Gianni Cipriano/The New York Times
Navio Aberdeen, apreendido em junho de 2014 com 42 toneladas de haxixe em Trapani, na Itália Gianni Cipriano/The New York Times

Rota de drogas no Mediterrâneo passa por território do Estado Islâmico

Autoridades italianas descobriram há poucos anos uma rota de tráfico lucrativa ao longo da costa do norte da África, região disputada por grupos armados rivais

Rukmini Callimachi e Lorenzo Tondo*, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2016 | 07h00

PALERMO, ITÁLIA - Os investigadores da unidade antidrogas da Itália estavam acostumados a medir o fluxo de haxixe dos campos marroquinos para as costas europeias, seja em lanchas como em jet-skis. Mas quando um telefonema informou que um enorme cargueiro carregado com a droga navegava em águas internacionais ao sul da Sicília com destino à Líbia, o investigador Francesco Amico soube imediatamente que algo estranho estava acontecendo.

Não apenas estranho, mas enorme. Quando dois navios de guerra da Marinha italiana pararam o Adam, no dia 12 de abril de 2013, os agentes descobriram uma tripulação síria aterrorizada e 15 toneladas de haxixe, carga infinitamente maior do que as autoridades italianas jamais haviam visto. "Havia tanta droga que não sabíamos onde colocá-la. Tivemos que procurar um armazém para alugar", disse Amico, que esperou pela chegada do navio escoltado no porto siciliano de Trapani.

As autoridades italianas haviam encontrado uma rota de tráfico nova e lucrativa ao longo da costa do norte da África, em uma área disputada por grupos armados rivais, incluindo o Estado Islâmico (EI).

O Adam foi o primeiro dos 20 navios que seriam interceptados nessa rota nos 32 meses seguintes, segundo as autoridades. O total da carga ultrapassava as 280 toneladas de haxixe, avaliada em US$ 3,2 bilhões, cerca da metade do que foi apreendido em toda a Europa continental em 2015, de acordo com o Centro de Vigilância de Drogas e do Vício da União Europeia.

Então, as informações pararam de chegar e as apreensões cessaram. A investigação italiana, que já incluía outros países europeus e o órgão americano de combate às drogas, o DEA, não apreendeu nenhum navio nessa rota em 2016, embora as autoridades acreditem que o tráfico continua.

Agora, enquanto tentam entender o que acontece com os carregamentos enormes, os italianos estão se debatem com um mistério que tem provocado muitas perguntas, mas fornecido poucas respostas.

Uma coisa que sabem é que as drogas não paravam na Líbia. Os produtores marroquinos usam logotipos individualizados, como um escorpião ou um cifrão, o que ajudava os investigadores a descobrir a rota dos carregamentos depois que deixavam o país, viajando ao longo de uma rota terrestre através do Egito e então para a Europa, através dos Bálcãs.

Mas os investigadores ainda não têm certeza do que acontecia quando as drogas eram repassadas. A partir de interrogatórios e vigilância, eles sabem que a rota cruzava um território que, até algumas semanas atrás, pertencia ao EI - que tributa carregamentos de drogas e outros bens na Síria e no Iraque.

O fato levou os investigadores italianos a começar a fazer perguntas que esperavam nunca serem necessárias. Será que o EI ou algum outro grupo estaria lucrando com a rota das drogas ao tributá-las? O caos causado por milícias na Líbia estaria proporcionando a oportunidade aos traficantes de drogas de escolher uma rota da qual as autoridades não suspeitassem, ou os grupos com base na Líbia estariam mais diretamente envolvidos? A investigação continua.

"Quando chega à Líbia, perdemos o controle", disse o Tenente Coronel Giuseppe Campobasso, que chefia a unidade siciliana de combate às drogas, Guardia di Finanza, a força policial financeira italiana que conduziu as buscas pelos navios.

Após a apreensão do Adam, os investigadores interrogaram seus tripulantes, que insistiram que não sabiam que o haxixe estava nos 591 sacos plásticos que foram encontrados no convés do navio. O capitão da embarcação testemunhou que acreditava estar transportando ajuda humanitária, trazida a bordo pela tripulação de uma lancha que se aproximou deles na costa do Marrocos e insistiu que levassem os sacos, de acordo com a transcrição de seu depoimento para os investigadores.

Para saber mais, os investigadores - que têm décadas de experiência em lidar com a máfia siciliana - decidiram colocar escutas nas celas onde os seis membros da tripulação estavam presos. Ao longo de meses de vigilância, Amico começou a perceber a trajetória da rota do tráfico e o mistério da fortaleza militante na costa da Líbia por onde ela passava.

Desde a deposição do líder líbio Muamar Kadafi em 2011, partes da Líbia ao longo do litoral se tornaram um campo de batalha para grupos militantes rivais. Até 2014, eles incluíam um braço do EI na Líbia, que, em vários momentos, teve bases nas cidades de Benghazi, Derna e especialmente em Sirte, em parte recuperada por forças pró-governo.

As autoridades italianas acreditam que essas cidades eram o destino de alguns dos carregamentos da droga, embora outras embarcações apreendidas indicassem que iam para o porto líbio de Tobruk, controlado por um grupo de rebeldes que luta contra o EI.

Para os investigadores, pelo menos em alguns casos, o grupo terrorista teria sido capaz de cobrar um imposto para a permissão da passagem da droga. O fato coincide com os métodos de negócios do EI em seus redutos na Síria e no Iraque, onde, de acordo com um estudo do IHS Country Risk, 7% da receita do grupo em 2015 veio da produção, da tributação e do tráfico de drogas.

Contudo, as autoridades admitem que não sabem qual o papel do EI nos carregamentos de haxixe. "Ninguém foi testemunha ocular de nada para fechar questão. O que podemos dizer, ou razoavelmente inferir, é que eles controlam tudo que passa pelos locais dominados por terroristas, incluindo qualquer tipo de tráfico, seja de armas ou de drogas", disse Masood Karimipour, representante regional do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime para o Oriente Médio e o Norte da África.

Ao analisar as fitas de segurança da tripulação encarcerada do cargueiro Adam, Amico e o resto de sua equipe começaram a se perguntar se as drogas faziam parte de um esquema maior, talvez envolvendo armas. Eles descobriram que o navio havia começado sua viagem pelo Mediterrâneo no Chipre, onde pegou quatro contêineres de "mobília", destinados a Benghazi. Depois de deixar a carga, o navio seguiu para Marrocos, pegou 15 toneladas de haxixe e retornou para a Líbia.

A partir de outros comentários da tripulação, Amico e sua equipe começaram a acreditar que a "mobília" era um carregamento de armas, disse ele, ideia aceita por dois dos promotores envolvidos no caso. "A Líbia não é uma terra onde as pessoas consomem haxixe. Portanto, a carga de drogas é definitivamente um método de pagamento, um tipo de moeda", disse o vice-promotor Maurizio Agnello.

Nos últimos meses, no entanto, a investigação italiana estagnou. A maioria das informações vinha de autoridades francesas, que estavam enfrentando uma onda de ataques terroristas em casa, e quando as denúncias terminaram, as apreensões também cessaram. Nenhum navio foi interceptado nessa rota em 2016, embora os investigadores acreditem que ela ainda esteja sendo usada.

Eles se dizem preocupados com a falta de certeza sobre quem controla a nova rota. "Se ela fosse controlada pela máfia, saberíamos como lidar com isso, pois a conhecemos bem", disse Agnello, cujo escritório fica em um edifício imponente em Palermo, reduto da máfia siciliana, que durante anos controlou o haxixe que chegava de Marrocos via Espanha.

Quando se trata do possível envolvimento de grupos terroristas, ele diz : "Isso nos assusta porque eles não têm limites. Eles fazem coisas que seriam impensáveis para um mafioso”.

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