Romney e a fúria de Putin

Retórica agressiva do candidato republicano pode fazer da Rússia, de fato, o principal inimigo geopolítico dos EUA

James Traub, de Foreign Policy , O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2012 | 03h03

WASHINGTON - Será que há uma forma de entendermos a afirmação de Mitt Romney de que a Rússia é "nosso inimigo geopolítico número um" como outra coisa que não seja uma ridícula nostalgia da Guerra Fria? A própria ideia de um "inimigo geopolítico" é quase um anacronismo na época em que os EUA enfrentam ameaças maiores de entidades sem Estado e de rivais econômicos como a China.

Em entrevista à CNN, Romney disse que, sempre que os EUA recorrem à ONU para impedir que um ditador massacre seu povo, quem surge para defendê-los é a Rússia - quem poderia imaginar que Romney acreditasse na ONU? O Washington Post considerou a declaração grosseira, porque a Rússia "não vetou as resoluções contra Irã e Coreia do Norte. É verdade que Moscou, junto com Pequim, obstruiu os esforços para deter a violência no Sudão, em Mianmar, no Zimbábue e na Costa do Marfim. De acordo com os critérios de Romney, pode-se dizer que a China é um inimigo geopolítico, mas isto seria confundir um rival com um inimigo.

A China desrespeita os direitos de seu próprio povo muito mais do que a Rússia, mas a consciência não exige que ela declare guerra a outros países, muito menos aos EUA. A Rússia, ao contrário, exige inimigos. Em 2007, em Munique, o presidente Vladimir Putin atacou energicamente os EUA como a fonte de "um uso quase incontido da força que "mergulhava o mundo em um abismo de conflitos permanentes".

Evidentemente, ele não é o único líder que deplorava o militarismo do governo de George W. Bush, mas Putin intensificou sua retórica desde então, acusando a secretária de Estado, Hillary Clinton, de instigar a violência na Rússia. Putin não hesitaria em identificar os EUA como o inimigo geopolítico número um da Rússia. Ele demoniza Washington, defende assassinos como Bashar Assad e é tolerante com o Irã.

Se Putin sempre agisse da maneira como fala, a Rússia poderia ser mesmo o inimigo geopolítico número um dos EUA. Mas ele não faz isto. Em 2010, Moscou concordou em impor rigorosas sanções ao Irã e cancelou a venda a Teerã do sistema antimíssil S-300. Assinou o novo tratado sobre controle de armas Start e permitiu o trânsito de tropas americanas do Afeganistão pela Rússia.

Apesar de todas as suas bravatas, Putin demonstrou que colaborará com Washington em questões em que os interesses russos e americanos sejam convergentes. Romney diz que a "reformulação" da política do governo de Barack Obama com a Rússia não mudou o comportamento de Moscou, mas esse é o parâmetro errado. O objetivo era reduzir o antagonismo que aumentara na esteira da invasão russa da Georgia, em 2008, para que Putin se concentrasse mais em interesses comuns e menos em exigir o fracasso dos EUA para a Rússia ser bem-sucedida. Foi o que ocorreu.

Putin continua calculista e realista quando se trata dos interesses russos, mas a má notícia é que, com o novo confronto com ativistas pró-democracia, no plano interno, ele está se tornando mais agressivo em relação ao resto do mundo.

Um segundo mandato democrata se preocupará mais em fortalecer os laços com aliados tradicionais e menos em tentar converter adversários. Romney afirma que reexaminará a implementação do novo Start e estudará o plano de defesa contra mísseis na Europa, que a Rússia considera uma ameaça. Evidentemente, Putin receberá toda tentativa cercear a Rússia como uma provocação direta. Ele procura provocações para responder a elas. Em suma, se eleito, Romney pode transformar a Rússia no inimigo geopolítico que ele afirma que ela já é. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA   * É pesquisador do Centro para a Cooperação Internacional

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