VANESSA VIEIRA/ESTADAO
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Roraima sofre ‘invasão’ venezuelana

Fugindo da crise, cidadãos da Venezuela atravessam fronteira não só para fazer compras, mas também para ganhar algum dinheiro em semáforos

Vanessa Vieira, Especial para O Estado / Boa Vista, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2016 | 05h00

Em um dos cruzamentos mais movimentados de Boa Vista, capital de Roraima, dois homens, de 20 e 30 anos, vendem carregadores de celular. Estão na Avenida Venezuela, mesmo nome do país que abandonaram recentemente. Assim como os dois, que não revelam o nome, outros conterrâneos buscam no Estado do extremo norte do Brasil uma alternativa para sobreviver à crise do país vizinho.

Na mesma avenida, outro venezuelano também encontra na informalidade uma maneira de pôr comida na mesa da família. Por mês, ele consegue dinheiro suficiente para sustentar os parentes, que ainda estão na Venezuela. Às vezes, manda dinheiro, outras, compra comida no Brasil e manda para a família.

Centenas de venezuelanos estão atravessando a fronteira em busca de alimentos, produtos de limpeza e até de higiene pessoal. O caminho é o inverso ao feito por brasileiros anos atrás. Roraimenses, em sua maioria, iam a Santa Elena de Uairén, primeira cidade venezuelana, fazer as compras do mês em razão dos preços baixos.

Hoje, Roraima é o refúgio dos venezuelanos. Em Pacaraima, na fronteira com o país presidido por Nicolás Maduro, o comércio está funcionando todos os dias. O preço de alguns alimentos quase dobrou nos últimos meses. Nas ruas da cidade, é possível ver fardos e mais fardos de arroz, açúcar, feijão e trigo.

Algumas empresas de Pacaraima estão vendendo produtos além do permitido no registro na Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz), que realiza vistoria no município para evitar abusos. Farmácias, por exemplo, estão vendendo alimentos.

Em Boa Vista, a situação não é muito diferente. Os venezuelanos procuram os “atacadões” e distribuidoras para comprar principalmente alimentos, como feijão, arroz, macarrão, leite, frango e óleo, o que já causa um aumento de 20% nas vendas. “A situação está muito difícil na Venezuela”, lembra um dos ambulantes.

Ele, assim como os dois jovens, está de maneira irregular no Brasil. Quem preferiu deixar a Venezuela e escolheu Roraima para morar, precisa de visto, que pode ser de estudo, trabalho, turismo ou negócios. 

“Nossa situação ainda não está regular, então, temos de arranjar alguma maneira de conseguir dinheiro”, disse o jovem de 20 anos em um “portunhol” de difícil compreensão. Quem não vende alguma coisa no semáforo, pede. É o caso de dezenas de indígenas, que pedem dinheiro de carro em carro.

Mas quem está nessa situação pode ser deportado a qualquer momento. Somente nesta semana, a Polícia Federal deportou 25 venezuelanos, incluindo indígenas abordados nas ruas de Boa Vista. Eles foram “flagrados sem documentação regular de estada no Brasil, alguns pedindo esmolas ou vendendo produtos nas ruas e semáforos”. 

Eles se juntam aos mais de 250 estrangeiros deportados de setembro de 2015 a abril deste ano. O prazo de estada máximo de um estrangeiro no Brasil, em viagem de turismo ou viagem a negócios, é de 90 dias, concedidos na entrada com a possibilidade de uma prorrogação de até outros 90 dias, totalizando o máximo de 180 dias por ano.

Há ainda quem escolha outra alternativa. O número de prostitutas também cresceu na cidade, principalmente na periferia. No bairro Caimbé, zona oeste de Boa Vista, é possível ver mulheres fazendo ponto às 10 horas da manhã. Quem mora perto, diz que quase todas são estrangeiras.

Veja abaixo: Venezuelanos vão em massa à Colômbia

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