Romney concentra ataques em política externa de Obama

Em discurso, candidato republicano relativiza sucessos do democrata na área e critica reação à morte de embaixador na Líbia

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2012 | 03h01

O candidato republicano à Casa Branca, Mitt Romney, fez ontem uma série de críticas à política externa de seu rival nas urnas e presidente do país, o democrata Barack Obama. Na opinião do republicano, o presidente falhou ao lidar com o Irã, a Líbia, a atual guerra civil na Síria, a retirada militar do Iraque e o processo de paz entre Israel e Palestina. Romney insistiu "que a esperança não é uma estratégia" e prometeu não permitir cortes no orçamento do Pentágono.

"Eu sei que o presidente espera por um Oriente Médio mais seguro, livre e próspero, com os EUA como seus aliados. Eu compartilho dessa esperança. Mas esperança não é estratégia", afirmou. "Nós não podemos apoiar nossos amigos e derrotar nossos inimigos no Oriente Médio quando nossas palavras não são sustentadas em fatos, nosso orçamento de Defesa é cortado de forma arbitrária e profunda, quando não temos agenda de comércio e quando nossa estratégia não é percebida como de parceria, mas de passividade."

Romney escolheu o Instituto Militar de Virgínia, em Lexington, para fazer seu principal discurso sobre política externa e defesa. O tema deverá ser questionado por Obama nos próximos debates, com audiência de dezenas de milhões de americanos. Em discursos anteriores, a plateias militares e de veteranos, Romney já explorara o desejo de parte dos americanos de ver recuperada a ação hegemônica dos EUA no mundo. "A segurança da América e a causa da liberdade não podem desperdiçar mais quatro anos com a mesma política", insistiu.

Suas principais críticas à política exterior do governo democrata concentraram-se na Líbia, em especial no episódio do ataque ao consulado americano em Benghazi, em setembro, que resultou na morte do embaixador Jay Christopher Stevens e de outros três funcionários do Departamento de Estado.

Para Romney, Obama demorou demais para atribuir a violência a terroristas e enxergar que a rejeição à presença dos EUA estava disseminada em vários países da região. "Os ataques contra a América, no mês passado, não podem ser vistos como aleatórios", disse.

O discurso do republicano foi pontuado por críticas duras a decisões tomadas pelo governo de Obama. Mas não apontou com clareza as alternativas a serem adotadas em um eventual governo de Romney. O candidato afirmou que não hesitaria em aplicar mais sanções contra o Irã, como meio de forçá-lo a renunciar a seu programa nuclear, e criticou a ausência de maior respaldo dos EUA a Israel. Não chegou, porém, a mencionar se respaldaria um ataque de Israel às instalações atômicas iranianas. Tampouco indicou sua abordagem para obter de palestinos e israelenses um acordo de paz.

Al-Qaeda. Romney considerou como louváveis os trabalhos das forças militares e de inteligência americanas na guerra contra a Al-Qaeda no Paquistão e no Afeganistão. Mas não atribuiu sucessos alcançados, entre eles a morte do líder terrorista Osama bin Laden, ao governo Obama. Preferiu, ao contrário, sublinhar que a Al-Qaeda continua forte no Iêmen, Somália, Líbia e Síria, assim como outros grupos do terror continuam a ganhar terreno na região. "Aviões não pilotados e instrumentos modernos de guerra são importantes na nossa luta, mas não substituem uma estratégia de segurança nacional para o Oriente Médio", afirmou.

A América Latina recebeu pouca atenção de Romney, que criticou Obama por não ter apoiado os setores que resistem "à ideologia falida de Hugo Chávez e dos irmãos (Raúl e Fidel) Castro". Chávez fora reeleito no dia anterior presidente da Venezuela. O Brasil e a Índia, duas das maiores potências emergentes, foram ignorados no discurso. A China foi mencionada como potencial ameaça à paz na Ásia, mas Romney prometeu "ser flexível" com Vladimir Putin, presidente da Rússia, se for eleito em novembro.

O time de conselheiros de Romney para a área internacional é comandado pelo ex-presidente do Banco Mundial e ex-representante de Comércio dos EUA Robert Zoellick, já apontado como o provável secretário de Estado de um eventual governo republicano. Entre os apoios recebidos por Romney estão o de Henry Kissinger, ex-secretário de Estado.

Críticas. As visões sobre política externa entre os republicanos, entretanto, não são tão unificadas quanto os temas fiscais. O próprio Kissinger considerou "deploráveis" as posições de Romney e de Obama sobre a China. Outro setor do partido acredita haver limites claros ao que os EUA possam fazer no mundo atual. Mas o diretor de política exterior da campanha de Romney, Alex Wong, acredita ser possível "restaurar a estratégia que bem nos serviu nos últimos 70 anos".

Em entrevista à imprensa organizada pela campanha de Obama, a ex-secretária de Estado Madeleine Albright afirmou que teria dado uma nota média para Romney, se o candidato fosse seu aluno. "Ele foi muito superficial. Seu discurso foi cheio de platitudes e sem substância", afirmou Albright. "Eu gostaria de perguntar o que ele fará de diferente."

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