Romney tropeça no Oriente Médio

Ao chamar mulás de ‘gente maluca’ e considerar inviável um Estado palestino, republicano mostra estar próximo de Bibi

DAVID E. SANGER*, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2012 | 03h08

Ninguém jamais teve ilusões quanto à posição de Mitt Romney no tocante aos dois problemas mais explosivos no Oriente Médio: a discussão envolvendo a criação de um Estado palestino e o debate sobre o que deve ser feito para assegurar que o Irã não se arme com uma bomba nuclear. Em ambos os casos, Romney adota posições muito próximas às do premiê de Israel, Binyamin "Bibi" Netanyahu, seu amigo desde a época em que eram jovens consultores em Boston.

Se for eleito presidente em novembro e se envolver nas negociações sobre um futuro Estado palestino na fronteira com Israel, Romney poderá descobrir que seu comentário durante um evento de arrecadação de fundos de campanha, gravado em vídeo, segundo o qual "de nenhuma maneira um Estado separado será viável", pode prejudicar sua capacidade de unir os dois lados. E qualquer negociação com os mulás poderá não ser facilitada, já que ele se referiu a eles como "gente maluca".

Em entrevistas, os assessores de Romney, na sede da campanha em Boston, procuraram não dar importância aos comentários. Disseram que não há nenhuma novidade nas suas afirmações sobre o Irã e Romney simplesmente está defendendo uma estratégia mais confiável que provoque temor na liderança iraniana. Acrescentaram que a posição do candidato sobre a questão palestina não mudou: ele acredita numa solução de dois Estados na forma endossada pelo presidente George W. Bush no início da sua presidência.

Nos dois casos, da Palestina e do Irã, os assessores declararam que o problema na verdade é o presidente Barack Obama, que, segundo eles, não tem sido duro o suficiente com o Irã e deixou o processo de paz do Oriente Médio definhar, agravando o problema ao afastar os EUA de Israel, deixando seu aliado inseguro e sem disposição para negociar.

Um dos assessores, Alex Wong, disse que, para Romney, embora o presidente Obama afirme que a opção militar no caso do Irã está em discussão, "ele está mais preocupado com um ataque israelense ao Irã, do que em impedir que o Irã se dote de armas nucleares".

Os comentários de Mitt Romney, gravados em vídeo, deixaram uma forte impressão de que, para ele, um Estado palestino, próximo de cidades economicamente vibrantes e vitais de Israel, é impraticável.

Ele afirmou que há algum tempo "sente que os palestinos não têm nenhum interesse em estabelecer a paz e concluir o caminho na direção da paz é impensável".

Romney disse ter imaginado um mapa onde "a fronteira ficaria talvez a cerca de 11 quilômetros de Tel-Aviv", e "no outro lado do que seria o novo Estado palestino estaria a Síria num ponto ou a Jordânia". "E naturalmente os iranianos gostariam de fazer, através da Cisjordânia, o mesmo que fizeram no Líbano, o que fizeram em Gaza", disse o candidato, "ou seja, os iranianos gostariam de introduzir mísseis e armamentos na Cisjordânia e assim ameaçar Israel".

Se Israel patrulhasse a fronteira, prosseguiu, "os palestinos diriam 'Absolutamente. Somos um país independente. Vocês não podem vigiar a nossa fronteira com outras nações árabes'".

"E quanto a um aeroporto? Como será o tráfego aéreo nesta nação palestina? Vamos permitir que aviões militares cheguem e armamentos também? E caso contrário, quem vai impedir que isso ocorra? Bem, os israelenses. E os palestinos dirão 'não somos uma nação independente se Israel tiver poderes para chegar aqui e nos dizer quem pode aterrissar no nosso aeroporto'".

E ele concluiu: "Vejo que os palestinos não querem a paz de maneira alguma por motivos políticos, comprometidos com a destruição e eliminação de Israel, e essas questões espinhosas, e afirmo, não existe nenhuma maneira".

Romney afirmou que o melhor que se pode esperar é "alguma estabilidade, mas é preciso reconhecer que este continuará sendo um problema sem solução".

Os palestinos, é claro, têm uma opinião diferente. Yehia Moussa, membro do Hamas em Gaza, afirma que os EUA "nunca foram adequados" como árbitros na disputa entre israelenses e palestinos porque os americanos instintivamente se colocam do lado de Israel.

"Estamos notando um novo tipo de aliança entre o lobby sionista e os americanos de direita que acreditam nas lendas e prognósticos sionistas", disse Moussa. "Romney faz parte disso".

O porta-voz de Netanyahu, Mark Regev, disse que o premiê não se manifestará a respeito.

Quanto ao Irã, Romney ofereceu um argumento - com frequência repetido por especialistas de ambos os partidos - de que o maior risco do programa nuclear iraniano é que o Irã pode fornecer a grupos terroristas meios para fabricarem uma bomba nuclear ou "uma bomba suja", uma arma convencional envolta em material radioativo que pode tornar partes de uma cidade inabitáveis. Mas o problema está em como ele caracteriza a liderança iraniana. "Os EUA podem ser acuados e chantageados pelo Irã, pelos mulás, por pessoas malucas", afirmou. "De modo que realmente não temos outra opção, senão impedir o Irã de se dotar de uma arma nuclear."

Os assessores de Romney não disseram se ele acha que os líderes iranianos são atores racionais que podem ser submetidos a uma pressão. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

*É COLUNISTA DE POLÍTICA EXTERNA

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