REUTERS/Marco Bello
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Roubos, escassez e agressões a médicos tornam-se comuns em hospitais da Venezuela

45% dos principais centros médicos públicos do país sofreram algum furto; crise faz com que instituições sigam lotadas mesmo sem recursos

O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2018 | 17h29

CARACAS - Os 40 hospitais mais importantes da Venezuela são cenários frequentes de roubos, descaso, protesto e até de agressões de pacientes contra a equipe médica, revela estudo da ONG Rede de Médicos pela Saúde na Venezuela. A pesquisa, que é feita semanalmente, indica que 45% desses hospitais sofreram roubos e mostra um cenário caótico nos centros de saúde do país. 

Quatro de cada dez dos hospitais pesquisados também são palcos de disparos de armas de fogo. Mesmo com a escassez de insumos, os assaltos são frequentes e o maquinário hospitalar é furtado para ser revendido no mercado negro. 

A situação ruim dos serviços de saúde - sem remédios, material para exames e até mesmo água e sabão em alguns casos - provoca a ira da população. Segundo o levantamento, foram registradas agressões contra médicos e enfermeiras em 62% dos hospitais que participaram da pesquisas. 

“Quando chega um pai com um filho asmático e o médico lhe diz que não há remédio para a asma, a primeira reação de um familiar pode ser violenta contra o plantonista”, disse o diretor da ONG, o infectologista Julio Castro.

O levantamento também mostra que protestos dos profissionais de saúde contra as más condições de trabalho são frequentes. Só na última semana foram 34 protestos em 40 hospitais. “Nos Estados onde há maior escassez de insumos médicos os protestos são mais comuns, mas também há reclamações contra atrasos de salários e benefícios”, acrescentou Castro. 

Os hospitais ainda enfrentam faltas de luz constantes – 62% dos casos - e de água – 70%. Não há alimentos para os pacientes e os 43% dos laboratórios de exames de sangue estão fechados, assim como 51% dos exames de imagens mais básicos, como o raio-X.  A escassez média de remédios é estimada em 80%. Seis em cada 10 prontos-socorros não têm remédio para hipertensão, enfarte ou anestésicos. 

Há dois anos, o governo do presidente Nicolás Maduro prometeu empregar milícias chavistas para fazer a segurança de hospitais públicos, mas, segundo a ONG, a medida fracassou. 

Ainda de acordo com Castro, a severa crise econômica do país, marcada pela pobreza em massa e a hiperinflação, faz com que, mesmo com todos esses problemas, os hospitais públicos continuem superlotados, porque a população não tem acesso a planos de saúde nem a hospitais privados. A ONG disse também que muitos dos médicos da rede pública tem medo de participar da pesquisa por represália dos diretores. 

Crise tem origem na falta de dólares para importação

O sistema público de saúde venezuelano, que durante o auge dos recursos do petróleo era eficaz, começou a enfrentar problemas a partir de 2013, quando o governo passou a restringir a venda de dólares em virtude das baixas reservas em moeda forte e da queda da receita com a venda de petróleo. Como quase todo dinheiro era usado para pagar a  pesada dívida externa venezuelana, as importações de insumos médicos ficaram comprometidas. 

Maduro por anos negou publicamente a crise no sistema de saúde do país, marcada ainda por ausência de cobertura vacinal, que fez ressurgir surtos de sarampo, febre amarela e febre tifóide. O governo da Venezuela também rejeitou nos últimos anos ofertas de ajuda humanitária de países vizinhos, em parte por negar a crise, em parte alegando que isso se trataria de uma justificativa para eventualmente promover uma intervenção militar na Venezuela.

Nesta semana, no entanto, a Venezuela aceitou um pacote inicial de US$ 9,2 milhões da ONU, que será liberado para a atuação de agências internacionais em Caracas e outras regiões. A Unicef começou a enviar 130 toneladas de remédios e suplementos nutricionais para a Venezuela. / EFE

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