Thanassis Stavrakis / AP
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Roteiro populista

No seu âmago está um impulso de retorno às origens, nostalgia de um passado ‘bom’

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2019 | 06h30

Berço da democracia, a Grécia foi a precursora da atual onda de populismo, com a eleição, em 2015, do premiê Alexis Tsipras, do movimento Coalizão da Esquerda Radical (Syriza). No último domingo, os eleitores gregos puseram fim a esse experimento, trazendo de volta a Nova Democracia, de centro-direita.

Como já escrevi nesta coluna, não se deve extrapolar experiências de um país para outro, e a noção de “tendência” é simplista demais num mundo tão complexo e diverso. Mas isso não nos impede de reconhecer, na tragicomédia grega, o roteiro que o populismo costuma seguir, em qualquer tempo e lugar, entre a fantasia e o choque com a realidade. Tsipras elegeu-se no auge da crise da dívida, prometendo atropelar as exigências dos credores internacionais de corte nos gastos e aumento nos tributos. Depois de eleito, ainda submeteu os gregos a um ridículo plebiscito, no qual venceu sua proposta de recusar o plano de resgate dos credores.

Semanas depois, o governo em Atenas se resignou à falta de alternativa e passou a aplicar a receita. As contas começaram a se acertar, e a economia, a crescer, após uma década de recessão. Os eleitores gregos chegaram então a uma conclusão óbvia: se é para seguir as regras da economia, então pelo menos que seja com alguém que não briga com elas.

O futuro premiê, Kyriakos Mitsotakis, estudou Relações Internacionais em Stanford, fez MBA na Harvard Business School, trabalhou na empresa de consultoria McKinsey e no banco Chase Manhattan, entre outros. Promete vencer o desemprego de 18% melhorando o ambiente de negócios e cortando impostos sem desequilibrar as contas públicas, algo que os credores e a Comissão Europeia vigiarão com lupa.

A sorte dos gregos foi imensa, pois, como aconteceu com o então presidente Lula, Tsipras abandonou a rebeldia juvenil contra as leis da economia que nutria e assumiu, não sem antes relutar um pouco, as responsabilidades de governante. Se o ciclo petista tivesse durado 4 anos, como na Grécia, em vez de 13, provavelmente não teríamos cavado um buraco tão profundo.

O Syriza foi precursor dos movimentos populistas na Europa. Não pela sua identificação de esquerda, mas pela sua hostilidade ao globalismo e às convenções políticas. O populismo tem florescido mais com uma coloração de direita do que de esquerda (com exceção do M5S na Itália). Mas suas plataformas têm muito em comum.

No seu âmago está um impulso de retorno às origens, uma nostalgia de um passado supostamente bom, que ou só era bom para um grupo ou nunca foi tão bom assim.

Há a condição real de camadas da população prejudicadas pela globalização, e os governos precisam adotar políticas compensatórias para incluí-las. E há a manipulação desse sentimento, por parte de políticos malandros, que atropelam as regras - sejam econômicas ou políticas - para se apropriar de um poder maior do que os limites da contabilidade pública ou da democracia permitem.

As expressões mais visíveis disso são a valorização da intuição em detrimento da técnica e a confusão entre o público e o privado, ambas apresentadas na forma de boa vontade, irreverência, despojamento e proximidade com as pessoas comuns.

Por mais simpático - ou simplório - que seja um filho do presidente se dizer pronto para ser embaixador em Washington porque fez intercâmbio e fritou hambúrgueres nos Estados Unidos, será essa a escolha tecnicamente melhor, para o país?

Foi emblemática a decisão de uma corte de apelações americana, que impediu o presidente Donald Trump de bloquear seguidores do seu perfil no Twitter, já que ele utiliza a rede social para divulgar suas ações de governo. Um presidente não é um cidadão comum. O mundo não é simples e as aparências enganam.

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