rodríguez Saá - do Partido Justicialista (Peronista) - chamou a atenção nas últimas semanas quando começou a aparecer na maioria das pesquisas de opinião pública como o candidato favorito para vencer as eleições presidenciais previstas para março, com mais de 15% dos votos, afastando desta forma uma série de políticos que apareciam como os indiscutíveis presidenciáveis. El Adolfo, como o chamam no interior da Argentina, cresceu silenciosamente, enquanto o candidato do presidente Eduardo Duhalde, José Manuel de la Sota - o governador peronista de Córdoba - não conseguia subir nas pesquisas além dos 7%, a mesma esquálida proporção do também peronista ex-presidente Carlos Menem (1989-99), mergulhado em novos escândalos de corrupção. A chegada de Rodríguez Saá à pole position nas pesquisas causou uma reviravolta no cenário eleitoral, mas o que mais chamou a atenção foi o fato de ele ultrapassar a até então favorita Elisa Lilita Carrió, deputada e líder do Argentinos por uma República de Iguais (ARI), que está com pouco mais de 13%. "Ele faz do ridículo sua fortaleza", afirmam os analistas, que destacam que ele teve sucesso em mesclar seu modus operandi de caudilho provinciano com abundantes toques bizarros, colocando-se como alternativa entre o "progressismo místico" de Carrió e as posições da direita neoliberal pró-dolarização de Menem. Na semana em que governou, teve um comportamento de opereta, declarando a suspensão da dívida externa pública, prometendo a criação imediata de 1 milhão de empregos, e projetando uma "terceira moeda" para o país. Com seu estilo acelerado, sempre sorridente, criou expectativas. Agora, retorna à arena política disposto ao que for necessário para voltar ao poder. Para isso, qualquer estratégia vale, o que está fazendo que muitos analistas o comparem ao Menem de 1989, quando este chegou ao poder acompanhado pelos setores de esquerda do peronismo, mas apoiado no establishment econômico conservador, com o qual finalmente ficou. Nas últimas duas semanas, Rodríguez Saá ofereceu a candidatura da vice-presidência ao centro-esquerdista diretor de cinema Fernando Solanas, de Tangos, o Exílio de Gardel e Sur, que recusou, surpreso pela oferta. Sem perder tempo, o hiperativo Rodríguez Saá ofereceu o cargo à líder sindical das aeromoças e deputada Alicia Castro, que também declinou do convite. Em sua trupe juntou militantes históricos de defesa dos direitos humanos com fascistas de carteirinha, e até os economistas republicanos americanos Allan Meltzer e Adam Merrick. Tudo com várias pitadas de nacionalismo e, de quebra, com um cenário que conta com uma iconografia que junta figuras históricas do peronismo a heróis da independência. A organização Mães da Praça de Maio está encantada com ele, já que durante sua semana de governo as recebeu na Casa Rosada e prometeu castigo aos repressores que causaram a morte de seus filhos durante a ditadura militar. Além das mães, diversos ex-integrantes dos Montoneros, grupo guerrilheiro que nos anos 70 teve um papel crucial na política argentina, estão seduzidos com o bizarro caudilho, a quem vêem como o homem capaz de fazer o peronismo retornar às origens populares. Mas, simultaneamente, enquanto flerta com as organizações de direitos humanos e setores da esquerda, fechou uma aliança com o ex-militar cara-pintada Aldo Rico, que nos anos 80 tentou fazer, sem sucesso, três rebeliões nos quartéis. Rico, atualmente prefeito de San Miguel, é o candidato de Rodríguez Saá ao governo da Província de Buenos Aires, e pretende vencer as eleições com um discurso de "mão pesada" com a crescente criminalidade. Rico também defende a repressão praticada durante o regime militar.

Agencia Estado,

24 Agosto 2002 | 19h07

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