Romney não estudou a lição de casa

Republicano, que pode vir a se tornar presidente dos EUA, não consegue entender porque alguns países são ricos e fortes e outros pobres e fracos

JARED DIAMOND, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2012 | 03h04

O comentário mais recente e controvertido feito por Mitt Romney sobre o papel da cultura para explicar o motivo pelo qual alguns países são ricos e poderosos enquanto outros são pobres e fracos provocou muita polêmica. Eu me interessei particularmente por seu comentário, pois ele distorceu meus pontos de vista e, ao contrapô-los aos argumentos de outro especialista, simplificou excessivamente a questão.

Não é verdade que meu livro Guns, Germs and Steel, segundo a citação de Romney num discurso em Jerusalém, "afirma basicamente que as características físicas das regiões da terra explicam os diferentes graus de sucesso dos povos que as habitam. Na terra há minério de ferro, etc".

Essa afirmação é tão diferente da que faço no livro que duvido que Romney o tenha lido. Eu falava essencialmente das características biológicas, como as espécies vegetais e animais, e, entre as características físicas, mencionava as dimensões e as formas dos continentes e o relativo isolamento. Não falei a respeito do minério de ferro, tão difundido que sua distribuição pouco influiu nos diferentes graus de sucesso dos diferentes povos (como soube esta semana, Romney também descaracterizou o meu livro em suas memórias No Apology: Believe in America). Mas essa não é a parte pior.

Até especialistas que enfatizam as explicações sociais em relação à geográficas - como o economista de Harvard, David S. Landes, cujo livro The Wealth and Poverty of Nations foi mencionado favoravelmente por Romney - devem achar perigosamente ultrapassada a afirmação de Romney de que "a cultura é responsável por toda a diferença". Na realidade, Landes analisou múltiplos fatores (como o clima) ao explicar o motivo pelo qual a revolução industrial ocorreu primeiramente na Europa e não em outra parte do mundo.

Assim como um casamento feliz depende de variados fatores, o mesmo ocorre com a riqueza e o poderio nacional. Com isso não pretendo negar a relevância da cultura. Alguns países têm instituições políticas e práticas culturais - um governo honesto, a norma da lei, oportunidades para a acumulação de dinheiro - que recompensam o trabalho árduo.

Outros não têm. Exemplos conhecidos são os contrastes entre países vizinhos que compartilham de ambientes semelhantes, mas têm instituições muito diferentes - é o caso da Coreia do Sul em relação à Coreia do Norte. Países ricos e poderosos em geral têm boas instituições que recompensam o trabalho árduo. Mas instituições e cultura não constituem a única resposta, pois alguns países que têm notoriamente instituições ruins (como a Itália e a Argentina) são ricos, enquanto alguns países virtuosos (como a Tanzânia e o Butão) são pobres. Entre outros fatores está a geografia, que abrange aspectos muito mais numerosos do que as características físicas menosprezadas por Romney.

Um dos fatores geográficos é a latitude, que hoje influi poderosamente na riqueza e na pobreza: os países tropicais em geral são mais pobres do que os países das zonas temperadas. Entre os motivos há os efeitos debilitantes das moléstias tropicais para a expectativa de vida e o trabalho, e a produtividade média baixa da agricultura e dos solos nos trópicos, em comparação às zonas temperadas.

Um segundo fator é o acesso ao mar. Os países sem saída para o mar ou sem grandes rios navegáveis em geral são mais pobres, pois os custos do transporte por terra ou pelo ar são muito maiores do que os custos do transporte por mar.

Um terceiro fator geográfico é a história da agricultura. Se um extraterrestre tivesse visitado a terra no ano 2000 a.C., teria observado que o governo centralizado, a escrita e as ferramentas de metal eram bastante difundidas na Eurásia, mas ainda não haviam surgido no Novo Mundo, na África Subsaariana ou na Austrália. Essa vantagem faria com que o visitante previsse corretamente que, hoje, os países mais ricos e mais poderosos do mundo seriam predominantemente os países eurasiáticos (e suas colônias na América do Norte, Austrália e Nova Zelândia).

Cultivo. A razão é o efeito histórico da geografia: há 13 mil anos, todos os povos em todas as partes da terra eram coletores e caçadores que viviam em populações esparsas sem um governo centralizado, sem exércitos, escrita ou ferramentas de metal. Esses quatro sustentáculos do poder surgiram como consequência do desenvolvimento da agricultura, que provocou explosões populacionais e acumulações de excedentes de alimentos para líderes, soldados, escribas e inventores. Mas a agricultura só poderia se originar nas poucas regiões dotadas de muitas espécies vegetais e de animais selvagens que podiam ser domesticados, como por exemplo arroz selvagem, trigo, porcos e gado.

Em suma, as explicações geográficas e as explicações culturais e institucionais não são independentes entre si. Evidentemente, nem todas as regiões agrícolas chegaram a ter governos centralizados honestos, mas nenhuma região não agrícola jamais chegou a ter um governo centralizado, honesto ou não. É por isso que as instituições que hoje promovem a riqueza surgiram em primeiro lugar na Eurásia, a região com a agricultura mais antiga e mais produtiva.

O que isso significa para os americanos? Podemos supor que os EUA, abençoados por um clima temperado, costas marítimas e rios navegáveis, continuarão ricos para sempre, enquanto os países tropicais ou sem saída para o mar estão condenados à pobreza eterna? Evidentemente não. Alguns países tropicais e subtropicais tornaram-se mais ricos apesar das limitações geográficas. Eles investiram na saúde pública para vencer suas doenças (Botsuana e as Filipinas). Investiram em culturas adaptadas aos trópicos (Brasil e Malásia). Concentraram suas economias em outros setores que não a agricultura (Cingapura e Taiwan).

Por outro lado, as vantagens geográficas não garantem o sucesso permanente, como mostram as crescentes dificuldades na Europa e nos EUA. Os americanos não oferecem uma formação superior e incentivos econômicos a grande parte de sua população. Índia, China e outros países que não têm sido líderes mundiais estão investindo consideravelmente em educação, tecnologia e infraestrutura. Estão oferecendo oportunidades econômicas a um número crescente de cidadãos. Esta é, em parte, a razão pela qual os empregos estão indo para o exterior. A geografia não os manterá ricos e poderosos se não tiverem uma excelente educação, se não puderem ter acesso à assistência médica e não puderem contar com a possibilidade de que o árduo trabalho seja recompensado com bons empregos e uma renda maior.

Talvez Romney se torne o próximo presidente dos EUA. Continuará pretendendo explicar com um único fator problemas que têm causas múltiplas, e não compreendendo a história e o mundo moderno? Se isso acontecer, presidirá uma nação em declínio que desperdiça as vantagens de sua localização e de sua história. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA *É ESCRITOR E PROFESSOR DE GEOGRAFIA NA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA

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