'Rohani quer diminuir as tensões com EUA e Europa'

Para analista, novo presidente do Irã é um líder pragmático, mas deve manter apoio do país à Síria

Entrevista com

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h02

Hassan Rohani, presidente iraniano eleito em junho, que toma posse hoje, deve tentar tirar o país do isolamento diplomático, estendendo a mão para EUA, Europa e países árabes. Não haverá uma aproximação de Israel, mas as provocações devem acabar. O Irã não deixará de apoiar a Síria, mas Rohani pode facilitar um acordo que resulte na saída do presidente Bashar Assad.

Foi o que disse o analista Hooman Majd antes de embarcar de Nova York, onde vive, para Teerã, para onde viaja frequentemente. Aos 56 anos, de família de diplomatas, vivendo nos EUA desde a Revolução de 1979, ele é um dos poucos analistas independentes iranianos que têm podido voltar ao país, e manter contato direto com sua realidade. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Rohani pode mudar o

programa nuclear iraniano?

Não acredito que o programa mudará, mas sim a atitude em relação a soluções negociadas com o Ocidente. Há um amplo consenso no Irã de que nunca se deve abrir mão do direito ao enriquecimento de urânio e Rohani, certamente, refletirá essa visão. Mas acredito que Rohani e sua equipe conseguirão convencer outros no poder de que talvez algumas concessões quanto à escala do programa precisem ser feitas, para se chegar a um acordo sobre a questão nuclear, por exemplo limitando o enriquecimento a menos de 5%, mandando alguns estoques para fora do país ou mesmo concordando em implementar o Protocolo Adicional ao Tratado de Não-Proliferação (que permite inspeções mais intrusivas e sem aviso prévio), se outras condições forem atendidas, que garantam o direito soberano do Irã de ser tratado como qualquer outro signatário do TNP.

As sanções tiveram grande impacto econômico. As dificuldades mudaram o humor dos iranianos com o programa nuclear?

As dificuldades econômicas não mudaram o apoio popular ao programa nuclear. Embora os iranianos queiram que a questão seja resolvida, para que as sanções sejam levantadas e o país possa voltar a fazer negócios com o mundo, eles não estão dispostos a abrir mão dos direitos de sua nação em troca de uma melhoria na sua condição econômica. Claro que a forma como o governo Ahmadinejad lidava com a questão nuclear se mostrou impopular, mesmo entre conservadores, como os debates (eleitorais) demonstraram. Mas não parece que o povo iraniano esteja agora contra o programa ou queira que o governo aceite todas as exigências do Ocidente.

E a política externa iraniana, particularmente em relação a Israel, EUA e Síria?

Acredito que a política de engajamento (diplomático), nos planos regional e mundial, seja uma prioridade para o novo governo. As relações com os países árabes precisam ser melhoradas e há sinais de que Rohani queira diminuir as tensões com EUA e Europa. Isso não quer dizer que o Irã esteja preparado para ter relações com Israel, mas a retórica será diferente. Ouviremos menos sobre (o direito à) existência do Estado de Israel e sobre o Holocausto. Quanto à Síria, há uma oportunidade para envolver o Irã na elaboração de um plano de paz que inclua a saída de Bashar Assad. Mas não acho que o Irã vá retirar o apoio à Síria.

O fato de ele ser próximo do aiatolá Ali Khamenei pode ajudá-lo a promover mudanças?

Na verdade, Rohani não é visto como um radical. Nem reformista nem conservador. Ele tem mantido relações boas com ambos os lados do espectro político e goza de confiança, de maneira que sua proximidade com o líder supremo será uma vantagem na conquista de seus objetivos.

Como o sr. definiria Rohani ideologicamente e em comparação com Ahmadinejad?

Ideologicamente, ele é um revolucionário (partidário da Revolução Islâmica de 1979), embora experimentado e pragmático. Ele é muito religioso, um crente no Islã e no Islã político. Ao mesmo tempo, acredito que a visão dele de uma "democracia islâmica" esteja mais próxima da dos reformistas que dos conservadores. Ele não deixa a ideologia comprometer a razão ou o pragmatismo.

O sr. acha que Rohani

representa uma abertura?

Ele, com certeza, poderá promover uma abertura interna. Isso parece já estar acontecendo. É impossível dizer se os presos políticos serão soltos, já que ele não tem controle sobre o Judiciário. Mas ele tem indicado que gostaria de vê-los livres e acredita que liberdades individuais devam ser respeitadas. No Irã, o estado de ânimo do presidente se reflete, frequentemente, na forma de agir das forças de segurança, com algumas exceções. Houve uma razão para que as liberdades relativas da era Khatami ocorressem e há esperanças de que elas se repitam. Como em tudo, no entanto, prever como o Irã ficará socialmente é impossível, apesar de que o próprio Rohani, muitas vezes, colocou suas visões sobre as questões sociais e elas tiveram apelo sobre os iranianos reformistas - que, no fim, foram os que votaram nele.

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