Cláudia Trevisan/Estadão
Cláudia Trevisan/Estadão

Rolling Stones fecham ‘semana do improvável’

Show da banda de rock britânica na ilha será gratuito e atrai atenção especial de juventude que já busca contato com ícones pop do mundo

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Havana, O Estado de S. Paulo

19 de março de 2016 | 18h00

Os cubanos começarão a semana com a visita do presidente dos EUA e a terminarão com um show dos Rolling Stones, dois símbolos da cultura estrangeira que até pouco tempo eram combatidos pelo governo de Havana. Tatuador há 15 anos, Oscar Rodríguez espera que a passagem de Barack Obama tenha efeitos positivos, mas manifesta entusiasmo maior pela banda de rock britânica.

“Não há dúvida de que irei vê-los”, disse, enquanto desenhava uma rosa vermelha no quadril de Dorel García. Rodríguez começou a se tatuar em 1994, quando a prática estava longe de ser aceita em Cuba. Alguns anos depois, ele a transformou em seu ganha-pão. O que era transgressor, começou a ser aceito há meia década. Hoje, o uso da tatuagem é comum na paisagem urbana de Havana.

O estúdio de Rodríguez fica em um pequeno quarto no segundo andar da casa que divide com a mãe. A porta de entrada é coberta por uma bandeira cubana. Na parece, há outra dos EUA, que ele disse ter ganho recentemente de um amigo. 

Em suas pernas, Rodríguez tem imagens inspiradas em desenhos japoneses. Os braços são do que chama de “velha escola” dos EUA, sua preferida. Mesmo em Cuba, o tatuador de 42 anos não ficou imune à rivalidade musical que dominou o Ocidente nos anos 60 e 70 e disse preferir os Stones aos Beatles.

O ex-militar Héctor Valdéz, de 70 anos, está do outro lado da trincheira e é fã da banda de John Lennon e Paul McCartney. Segundo ele, o gosto musical lhe valeu uma punição de Raúl Castro quando o atual presidente de Cuba comandava o Exército. Na sexta-feira, Valdéz ficará em casa e não verá o show dos Rolling Stones.

Com a abertura e a ampliação do acesso à informação, os jovens de Havana vão muito além do rock tradicional. Há duas semanas, milhares de pessoas se reuniram na Tribuna Anti-Imperialista para um show de música eletrônica comandado por um DJ europeu.

Entre elas estava Julio César García, um dançarino profissional de 24 anos. Com brincos nas duas orelhas, cavanhaque, cabelo preso, calça jeans e tênis All Star, García é um dos símbolos da estética jovem cubana, na qual os homens se dedicam à aparência tanto quanto as mulheres – barbeiros especializados em penteados elaborados são um dos negócios que crescem mais rapidamente na ilha. 

Integrante do grupo Amarte, García já se apresentou na Finlândia e tem parentes que vivem nos EUA. Na quinta-feira, estava com outros artistas no Malecón, calçadão à beira-mar que é um espécie de praia no asfalto dos cubanos. 

Com o título de “Concerto pela Amizade”, o show dos Rolling Stones na capital cubana será gratuito e ocorrerá ao ar livre na Cidade Desportiva de Havana. Em um país onde o salário médio é equivalente a US$ 20, a não cobrança de entrada será crucial para a garantia de público.

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